Com duas décadas de atuação, a médica veterinária Renata Bortoluzzi Madeira, proprietária da Clínica Gigi Pet, fala sobre desafios e recompensas de uma carreira dedicada ao bem-estar animal. Primeira a abrir uma clínica de cães e gatos em Teutônia, Renata reflete sobre a evolução do setor e como os animais deixaram de ser apenas bichos de estimação para se tornarem membros das famílias.
Vocação que vem de berço
A escolha pela veterinária não foi por acaso. Filha de médico veterinário, Renata cresceu inserida nesse universo, acompanhando o trabalho do pai no Ministério da Agricultura e em atendimentos domiciliares. “Sempre foi Veterinária, sempre. Eu nunca hesitei em fazer outra coisa”, afirma. Ela se considera 100% realizada em sua escolha profissional, apesar dos inúmeros desafios diários. Atualmente, demonstra especial entusiasmo pela área cirúrgica, já tendo realizado mais de 10 mil castrações ao longo da carreira.
Empreender além do consultório
Abrir a Gigi Pet há 19 anos foi um passo espontâneo, mas que trouxe aprendizados árduos sobre gestão. Renata destaca que a faculdade forma o médico, mas não o gestor. Isso exige que o profissional aprenda a lidar com finanças, marketing e burocracias tributárias na prática. Outro obstáculo significativo mencionado é a escassez de mão de obra especializada, pois, segundo ela, amar os animais é diferente de ter vocação para enfrentar as adversidades da rotina clínica, que podem variar de um banho rotineiro a uma eutanásia em poucas horas.
A complexidade Veterinária
Engana-se quem pensa que a Veterinária é mais simples que a medicina humana. Renata enfatiza que a classe estuda tanto quanto os médicos de humanos, com o agravante de lidar com múltiplas espécies. Hoje, a área possui especialidades avançadas como cardiologia, nefrologia e neurologia, além do crescente mercado de pets não convencionais, como coelhos, répteis, aves e outros. O avanço tecnológico permite procedimentos complexos, como uma cirurgia de coluna, realizados por especialistas desta área na Medicina Veterinária.
“Remédio em forma de pelo”
A relação entre humanos e animais mudou drasticamente. Hoje, os pets são vistos como suporte emocional em casos de “síndrome do ninho vazio”, perdas familiares e outras realidades. Renata cita estudos e práticas hospitalares que comprovam que a presença de animais pode estabilizar a pressão arterial em alguns casos, e auxiliar em memórias afetivas, funcionando como parte essencial de terapias. “Animais são um remédio em forma de pelo”, define a veterinária. Ela observa que esse cuidado maior resultou em um aumento expressivo na expectativa de vida dos bichos. Hoje, Renata tem uma vasta gama de pacientes geriátricos.
Ética e a difícil decisão da eutanásia
Um dos pontos mais sensíveis da entrevista foi a discussão sobre a eutanásia. Renata acredita que, neste aspecto, a Veterinária é mais evoluída que a medicina humana, ao permitir a interrupção do sofrimento terminal. Ela compartilhou sua experiência pessoal com sua cadela Bia, que aos 14 anos sofria de demência e incontinência. Tomar a decisão de abreviar a vida de seu próprio animal foi uma dor gigantesca, mas que trouxe uma paz profunda e a ajudou a acolher melhor seus clientes em situações semelhantes. Ela ressalta, porém, o conflito ético que surge quando há condições de cura, mas o tutor não possui recursos financeiros para o tratamento.
Maternidade e a mudança de prioridades
Há 8 anos, a chegada da filha Júlia transformou a visão de mundo de Renata. Como profissional autônoma, ela enfrentou o desafio de voltar ao trabalho poucos dias após o parto, mas hoje, busca um equilíbrio maior, reservando tempo para a família e estabelecendo limites na agenda. “Minhas prioridades hoje são outras”, revela. Ela explica que a maternidade a ensinou a pisar no freio e valorizar o suporte emocional que os animais também proporcionam às crianças.
Compromisso com a comunidade e ONGs
Além do atendimento particular, Renata atua lado a lado com o poder público e ONGs, como a Patas Solidárias. O trabalho voluntário exige lidar com casos urgentes, sem histórico prévio e com recursos limitados. Para ela, esse envolvimento faz parte de seu propósito de vida: salvar vidas e melhorar a qualidade de vida das pessoas, entendendo que, quando um animal está doente, a família toda adoece junto. Renata sente orgulho da profissional e do ser humano que se tornou, mantendo sempre o compromisso com o aprendizado contínuo e a empatia no acolhimento de tutores e seus pets.
