A trajetória da Distribuidora Três Unidas e da família Osterkamp acompanha o desenvolvimento do Bairro Languiru e a consolidação de Teutônia como polo regional. A empresa nasceu em Linha Clara em 1965 como Bruno Tiggemann e Companhia Limitada e, em 1975, se estabeleceu em Languiru. Ao longo de um percurso marcado por crescimento e fusões, a família também deu origem ao primeiro centro comercial da cidade, na Casa Velha.
A história está diretamente ligada à atuação de Adelmo Osterkamp, cuja condução dos negócios e participação na comunidade ajudaram a moldar o crescimento da empresa e do município. Em entrevista ao Grupo Popular, Gerta Osterkamp, Elke Elena Osterkamp Staggemeier e Ana Elisa Osterkamp relembram os principais momentos dessa trajetória e o legado deixado pelo patriarca da família.
Grupo Popular – Como foi o começo da Três Unidas?
Gerta Osterkamp –Começamos em Linha Clara em 1965. Viemos em 21 de outubro de 1975 para Languiru. O falecido Elton Klepker convidou o Adelmo, meu marido, para uma conversa e ofereceu a Casa Velha, que, na época, era rodoviária e salão de baile. Ele achava que seria interessante vir para Languiru, que era o centro de distribuição. Meu marido conversou com meu pai, que era sócio dele, os dois vieram falar com o Klepker e aí deu negócio.
GP – Como foi a criação da distribuidora?
Gerta –Meu pai sempre foi do comércio. Meu marido estava no colégio agrícola e veio trabalhar na Languiru com o Elton Klepker. Meu pai viu que a coisa estava se tornando séria e convidou o Adelmo para ser sócio.
Ana Elisa Osterkamp – Os sócios eram o Lauro Tiggemann, o Bruno Tiggemann e o Adelmo Osterkamp. Assim foi fundada a Bruno Tiggemann e Companhia Limitada. O Bruno é o nosso avô, pai da minha mãe.
Gerta –Era a única distribuidora em Linha Clara e era pequena. A própria Companhia Polar convidou o meu pai para ser representante. Na época, havia a Antarctica/Polar e a Brahma, que eram concorrentes. A luta foi grande no início. Quando viemos para Languiru, ainda não era Três Unidas, era Bruno Tiggemann e Companhia Limitada.
GP – Qual a história da Casa Velha?
Ana Elisa – Era um salão de baile que veio de Canabarro. Em 1935, foi desmontado e reconstruído em Languiru. É uma construção em estilo enxaimel e já foi cinema, hotel, restaurante e rodoviária. Na época, o Bairro Languiru era praticamente duas ruas, tudo estrada de chão.
Elke Elena Osterkamp Staggemeier – Eu tinha 5 anos de idade e lembro de vir em cima do caminhão. Como era um salão de baile, tinha muito chiclete grudado no chão de madeira. A mãe me deu um baldinho e uma pazinha e meu serviço era tirar os chicletes. Eu achava aquilo o máximo.
Ana Elisa – Quando viemos, achamos muitas bolas de bolão e pinos. Até doamos uma para o museu. O pai sempre esteve à frente e fez acontecer. Nós morávamos junto com o depósito e nosso espaço era no meio das caixas de cerveja.
Elke Elena – O pai contava que, às vezes, iam para festas e ficavam deitados no caminhão esperando terminar para recolher os vasilhames, porque depois tinham que ir para Estrela trocar. Na época das caixas de madeira. Quando voltavam, todo mundo entrava no baile para descarregar o caminhão, eu e a Ana ajudando a puxar as caixas.
Gerta – Tem um detalhe: viemos sem dinheiro. O Klepker fez a proposta de pagamento em 5 anos. No quinto ano, quitamos tudo. Meu pai vinha uma vez por semana olhar a contabilidade e fazia os cálculos em alemão. Ele dizia: “Nós temos que poupar, porque queremos pagar nossas dívidas”. Trabalhamos muito, mas fomos muito felizes.
GP – O quanto a emancipação ajudou nos negócios?
Gerta – Foi ótimo. O Adelmo se envolveu muito, era ligado à política. Foi candidato a vereador e o mais votado na época, com 786 votos.
Ana Elisa – Temos registros dos caminhões com faixas do “Sim” na carreata. Foi uma festa enorme. O pai dizia: “Vamos logo na Polar pegar mais bebida porque vai dar festa grande”. Com a emancipação vieram o asfalto, a Rota do Sol e a Via Láctea, o que facilitou a logística.
GP – Como a Bruno Tiggemann se tornou Três Unidas?
Elke Elena – A Ambev começou a pressionar para reduzir o número de distribuidoras. Houve fusão com empresas de Bom Retiro do Sul e Imigrante, surgindo a Três Unidas. Depois, em uma nova pressão, o pai reuniu a família e propôs conversar com a distribuidora de Estrela. Falaram com o Nestor Müller e criaram a Univale. Ainda somos sócios. O pai optou por permanecer em Languiru, atendendo comunidades menores. Seguimos nesse modelo.
GP – Como a Casa Velha se tornou o primeiro centro comercial da região?
Elke Elena – Foi em 1989. O pai criou nove lojinhas na Casa Velha. Houve um concurso para o nome, vencido por um lojista de Encantado. No início, o movimento era baixo, então surgiu a ideia de incluir um restaurante, o que ajudou a impulsionar o espaço. Depois, houve terceirização da gestão e, anos mais tarde, retomamos. Recentemente, ampliamos com o pessoal do QuieroCafé.
Ana Elisa – Hoje temos um prédio quase centenário em enxaimel sendo valorizado. As vigas originais permanecem visíveis e ajudam a manter viva a história da cidade.
GP – Quais os projetos para o futuro?
Ana Elisa – O pai continuou sonhando mesmo no fim da vida e deixou projetos escritos. No dia em que faleceu, eu disse: “Pai, não te preocupa, os negócios vão ser tocados”. Ele estava em paz. Uma hora antes, lembrou de uma foto com o Brizola e disse: “Ali ele assinou minha ficha no partido”. Ele sempre dizia: “A verdade pode ser sempre dita”. Vamos honrar esse legado e concretizar esses sonhos.
