A trajetória da Estrelat é exemplo de como a diversificação e a agregação de valor transformam a realidade do agronegócio. Técnico em Mecânica Industrial, Roberto de Oliveira passou a trabalhar na área em meados dos anos 1990, a convite do sogro. A experiência se somou a um histórico familiar marcado pelo empreendedorismo no campo, iniciado ainda em 1971, com a criação de um pequeno plantel e a venda direta de alimentos no meio urbano.
A Estrelat surgiu em 1997, com a entrega de leite porta a porta em litrão, prática que rapidamente ganhou escala. Ao longo dos anos, o negócio evoluiu com investimentos em estrutura, qualidade e certificação, culminando na produção de leite tipo A e, mais recentemente, na diversificação por meio da agroindústria.
A agregação de valor, intensificada a partir de 2021 com a produção de doce de leite, tornou-se um dos pilares da sustentabilidade econômica da empresa. A medida representa segurança em um cenário de forte oscilação nos preços do leite in natura.
Grupo Popular – Como começa a tua história com a produção leiteira?
Roberto de Oliveira – Começa fora do campo. Eu sou formado em Mecânica Industrial pelo Senai. Em 1995, no final do ano, perdi meu pai e logo depois conheci a Eliana Lenhard, hoje minha esposa. Meu sogro já tinha a produção de leite e nos finais de semana eu ia para o interior. Gostava muito de estar lá. Concluí o curso, trabalhei um período como mecânico industrial, até que surgiu o convite do meu sogro para trabalhar na propriedade, em meados de 1996. Sempre tivemos um espírito empreendedor. Colhíamos e vendíamos bergamota na cidade, e dali surgiu também a ideia de vender leite, em litrão.
GP – Desde quando a família Lenhard trabalha com leite?
Oliveira – O meu sogro casou em 1971 com a minha falecida sogra, dona Irma. Naquele ano, eles começaram com uma vaquinha e ganharam de presente um terneiro, depois uma ou duas novilhas. Meu sogro sempre foi muito empreendedor. Vendia aipim e ovos, no Bairro Imigrantes, em Estrela. No começo ia de bicicleta, depois passou a usar uma Brasília. Com o tempo, foi aumentando o plantel, comprando mais animais. Hoje, o plantel conta com cerca de 200 vacas, sendo aproximadamente 100 em ordenha.
GP – Como era o negócio da família antes da Estrelat?
Oliveira – O sogro já tinha uma estrutura bem organizada. Sempre trabalhou com foco em qualidade. Eles nunca se viram apenas como tiradores de leite, mas como produtores de alimentos. Na época da Lacesa, por exemplo, eles já eram referência em qualidade. Mesmo ainda tirando leite com balde ao pé, dentro da estrebaria, já se destacavam. Foram um dos primeiros a investir em sala de ordenha, ainda nos anos 80, e depois no sistema free stall.
Quando fui para lá ele tinha em torno de 100 animais no total. Eu ajudava nas férias, ajudava a fazer concreto, participava do dia a dia. Primeiro, eu e minha esposa trabalhamos como funcionários. Depois entramos como sócios, compramos parte da propriedade. A Estrelat é minha e da Eliana. Foi um negócio à parte, iniciado em 1997.
GP – Quando nasce a Estrelat?
Oliveira – De forma informal, em meados de 1997, com a entrega de leite porta a porta, no litrão. A ideia surgiu em um domingo, ao meio-dia, durante o almoço. Eu já levava leite para a minha mãe e uma vizinha perguntou se poderia trazer um litrão para ela também. Começou com um litrão. Depois, compramos uma moto, colocamos uma caixa atrás e saímos porta a porta oferecendo leite. Na primeira venda foram 15 litros. No segundo mês, já eram 500 litros vendidos por mês.
GP – Porque a Estrelat começou a produzir o leite tipo A?
Oliveira – Foi em 2019, por uma exigência da legislação que acabou retirando o leite tipo B do mercado. Em 2017 houve mudanças importantes nas normativas, como a Instrução Normativa 51 e a 134. Foram criadas para evitar fraudes no setor e elevar o padrão de qualidade do produto. Naquele momento, tínhamos duas opções. Ou entrávamos na vala comum e vendíamos leite tipo C, competindo basicamente por preço, ou buscávamos o leite tipo A como diferencial. Como as nossas análises sempre estiveram dentro dos padrões de leite A, decidimos investir na certificação da propriedade, que veio em 2019.
GP – A ideia do doce de leite surge nesse contexto?
Oliveira – Na realidade, a gente sempre quis agregar valor a algum produto. A Eliana fez cursos de laticínios e de queijos. Como nós gostamos muito de doce, decidimos testar o doce de leite em 2021. Foi justamente no período da pandemia, quando creches e escolas fecharam, o que representou uma queda de cerca de 50% nas nossas vendas de leite envasado. Começamos quase que “na brincadeira”, com um tacho, e uma cliente nos disse que a gente levava “felicidade dentro de um potinho”. Essa frase acabou virando o nosso slogan.
GP – Como vocês equilibram a agroindústria com a produção de leite?
Oliveira – O preço do leite no mercado caiu bastante, e para o produtor isso representa um impacto muito grande ao longo do ano. O ano de 2025 foi bastante atípico, com valores muito baixos, o que tem levado muitos produtores a encerrarem suas atividades. Para nós, a agroindústria garante a rentabilidade. Nós não reduzimos o preço do doce de leite, porque o cliente que compra na feira entende o diferencial do produto. Isso ajuda a compensar os meses ruins da produção de leite in natura.
GP – De que forma a participação em prêmios ajuda no crescimento da marca?
Oliveira – Tudo começou em 2021, ainda durante a pandemia, antes do. Fomos convidados pela Andreia Zwirtes e pelo Claus Wallauer para participar do concurso “Vencedores do Agronegócio”, da Federasul. Fomos a única empresa a ganhar três prêmios no mesmo ano. Em 2022, mandamos o doce de leite para um concurso em Carlos Barbosa e conquistamos a medalha de ouro. Hoje já somamos três medalhas de ouro em concursos estaduais e dois anos consecutivos de medalha de ouro na Expointer. Também conquistamos a medalha de prata no concurso nacional do “Prêmio Queijo Brasil”. A partir disso, começamos a enxergar uma expansão gradual, participando de feiras fora do Estado e levando a marca do Rio Grande do Sul para outros mercados. No ano passado, participamos de um concurso de doce de leite na Argentina, onde ficamos em primeiro lugar entre os brasileiros.

