A presença de uma jovem intercambista da Turquia em Teutônia tem chamado a atenção, não apenas pela troca cultural, mas também, por uma coincidência simbólica. Neste ano, o tradicional Baile das Nações, promovido pelo Rotary Club de Teutônia, terá justamente a Turquia como país homenageado, o mesmo de origem de Zeynep Karakusoglu (18), que vive atualmente no município de Ivoti.
A estudante está no Brasil há pouco mais de 8 meses e deve permanecer por mais dois, completando quase 1 ano de intercâmbio por meio do Rotary International. Ela veio a convite de uma família rotariana. Nesse período, aprendeu português com rapidez, ainda com algumas trocas de pronomes, mas com comunicação clara e espontânea.
“Eu não sabia nada antes de chegar aqui, e agora, estou falando”, relata ela, que destaca o aprendizado para além do idioma. Para Zey, a experiência representa crescimento pessoal e uma mudança profunda na forma de enxergar o mundo. “Agora, eu me sinto do mundo. Quando você conhece outro país, outra língua, percebe que o mundo é pequeno e cheio de culturas diferentes, mas todas maravilhosas”, completa.
Natural do Sul da Turquia e com vínculos familiares em Istambul, Zeynep descreve com entusiasmo a singularidade do país de origem. Um dos pontos que mais chama atenção é a geografia da principal cidade turca, considerada a única do mundo situada em dois continentes.
Cortada pelo Estreito de Bósforo, canal marítimo que interliga o Mar Negro ao Mar de Mármara e separa os continentes europeu e asiático, Istambul conecta Europa e Ásia, permitindo que seus habitantes transitem entre os continentes no cotidiano, seja por pontes ou embarcações. “Quando você está na Ásia, consegue ver a Europa. A gente vive entre os dois lados”, explica ela.
A jovem também ressalta a riqueza histórica do país, marcada pelo legado do Império Otomano e pela transformação em uma nação moderna, com estado laico, a partir das reformas lideradas por Mustafa Kemal Atatürk. “Temos muitos lugares históricos, de diferentes épocas e religiões. É uma história muito rica”, afirma Zey.
Ao ser questionada sobre a bandeira do seu país, agradece à pergunta e se diz honrada ao falar dos emblemas estrela e lua ao fundo vermelho. “Tivemos muitas guerras, e foi com o sangue de muitos turcos que conseguimos manter nosso país soberano. Ao fim das batalhas, os guerreiros que conseguiam voltar à sua pátria chegavam à noite e viam a estrela e a lua refletida no sangue derramado na terra”, conta ela.
Outro ponto destacado por Zey é a necessidade de desconstruir estereótipos sobre a Turquia, especialmente no que diz respeito à religião. Embora a maioria da população seja muçulmana, ela enfatiza que há liberdade individual nas práticas religiosas.
Segundo a estudante, o uso do Hijab (lenço sobre o cabelo), por exemplo, não é obrigatório. “Se quiser usar, pode. Se não quiser, não precisa. É uma escolha”, explica ela, que diferencia a cultura turca de outras tradições frequentemente associadas de forma generalizada no Ocidente.
Do estereótipo à descoberta do Brasil
Se por um lado Zeynep ajuda a explicar sua cultura, por outro, também teve percepções transformadas sobre o Brasil. Antes de chegar, sua visão era limitada a imagens de favela, pobreza, violência e estereótipos como carnaval e samba.
“Eu achava que o Brasil era só isso. Minha família até ficou preocupada, me questionavam por que o Brasil”, conta. A realidade encontrada, no entanto, foi diferente: “Conheci pessoas maravilhosas, uma cultura muito rica. Adorei. É um país maravilhoso.”
Agora em Teutônia, ela destaca a acolhida da comunidade e da família anfitriã, composta pelo casal rotariano Neusa e Milton Wallauer, além do suporte do Rotary. “Me sinto em família”, resume Zeynep.
Antes de voltar à Turquia, a jovem promete preparar um prato típico turco tradicional ao casal anfitrião, o yamala. O alimento consiste em uma “pizza empilhada” ou um prato de massa em camadas de pão fino (semelhante a tortilhas, chamado lavaş) intercaladas com uma mistura de carne moída, vegetais e especiarias.
Intercâmbio como ponte entre culturas
O intercâmbio promovido pelo Rotary International funciona por meio de uma rede de famílias anfitriãs e permite que jovens vivenciem outras culturas sem custos diretos de hospedagem, em um sistema de troca.
Para Zey, o processo exige coragem, especialmente pela distância da família e pelo desafio de adaptação. “É difícil no começo, você está longe de tudo, precisa fazer tudo sozinha. Mas é uma experiência maravilhosa. Eu já ganhei muito com isso”, afirma a jovem.
A vivência, segundo ela, vai além do intercâmbio tradicional: “Você aprende uma nova língua, conhece outra cultura e mostra a sua. Isso muda tudo.”
Para a presidente do Rotary Club de Teutônia, Ingrid Elisa Hauschild, a presença da intercambista reforça o propósito do programa e traz um elemento inesperado ao calendário do clube. “É uma honra muito grande e uma coincidência, porque não foi planejado. A Zeynep chegou por meio de contatos e vai trazer um brilho ainda maior para o nosso Baile das Nações”, destaca.
O evento, que acontece a partir das 19h30 deste sábado na Associação Pró-Desenvolvimento de Languiru (APDL), tem como proposta valorizar diferentes culturas ao longo dos anos e, em 2026, homenageia justamente a Turquia.
A presença da jovem turca em Teutônia reforça como iniciativas locais podem aproximar realidades distantes. Seja por meio do intercâmbio ou de eventos como o Baile das Nações, o contato direto entre culturas amplia horizontes e desafia percepções.
Zeynep resume a experiência com uma ideia simples, mas poderosa: “Eu não sou mais turca. Agora, eu sou do mundo. Você pensa isso quando conhece um novo idioma, um novo país. O mundo tem muitas outras culturas, outras vidas, mas é tudo maravilho e a gente se torna parecido, não somos mais estranhos”, conclui.

