A Queijaria Dorf surgiu a partir de uma decisão estratégica da família Jacobs diante das dificuldades enfrentadas pela produção leiteira. Com custos elevados e remuneração instável ao produtor, a alternativa encontrada foi agregar valor ao leite produzido na propriedade, localizada em Linha São Jacó, Teutônia.
Idealizado a partir de 2017, o projeto passou por 3 anos de planejamento até a implantação da estrutura física, concluída em 2020, em meio à pandemia. A produção teve início em 2021 e enfrentou um período inicial de baixa escala e dificuldades de mercado, especialmente pela ausência de feiras, eventos e canais institucionais de venda. A partir de 2022, a operação ganhou tração, ampliou o portfólio e consolidou a marca.
Grupo Popular – Como começou a história da família com a produção leiteira e o que levou à criação da queijaria?
Jackson Jacobs – O trabalho iniciou pelos nossos pais, que começaram com uma pequena propriedade e sempre na produção leiteira. Quem deu continuidade nisso foi meu irmão. Eu trabalhei fora por praticamente 20 anos. Em 2016/2017, em uma conversa informal num churrasco, meu irmão comentou a dificuldade do mercado leiteiro, com custo de produção muitas vezes maior do que o valor recebido da indústria. A família pensou: ou agregamos valor ou paramos com a produção de leite.
GP – De que forma a família planejou a implantação do projeto?
Jacobs – Foram 3 anos de estudo, de 2017 a 2019. Chegamos a pensar em embalar leite, mas seguimos estudando o mercado. Projetamos tudo e, enquanto está no papel, é fácil. Implantamos o projeto em 2020 e construímos a estrutura física. Em 2021 começamos, de fato, a produção dos queijos. O maior desafio foi a implantação em 2020, bem no início da pandemia. O que estava previsto para levar de 8 a 9 meses se estendeu por praticamente 14 meses.
GP – Como foi iniciar o negócio em meio à pandemia?
Jacobs – Alcançamos apenas 10% daquilo que a gente projetava produzir em 2021. Não tinha feiras, não tinha merenda escolar, porque não havia aulas presenciais ou turistas. Foi um momento bem difícil. A produção começou realmente a andar em 2022. Mas já havia parcelas de financiamento para pagar ao banco e não tinha recurso em caixa. Tivemos que colocar dinheiro próprio para conseguir honrar os compromissos na arrancada.
GP – Quais foram os primeiros produtos e como surgiu a aposta em inovação?
Jacobs – Começamos com o queijo colonial, mais tradicional. Em paralelo, desenvolvemos versões temperadas e o zero lactose. Depois, fomos mais ousados, com um parmesão de 6 meses de maturação, e aí surgiu o desafio dos queijos autorais, com receitas exclusivas nossas.
GP – Os queijos autorais têm um processo diferenciado?
Jacobs – Sim. Trabalhamos os autorais a partir do leite cru, sem pasteurização. O risco é maior por conta da contaminação, por isso a primeira batelada foi de apenas 500 litros. Hoje temos quatro produtos autorais. São eles: o queijo defumado, o Hunderg Tage, com 100 dias de maturação, o Käse Bier, maturado no chope e o Kaaffe Kase, maturado no café.
GP – Como surgiu a marca “Dorf”?
Jacobs – Contratamos uma pessoa terceirizada para trabalhar a marca e o logo. O registro da marca foi fundamental. Dorf vem de um período que passamos na Alemanha, onde existem muitos pequenos vilarejos. Dorf significa vilarejo. Não tem relação com o sobrenome, que é Jacobs.
GP – As feiras têm um peso importante no faturamento da queijaria?
Jacobs – Hoje, entre 65% e 70% do faturamento vem das feiras e eventos. Participamos de 20 a 30 feiras por ano, como a Expodireto e a Expointer. O diferencial está na apresentação: embalagem, rotulagem e um expositor bem estruturado. O consumidor compra primeiro pelo visual e, depois, pela degustação. O queijo coalho no palito, assado na hora, tem uma aceitação muito boa.
GP – Existem parcerias estratégicas nesse processo?
Jacobs – Temos parceria com a Queijaria Alma, de Gramado. Eles trabalham apenas com queijos mofados. Nós produzimos o parmesão para eles e eles produzem o queijo brie para a marca Dorf. Isso evita contaminação cruzada, já que não poderíamos produzir queijos de mofo dentro da nossa planta original.
GP – Como vocês organizam a gestão financeira da agroindústria?
Jacobs – A agroindústria precisa ser tratada como empresa. A conta de água e luz da queijaria é separada da propriedade. O caixa particular é um, o da empresa é outro. Para viabilizar a propriedade, a queijaria repassa R$ 3 por litro de leite, garantindo estabilidade ao produtor mesmo quando o mercado paga menos.
GP – O futuro do negócio passa pela sucessão familiar?
Jacobs – Sim. Meu filho, de 19 anos, foi para Juiz de Fora (MG) estudar Engenharia de Alimentos com foco na área láctea para dar sequência ao negócio. O objetivo é manter a qualidade e a padronização, mesmo sendo um produto artesanal, que sofre variações conforme a alimentação do gado ou a estação do ano.

