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A essência do “feito em casa” que consagrou a Delícias da Rose

Rosângela Boehm Müller / Crédito: Luciana Brune

O despertador de Rosângela Boehm Müller, carinhosamente conhecida como Rose, costuma tocar nas madrugadas, muitas vezes por volta das 3h. É neste horário que os bastidores da Delícias da Rose ganham vida para garantir que tortas, doces e salgados cheguem fresquinhos às mesas dos clientes. O que hoje é uma operação robusta, com cerca de 20 colaboradoras, começou há mais de uma década com uma decisão ousada: abrir mão da estabilidade de um concurso público para desbravar o mundo do empreendedorismo.

Na época em que era servidora da Prefeitura de Teutônia, Rose sentia que precisava de algo mais desafiador. Junto ao marido, Ismael, que precisou deixar seu emprego em um curtume por questões de saúde, ela decidiu ingressar no ramo da alimentação, área na qual não tinham nenhuma experiência direta.

A preparação, no entanto, foi intensa: durante cerca de 2 anos antes de abrir as portas, o casal mergulhou em diversos cursos de confeitaria. A cozinha de casa virou um laboratório, e os vizinhos, os primeiros provadores oficiais de suas receitas. A transição foi gradual e extenuante, com Rose trabalhando na Prefeitura até as 17h e produzindo doces até as 3h da madrugada, antes de finalmente pedir exoneração para focar 100% no próprio negócio.

O segredo da qualidade

Se o início exigiu coragem, a consolidação da marca veio através de uma regra de ouro: a qualidade inegociável da produção própria. A empresa se recusa a utilizar atalhos industriais, como emulsificantes, amidos ou recheios prontos. “É comprar um produto e pensar assim, como se tivesse feito na tua casa”, explica Rose. Todos os molhos, carnes e recheios são preparados do zero na cozinha da empresa. Essa busca pela perfeição reflete-se na escolha rigorosa de fornecedores.

Rose detalha que só utiliza marcas específicas de nata, leite condensado e chocolate, pois a troca de um ingrediente pode desandar a receita. O controle de qualidade é rígido: se um doce não atinge o ponto certo, ele é descartado e refeito. “Enquanto não saiu da porta, tem que refazer”, afirma. A empreendedora destaca a responsabilidade de atender às expectativas dos clientes. Para garantir o frescor, as montagens são feitas o mais próximo possível do horário de entrega, especialmente produtos delicados, como as tortas de morango.

Criatividade e uma vitrine de variedades

A inovação é constante no cardápio. Ismael atua nos bastidores como o grande idealizador de novos sabores, testando ideias e receitas com paciência. A empresa mantém testes semanais de novos produtos, muitas vezes inspirados por sugestões da própria equipe. Hoje, o sistema da Delícias da Rose contabiliza mais de 1.000 itens cadastrados e oferece uma variedade impressionante de cerca de 100 tipos de docinhos e 40 a 50 sabores de tortas. Apesar de tanta diversidade, um clássico continua reinando absoluto: o docinho de leite ninho com Nutella, presente em quase 80% dos pedidos.

Atendimento humanizado em tempos digitais

Mesmo com a recente modernização da gestão, incluindo a implantação de um sistema e um site para encomendas, a Delícias da Rose não abre mão do atendimento personalizado. Monique, responsável pelo WhatsApp da empresa, orienta os clientes ativamente. Muito além de anotar pedidos, a equipe atua como consultora e ajuda a calcular a quantidade ideal de comida, para evitar tanto a falta quanto o desperdício nas festas – prática que gera forte confiança com a clientela.

A virada de chave: maternidade e autocuidado

Durante os primeiros 5 a 7 anos, a dedicação ao negócio foi quase exclusiva. Rose absorvia funções de compras, atendimento, produção e gestão. As folgas eram inexistentes e o cansaço, uma constante. A grande mudança de perspectiva, porém, veio com a maternidade. A chegada de seu filho, Caio, hoje com 4 anos, foi a “sacudida” que a empreendedora precisava para perceber que a vida ia além das portas da padaria. “Entramos no negócio e esquecemos das pessoas da gente”, reflete Rose.

Percebendo a necessidade de estar presente para ver o filho crescer e levá-lo à escola, ela buscou mentorias para aprender a delegar tarefas e confiar na autonomia de sua equipe. Hoje, ela se permite ir à academia à noite, tirar folgas semanais e, finalmente, desfrutar de um chimarrão com o marido no fim do dia, um luxo impensável nos primeiros anos da empresa. Esse autocuidado não apenas melhorou sua qualidade de vida, mas também, refletiu na saúde do negócio. “Se não estamos bem, o negócio também não vai bem”, avalia, ressaltando a importância de um líder que inspira equilíbrio e não apenas exaustão.

Para quem sonha em empreender, a trajetória de Rose deixa uma lição clara sobre resiliência e planejamento: “Melhor tentar do que ficar pensando como seria”. Com uma equipe estruturada e projetos de expansão física para os próximos anos, a menina que vendia hortaliças na feira com o pai provou que é possível construir um grande negócio sem perder o tempero e o cuidado do que é feito em casa.

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