Ícone do site Folha Popular

Insatisfação popular e inviabilidade econômica impactam o transporte público em Estrela

Crédito: Anderson Lopes

O cenário de todas as manhãs é conhecido pelos estrelenses: ônibus que não chegam no horário, bancos rasgados, portas que não fecham e passageiros disputando espaço em corredores abafados. Por outro lado, a nova empresa tenta reunir dados e, em 2 meses, relata atender 40% de passageiros de forma gratuita.

Os impactos refletem na prestação de serviço, que já passou por mudanças, mas prevê outras melhorias.

Enquanto isso, problemas como atrasos frequentes, falta de manutenção nos veículos e superlotação têm levado muitos passageiros a buscar alternativas, como caronas compartilhadas e aplicativos de transporte. Apesar da recente troca de operadora e das paradas inteligentes, os desafios persistem e a população espera por melhorias concretas no sistema.

Para quem depende do transporte coletivo, a escassez de horários de ônibus e o cenário caótico às margens da RSC-453 (Rota do Sol) e BR-386 é um entrave. A caixa de supermercado Ana Roth utiliza o ônibus diariamente e relata que os intervalos entre as viagens são muito longos, especialmente no período noturno. “Só tem um ônibus às 18h e outro às 19h, sendo que lota muito rápido. Quem trabalha até as 18h fica 1h esperando. Deveria ser mais frequente em horários de pico”, reclama.

Ela também critica a ineficiência das paradas inteligentes instaladas próximas ao hospital. Apesar de contarem com paredes transparentes, tomadas, carregadores e bebedouros, a falta de portas faz com que o ar-condicionado, regulado a 26 ºC, seja pouco eficiente. “É um desperdício de energia, pois o vento passa igual”, avalia.

Cansada das dificuldades, Ana e suas colegas criaram um grupo de caronas pelo WhatsApp para evitar a dependência do transporte público. “Depender de ônibus é muito complicado. Agora, combinamos horários e dividimos os custos do deslocamento”, explica.

Passageiros relatam contradições das paradas inteligentes e acreditam ser mais necessário melhorar o transporte / Crédito: Anderson Lopes

Atrasos e mudança no Bairro Nova Morada

Os atrasos são frequentes no Bairro Nova Morada. Um passageiro relata que o ônibus que deveria passar às 10h20 chegou apenas às 11h, com poucos bancos vagos e o motorista cobrando a passagem somente em dinheiro, já que o sistema de cartões foi descontinuado. “Era uma caixa de madeira cheia de moedas. Parecia coisa de outro tempo”, comenta.

A cuidadora de idosos Simone de Andrade é moradora de Lajeado, mas trabalha todos os dias, sem folga, para cuidar de acamados no hospital de Estrela. Ela utiliza tanto as linhas urbanas quanto as intermunicipais e reclama do estado precário de alguns veículos. “Os bancos estão rasgados, as portas emperram, mas, pelo menos, os motoristas são atenciosos”, diz.

Aos domingos, não há linhas de ônibus intermunicipal e ela precisa recorrer a alternativas mais caras, como lotações e Uber. “O trajeto que custa R$ 7,77 no ônibus sai por R$ 30 no Uber. Virou necessidade, não luxo”, desabafa.


Moradores do Bairro Nova Morada sofrem com atrasos diários da linha urbana, impactando nas horas de trabalho / Crédito: Anderson Lopes

Impacto na rotina de trabalho

Funcionários de empresas locais também sofrem com os atrasos. A cozinheira Ana Lúcia afirma que os horários irregulares a obrigam a compensar o tempo perdido no trabalho. “O ônibus deveria passar às 10h20, mas chega às 11h. Chego atrasada e tenho que ficar horas a mais para cumprir minha jornada”, relata.

Outra passageira do mesmo bairro reclama da superlotação. “O ônibus das 16h vai tão cheio que ninguém consegue sentar”, diz. Ela também critica a volta do pagamento apenas em dinheiro, eliminando a praticidade dos cartões e aplicativos.

Em abril deste ano, a Transportes Piraí Ltda. assumiu o transporte coletivo em Estrela, substituindo a Trevossul, que encerrou suas atividades na região. A mudança foi consolidada por meio da aquisição da empresa anterior, prometendo uma nova fase para o sistema de mobilidade urbana da cidade. A prefeitura afirma que a otimização dos serviços deve gerar uma economia anual de R$ 400 mil aos cofres públicos.

No entanto, a substituição não resolveu os problemas. “Antes, era mais pontual. Agora, os atrasos continuam”, afirma uma usuária. Ana Lúcia resume a insatisfação geral: “É uma vergonha pagar quase R$ 7,70 por um serviço que só piora”, lamenta.

Reajuste na tarifa

Em reunião recente do Conselho Municipal de Trânsito, a Transportes Piraí solicitou um aumento significativo na tarifa, de R$ 5,70 para R$ 9,11, alegando custos elevados com combustível, ampliação de rotas e manutenção da folha de pagamento. No entanto, a prefeitura aprovou apenas um reajuste parcial, elevando o valor para R$ 6,70 – mesmo valor do ajuste concedido no ano anterior.

Com a mudança de operadora, a administração municipal estabeleceu uma série de condições para garantir melhorias no serviço. Entre elas está a ampliação do atendimento, com novas linhas e horários estendidos e cobertura em praticamente todos os bairros, incluindo áreas antes desassistidas, como o interior. Isso porque os ônibus escolares, antes exclusivos para os alunos, agora atendem a comunidade. A diferença é que há monitores escolares nestes veículos.

Ainda, há gratuidade para estudantes do ensino médio, antes limitada a quem morava em um raio de 2 quilômetros da escola.

Cadastros serão reavaliados

De acordo com o diretor da Piraí, Fabrício Schneider, não havia dados dos anos anteriores sobre o serviço prestado. Um levantamento realizado em 2 meses pela nova empresa apontou que há aproximadamente 40% de gratuidade nas passagens. “Isso foge de qualquer normalidade, que varia entre 9% e 13%”, afirma.

Segundo o diretor, existem as gratuidades para pessoas com deficiência de locomoção, mas há mau uso da carteira de isento. “Vamos avaliar, pois muitas vezes a pessoa está com o pé quebrado e, depois de curá-lo, segue utilizando a carteira”, aponta.

Schneider afirma que será implementado um novo sistema com reconhecimento facial, especialmente para o idoso.

Outra mudança será o retorno do ônibus no Bairro Auxiliadora, uma das demandas da comunidade e associação local, que realizou reunião há 1 mês para decidir os principais desafios.

Empresa justifica os atrasos

Hoje, a empresa Piraí conduz os carros para lavagem em Lajeado, o que implica em demora no trajeto, principalmente na ponte da BR-386. Uma nova garagem em Estrela foi construída, restando ainda concretar a rampa, para iniciar a lavagem na própria cidade, otimizando o serviço.

O diretor justifica os atrasos dos micro-ônibus no Bairro Nova Morada devido à rodovia RSC-453, a Rota do Sol, com intensa movimentação de outros modais, como veículos lentos de carga pesada. “Difícil de manter a regularidade no horário, pois o ônibus atrasa pelo caos do trânsito, uma carreta que tranca, pequenos acidentes”, diz.

Schneider confirma a execução de um mapa com itinerário do ônibus no site, mostrando o traçado percorrido. “No futuro, queremos implementar um aplicativo que mostra em tempo real a localização dos ônibus e os pontos de referência. Assim, o passageiro terá noção do que pode estar acontecendo”, explica.

Outro problema diagnosticado são as “áreas de sombra”, nas quais não há sinal de internet. “Ainda não medimos as áreas, mas sabemos como é em Lajeado, que tem muitos pontos cegos. Em Estrela precisamos fazer esse levantamento”, conclui.

Passageiros relatam dificuldades com falta de horários dos ônibus nos domingos / Crédito: Anderson Lopes

Região dobra o número de veículos

O trajeto na Rota do Sol tem diversos trechos de maior aglomeração de carros. A cada ano, tanto as obras e condições da via quando o número de veículos corroboram para ampliar o frenesi no trânsito, principalmente em horários de pico.

Segundo dados do Detran, Estrela tinha 15.535 veículos registrados em 2017, número que chegou a 29.085 em 2024, um acréscimo de 87,22%. O crescimento é maior que o de Encantado, que registrou aumento de 76,39% no mesmo período, e menor que o de Arvorezinha, com impressionantes 117,64% de crescimento na frota.

O maior crescimento anual foi nos anos 2008-2009, com 1.089 veículos a mais, um acréscimo de 6,55%. Já o período com menor taxa de crescimento de carros foi entre os anos de 2023-2024, com 0,86%. Nota-se uma clara desaceleração após o ano de 2013.

Sair da versão mobile