A comunidade de Linha Clara, no interior de Teutônia, realizou no sábado o tradicional Baile do Rei do Tiro ao Alvo, evento que marca a coroação da nova corte da competição e preserva uma tradição mantida há cerca de 115 anos na localidade. A celebração reuniu aproximadamente 600 pessoas no salão da Associação Cultural e contou com a presença de autoridades, entre elas o prefeito de Teutônia, Renato Altmann, e o prefeito de Westfália, Cesar Juliano Bloemker.
A programação começou ainda no fim da tarde, quando moradores e convidados se reuniram em frente à casa do novo rei do tiro, Ariberto Magedanz. Acompanhados por uma banda, os participantes caminharam até a residência do anfitrião, onde ocorreu uma recepção informal antes da sequência das atividades no salão comunitário.
O encontro marca um dos momentos mais simbólicos da tradição do tiro ao alvo na localidade, prática trazida por imigrantes alemães e preservada ao longo das gerações. Mais do que uma competição esportiva, a atividade se consolidou como um elemento cultural e de integração comunitária.
Para Ariberto Magedanz, assumir o título de rei representa reconhecimento e também responsabilidade dentro da tradição.
“É a primeira vez que tenho a honra de ser coroado rei do tiro. Também sentimos a responsabilidade de manter essa atividade viva e incentivar as próximas gerações”, afirmou.
Segundo ele, o tiro ao alvo chegou à região junto com os imigrantes alemães, inicialmente ligado à segurança das comunidades rurais, e ao longo do tempo transformou-se em prática esportiva e social. “A Linha Clara preserva essa tradição há mais de 100 anos, e isso por si só já é motivo de orgulho”, acrescentou.
Participação feminina ganha espaço
Nas últimas décadas, a tradição também passou por mudanças. Desde 2006, as mulheres participam oficialmente da competição, ampliando a presença feminina nas atividades da sociedade.
Neste ano, Mariane Michel Wiebusch conquistou o título de rainha após trajetória como princesa e destaque entre as atiradoras. Para ela, a participação feminina tem crescido gradualmente dentro da comunidade.
“Cada vez mais mulheres estão participando e entrando na competição. Isso mostra que a tradição continua se renovando”, afirmou.
A atiradora Aneli Janete Bayer Krützmann, que conquistou pela segunda vez o título de primeira princesa, destaca que a prática exige concentração e controle emocional.
“Na hora do tiro é preciso manter a calma e se concentrar bastante”, explicou.
O evento também mobiliza famílias inteiras. O agricultor Adêmio Krützmann, que acompanhava a esposa durante a celebração, lembrou que também já participou da competição em outras edições.
“Já fui melhor atirador e segundo cavalheiro em anos anteriores. É uma tradição que a gente acompanha há muito tempo”, disse.
Memória e reencontro com a comunidade
Entre os participantes estava Ronald Driemeyer, de 77 anos, que voltou à comunidade onde nasceu para acompanhar a festa. Morador de Porto Alegre há décadas, ele decidiu retornar a Linha Clara para rever a tradição que marcou sua juventude.
“Eu nasci aqui em 1948 e saí em 1968 para estudar. Hoje quis voltar para assistir essa festa”, contou. Segundo ele, muitos dos moradores que participavam das celebrações nas décadas passadas já não estão mais presentes, mas o espírito comunitário permanece.
“As pessoas da minha época foram importantes para construir essa comunidade. Elas tinham uma energia muito grande”, lembrou.
Driemeyer também guarda na memória sua própria participação na competição, quando conquistou o título de melhor atirador na década de 1970.
Comunidade mobilizada
Após a recepção na casa do rei, os participantes caminharam cerca de 150 metros até o salão da Associação Cultural de Linha Clara, onde ocorreu a cerimônia oficial de coroação da nova corte.
A programação seguiu com jantar comunitário e baile, reunindo moradores, famílias da região e visitantes. A organização do evento envolve voluntários da própria comunidade, característica que ajuda a manter viva a tradição ao longo das décadas.
Pequenos gestos também reforçam o espírito coletivo do encontro. Durante o jantar, por exemplo, os participantes que devolviam seus pratos na cozinha recebiam um pirulito como forma simbólica de agradecimento pelo cuidado com o trabalho das voluntárias.
Mais do que um evento festivo, o Baile do Rei do Tiro ao Alvo segue como um dos principais momentos de encontro da comunidade de Linha Clara, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações e continua reunindo moradores em torno da cultura local.

