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Escola Professor Alfredo Schneider é exemplo de inclusão e acolhimento

A Libras transformou a realidade de Pietra e Matheus, tanto em casa quanto no ambiente escolar / Crédito: Letícia Echer

Nessa sexta-feira (24/4) comemorou-se o Dia Nacional da Língua de Sinais no Brasil. A data reforça a importância da Libras para a inclusão de pessoas com dificuldades na comunicação oral. No contexto escolar, a Libras é peça-chave para a integração de alunos com limitações auditivas ao universo da sala de aula.

Na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Professor Alfredo Schneider, no Bairro Teutônia, a inclusão não é apenas um conceito estático, é rotina. Hoje, o educandário é o único da rede a possuir intérprete de Libras. Tatiane da Silveira Vargas, de Tabaí, acompanha dois alunos com deficiência auditiva: Matheus Augusto da Silva Fortes (8) e Pietra Schaeffer Soares (4).

Para celebrar a data e incluir ainda mais as crianças, Tatiane e a professora do Atendimento Educacional Especializado (AEE), Tainá Oliveira Mendes, explicaram a Língua de Sinais para os alunos da Educação Infantil ao 9º ano. A programação culminou em uma apresentação em Libras para toda a escola, realizada nessa sexta-feira. A atividade encerrou com a reprodução do alfabeto em Libras pelos jovens.

A diretora do educandário, Karina Scholz, destaca a aprendizagem mútua entre docentes e alunos. “Eu não estudei Libras. Que bom que hoje esses alunos estão na escola e têm a oportunidade de aprender, assim como os colegas. Fico contente de poder praticar também”, afirma.

O processo é transformador para todos os envolvidos. “Ser a intérprete deles me faz sentir que estou na profissão certa. Poder ser a ponte na comunicação e contribuir no processo de aprendizagem é muito significativo”, relata Tatiane.

O desenvolvimento de Matheus e Pietra são o pilar deste trabalho. “Nem sempre é fácil, há desafios, mas cada evolução me faz sentir útil e realizada, pois sei que estou contribuindo para o desenvolvimento deles”, diz ela.

O suporte pedagógico é ampliado pela professora Tainá, que também atende estudantes com deficiências e transtornos do neurodesenvolvimento. Ela é licenciada em Educação Especial, atua no município há 4 anos, sendo 2 deles na escola Alfredo Schneider. No momento, auxilia 32 alunos. Para ela, a relação com Matheus e Pietra é de trocas constantes.

“A inclusão é um processo gradual, construído e aprimorado diariamente. O novo muitas vezes causa insegurança, mas o essencial é estar disposto a promover mudanças. Isso implica desenvolver um trabalho voltado a todos os alunos, priorizando o respeito e o compromisso contínuo de buscar novas informações e estratégias para que a inclusão, de fato, aconteça”, salienta.

Nova forma de se comunicar

Matheus nasceu ouvinte, mas, no primeiro ano de vida, a mãe Arieli Larissa da Silva Siqueira percebeu mudanças no comportamento do menino. A perda de audição foi confirmada com 1 ano e meio, mas sem conhecimento do nível da condição.

Ele foi encaminhado para exames no início de 2020, mas a pandemia atrasou o processo. Apenas em setembro a família descobriu que Matheus estava perdendo a audição rapidamente. Mais tarde, os médicos concluíram que a causa foi rubéola, contraída entre o nascimento e o primeiro ano de vida.

A família testou o aparelho auditivo comum e o implante coclear, mas não houve ganhos significativos. Diante disso, iniciou o ensino de Libras. “Dali em diante, a situação mudou drasticamente. Ele se encontrou, é nítida a diferença. Desde que ele começou a usar Libras, ele passou a desenvolver a comunicação e até aprendeu a falar algumas palavrinhas curtas”, comemora a mãe.

A professora Marisa Brandão Leuchtenberger foi a primeira intérprete de Matheus, ainda na creche. A comunicação através de sinais estabeleceu uma nova realidade para a família. “Abriu um novo mundo, nos apresentou à comunidade surda de Teutônia e me iniciou em Libras, porque tive que aprender junto com ele”, conta Arieli.

A intérprete Tatiane o acompanha desde os 6 anos. “Ela é um anjo nas nossas vidas, não tem o que falar. O Matheus e ela criaram uma relação maravilhosa, uma conexão muito forte”, afirma a mãe.

Em 2026, a família se mudou para o Bairro Teutônia e, consequentemente, Matheus passou a frequentar a escola Alfredo Schneider. “Ele foi muito bem recebido e se adaptou muito bem. A estrutura da escola é muito boa, ele ama ir. Dá para perceber como evoluiu, está plenamente incluído na turma”, comemora ela.

O envolvimento da comunidade também é essencial para uma integração completa. “Nós encontramos crianças de outras turmas na rua, pelo bairro e elas falam com ele em Libras”, ressalta Arieli.

Um jeito diferente de ver o mundo

A pequena Pietra também está aprendendo Libras. A família descobriu a perda auditiva logo no teste da orelhinha. “Foi um susto, mas também, um aprendizado”, lembra a mãe, Brenda Paola Marques Schaeffer. Assim como Matheus, Pietra usou o aparelho auditivo e o implante coclear, mas não se adaptou aos dispositivos.

Ela começou a aprender a Língua de Sinais no ano passado, na Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Darcy Ribeiro. Antes disso, a família precisou se adaptar. “Nós fazíamos uso de alguns sinais básicos e outros que inventamos em casa para ajudar na comunicação”, explica Brenda.

A mãe também utiliza materiais de apoio, como uma enciclopédia de Libras e a fonoterapia, que reforça a aprendizagem da Língua de Sinais e estimula a vocalização de Pietra. Na escola, ela e Tatiane desenvolvem um caderno com sinais básicos.

A mãe relata que a experiência transformou sua realidade. “Achamos que seria muito difícil, mas aprendi a ver o mundo de outro jeito com o passar do tempo”, enfatiza. A entrada na escola também é um marco nesse processo. Para Brenda, a Alfredo Schneider é um ambiente totalmente acolhedor, aberto a ensinar e aprender com a menina.

Apesar dos desafios, cada avanço de Pietra reforça a importância da inclusão e a família celebra cada conquista. “Pietra é luz nas nossas vidas, ver ela crescer é inspirador”, diz a mãe.

Libras conectam gerações

A ex-aluna Marciéli Allebrandt relembra a própria trajetória, em mais um exemplo de inclusão no educandário. Ela nasceu com perda auditiva e, hoje, usa aparelho auditivo. Em 2001, estudava ao lado do irmão, Uilson Allebrandt, também deficiente auditivo.

Durante as aulas, eles tinham o apoio da intérprete Marisa. Em um ambiente que reunia surdos e ouvintes, a profissional facilitava a comunicação e também ensinava a Língua de Sinais.

Hoje, Marciéli é mãe de Lucca Gabriel Costa e Lívia Helena Costa, ambos ouvintes. Lucca também estuda na Alfredo Schneider e a família segue envolvida na aprendizagem de Libras, tanto na escola quanto em casa.

A história evidencia como a educação inclusiva pode atravessar gerações e fortalecer o vínculo da escola com a comunidade.

Crédito: Arquivo Pessoal

No município

Segundo a Secretaria Municipal de Educação de Teutônia, a rede possui 332 alunos diagnosticados com algum tipo de deficiência. Entre esses estudantes, alguns conseguem acompanhar a turma, outros são assistidos por monitores e alguns casos mais complexos necessitam de monitor individualizado.

O Serviço Municipal de Apoio Escolar e Ação Restaurativa (Semear) é o órgão da secretaria que atua nestas questões, avaliando cada necessidade. São 75 profissionais de apoio para os professores, entre monitores e estagiários. Ainda, há o apoio da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e da Secretaria de Saúde.

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