Ícone do site Folha Popular

Reconstrução de escolas se arrasta e expõe impacto direto na aprendizagem

Na escola Fernandes Vieira, ninguém atua na reforma / Crédito: Anderson Lopes

Dois anos após as enchentes que devastaram o Vale do Taquari, a reconstrução das escolas estaduais ainda ocorre de forma desigual e lenta, com reflexos diretos no cotidiano de alunos e professores. Das 31 instituições atingidas, apenas oito haviam retomado as atividades em seus prédios originais até o fim de 2024. Outras 13 não voltarão aos locais antigos por risco climático, dependendo da construção de novas sedes, algumas com previsão apenas para 2027.

Enquanto isso, mais de 600 alunos iniciaram o ano letivo de 2026 em espaços provisórios, como universidades, prédios administrativos e até salões paroquiais.

Em Lajeado, a Escola Estadual Fernandes Vieira segue sem condições de retorno ao prédio original, ainda em reconstrução. Os cerca de 200 alunos foram absorvidos pela Moisés Cândido Veloso. O número de estudantes praticamente dobrou. Parte do prédio que era utilizado para programas extraclasse, como auditório e salas de aula, foram cedidas à escola Fernandes Vieira. A estrutura, que atendia 170 alunos, passou a comportar 300 por dia.

De acordo com a diretora Savênia Gonçalves, a convivência entre as duas escolas impõe desafios operacionais constantes. “Dividir espaço não é fácil para ninguém. Há áreas em comum convívio, mesmo que cada escola siga horários diferentes. O movimento de crianças praticamente dobrou, e isso muda toda a dinâmica da escola”, relata.

Na prática, a rotina revela um sistema sob pressão. Aumento de alunos com necessidades específicas, falta de monitores e sobrecarga docente são parte do cotidiano. Cada professor precisa ter atividades como se fossem aulas diferentes em uma mesma turma. “Hoje, por exemplo, eu estava sozinha para cuidar do recreio. E nós temos crianças que se desesperam, entram em crise. É uma realidade mais exigente”, descreve a diretora.

O aumento no número de alunos neurodivergentes, com casos de autismo e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), por exemplo, expõe a falta de profissionais de apoio. “Cada aluno é um caso diferente. Às vezes a professora precisa parar a aula da turma para atender um aluno específico. E os outros ficam esperando”, relata a diretora. A situação reacende um debate sensível dentro da escola, sobre como garantir inclusão de qualidade sem suporte adequado.

Hoje, mais de 30 alunos precisam de atendimento educacional especializado, mas há apenas uma profissional para essa função. Professores relatam a necessidade de adaptar conteúdos simultaneamente para diferentes níveis de aprendizagem. “É como dar três aulas ao mesmo tempo. Elas fazem malabarismo”, resume Savênia.


Diretora da escola Moisés Cândido Veloso, Savênia Gonçalves busca equilibrar convívio após vinda de alunos da Fernandes Vieira / Crédito: Anderson Lopes

Obras paradas e falta de prazos

Se dentro das escolas o desafio é dar conta da demanda, fora delas a principal crítica é a lentidão das obras públicas do Estado. No caso da escola Fernandes Vieira, relatos apontam falta de cronograma definido e ausência de trabalhadores no local, indicando que a obra está parada. A dificuldade em manter empresas responsáveis pelas obras também é citada como entrave recorrente, o que gera trocas de contratos e novos atrasos.

O cenário se repete em diferentes municípios da região. Em Roca Sales, a Escola Estadual Padre Fernando foi destruída e hoje funciona em um salão paroquial. Embora exista um terreno definido para a nova sede, as obras ainda não começaram.

Em Encantado, a escola Antônio de Conto opera em um prédio da UERGS, sem previsão oficial para reconstrução. Em Estrela, a escola Moinhos segue em funcionamento provisório em outra instituição, enquanto aguarda definição de um novo espaço. Já em Arroio do Meio, a escola Guararapes, única da rede estadual no município, ainda apresenta estruturas comprometidas, mesmo após 2 anos da enchente.

Indignação e cobrança

A situação da escola em Arroio do Meio motivou um desabafo da professora aposentada Vera Silveira Regert, que questiona a demora na reconstrução. “Não consigo compreender como a única escola estadual do município ainda não tem prazo para estar pronta”, afirma.

Ela também critica o fato de alunos e professores conviverem diariamente com marcas da enchente. “Frequentam um educandário semidestruído, sem saber quando isso vai terminar. A morosidade é descaso com a educação ou incompetência administrativa?”, questiona.

Além da infraestrutura física, há perdas simbólicas e pedagógicas. A Fernandes Vieira, que se aproxima de seu centenário, ficou completamente desestruturada após a enchente de 2024. A diretora Carma Marder, que atua na instituição há mais de duas décadas, descreve o impacto da destruição: “A primeira pergunta foi ‘e agora? Para onde ir?’ Como recomeçar?”


Diretora da Fernandes Vieira, Carma Marder aguarda conclusão das obras até o centenário do educandário / Crédito: Anderson Lopes

A escola perdeu praticamente tudo, inclusive materiais que haviam sido salvos da enchente anterior. “A gente levou tudo para o andar de cima achando que estaria seguro. Mas a água chegou até lá também”, lamenta. A escola perdeu equipamentos, biblioteca e materiais, mesmo após uma reforma recente.

A instituição chegou a ser dividida em três locais diferentes antes de ser reunificada em um espaço compartilhado. Carma resume o impacto emocional da mudança, junto à expectativa de celebrar os 100 anos no prédio original. “Tinha aluno em um lugar, outro em outro, até a equipe diretiva precisava se dividir. Não dava para continuar assim. Fomos muito bem acolhidos, mas não é a nossa casa”, afirma.

Os efeitos da descontinuidade educacional já são mensuráveis. Em Cruzeiro do Sul, os índices de alfabetização em escola municipal caíram 48% entre 2023 e 2024. A queda é associada à interrupção das aulas, deslocamento de alunos e instabilidade no ambiente escolar.

Resposta oficial e lacunas

A falta de avanço nas obras também é atribuída a entraves contratuais. De acordo com relatos de fontes ligadas à comunidade escolar, a empresa responsável pela reforma da Escola Estadual Fernandes Vieira teria desistido da execução do projeto, e até o momento não há confirmação de uma nova contratada para dar continuidade aos trabalhos.

Na prática, o que se observa é um cenário de paralisação. “Não tem ninguém trabalhando. A obra está parada, aberta, sem definição de prazo”, relata uma das fontes ouvidas pela reportagem.

Procurada, a 3ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE) reconheceu que os efeitos das enchentes serão de longo prazo. Em nota, a coordenação afirmou que trabalha com planos de contingência, ações de acolhimento e estratégias pedagógicas para manter a qualidade do ensino. No entanto, na ponta, escolas seguem enfrentando desafios estruturais, falta de profissionais e ausência de prazos claros para retorno à normalidade.

A reportagem também procurou as secretarias estaduais de Obras Públicas e de Educação para esclarecer o andamento das obras, os critérios de prioridade e os cronogramas das reconstruções. Até o fechamento desta edição, não houve retorno.

Sair da versão mobile