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Especial 2 anos da enchente: Plano Rio Grande e União somam R$ 125 bilhões, mas entregas patinam

Crédito: Arquivo FP

Dois anos após as águas do Rio Taquari atingirem níveis históricos e transformarem a paisagem e a vida de milhares de gaúchos, o Vale do Taquari vive hoje um momento de reflexão sobre o que já foi feito pela população e pelo meio ambiente desde então. Maio de 2024 testou os limites da resiliência humana e a capacidade de reconstrução de uma das regiões mais prósperas do Rio Grande do Sul.

Ao olharmos para trás, lembramos da força avassaladora da natureza que silenciou cidades, mas também, da corrente de solidariedade que ecoou pelo país. Hoje, o cenário segue de recomeço. Pontes que foram levadas pela correnteza deram lugar a novas estruturas, planejadas para suportar os desafios de um clima em mudança. O comércio e a indústria local, pilares da região, mostraram uma força admirável ao reabrir portas e manter empregos mesmo diante das perdas materiais.

Além da reconstrução do que foi perdido, o foco se voltou para a adaptação climática, com novos sistemas de monitoramento e planos de contingência mais robustos.

Durante este mês, a Folha Popular abordará diversos cenários apresentados 2 anos após a maior catástrofe do Rio Grande do Sul: o que já está concluído no Vale, em andamento ou ainda falta realizar, desde infraestrutura até saúde mental.

Dimensão da tragédia

Em todo o Rio Grande do Sul, foram cerca de 9,3 mil moradias destruídas e mais de 100 mil danificadas nas enchentes de 2024, sendo o Vale do Taquari uma das áreas de maior concentração de perdas.

As enchentes de 2023 e 2024 afetaram o Vale do Taquari com intensidade inédita. Estimativas regionais indicam mais de 5,5 mil moradias completamente destruídas nas duas ondas, além de dezenas de milhares danificadas.

Ao menos 80 pontes e ligações viárias foram destruídas na região, segundo levantamento da Associação dos Municípios do Vale do Taquari (Amvat) – o que paralisou a mobilidade, o escoamento da produção e o acesso a serviços básicos e gerou pânico ainda maior na população. Praticamente não havia conexão entre as partes alta e baixa do Vale, bem como a outras regiões do estado.

A extensão dos danos tornou a região o epicentro de dois programas inéditos de reconstrução: o Plano Rio Grande, do governo estadual, e os coordenados pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), em nível federal.

O Plano Rio Grande é o programa estruturante de reconstrução, adaptação e resiliência climática do Rio Grande do Sul, aprovado em maio de 2024 e operado via Fundo do Plano Rio Grande (Funrigs), que concentra recursos oriundos, principalmente, da suspensão temporária do pagamento da dívida estadual com a União.

O fundo total previsto é de R$ 14,5 bilhões até 2027, dos quais mais de R$ 4,4 bilhões já foram pagos e executados, com ações entregues à população, e outros R$ 8,1 bilhões estão empenhados. Ao todo, são 227 projetos aprovados em diversas áreas, como infraestrutura (76%), habitação, defesa civil, saúde e meio ambiente, com forte peso em obras rodoviárias e de resiliência climática.

Já o MIDR aprovou cerca de R$ 1,5 bilhão para ações de resposta, restabelecimento e reconstrução em todo o RS desde maio de 2024, atendendo 274 cidades com mais de 1.550 planos de trabalho. Esse montante inclui reconstrução de pontes e rodovias federais, construção de unidades habitacionais (com mais de 20 mil novas unidades aprovadas em 120 cidades) e ações emergenciais de defesa civil. Ao todo, o volume de recursos anunciados pela União para a reconstrução do RS ultrapassa os R$ 111 bilhões. Destes, cerca de R$ 90 bilhões já foram pagos.

Morosidade

Refletir sobre os 2 anos desta tragédia é um tributo à memória das vítimas e um reconhecimento aos que ficaram para reconstruir. Além de um lugar em vias de recuperação, em 2026 o Vale do Taquari segue símbolo de que a identidade de um povo é forjada na capacidade de se levantar, aprender com a dor, se adaptar e seguir em frente.

O balanço da reconstrução revela avanços concretos, com casas temporárias entregues e bilhões de reais investidos em infraestrutura, estradas e pontes. Mas, também, há uma percepção generalizada de lentidão, especialmente entre as famílias que ainda aguardam moradia permanente e obras robustas de prevenção a novas cheias.

O setor habitacional continua sendo o ponto mais sensível. Cerca de 25 mil pessoas ainda aguardam a entrega definitiva de suas residências. A burocracia necessária para a construção de novos conjuntos habitacionais, desapropriação de terrenos e outros atrasa a vida de quem quer recomeçar.

A distância entre anúncio e entrega é evidente também na infraestrutura. Um levantamento sobre as rodovias estaduais afetadas aponta 48 obras previstas via Funrigs, das quais 33 em estradas e 15 em pontes. No entanto, até fevereiro de 2026, nenhuma dessas obras havia sido entregue: 19 estavam em andamento, 20 em fase de projeto e nove em estudo de viabilidade.

Estamos preparados?

Ainda e mais importante, foram realizadas centenas de investimentos em infraestrutura resiliente, com a compra de radares meteorológicos, os desassoreamentos, as batimetrias de rios e a equiparação das defesas civis. No entanto, estes movimentos, apesar de robustos, também não alcançaram os níveis adequados. Naturalmente, os moradores do Vale e de todo o estado se perguntam: estamos preparados caso ocorra uma nova situação de calamidade?

Em síntese: o quadro que emerge dos especialistas é de um estado que avançou na resposta emergencial e no planejamento, mas que ainda não concluiu obras estruturais básicas de prevenção – e que pode enfrentar novo El Niño (ainda a descobrir de qual intensidade) antes de estar pronto. Sob vários ângulos, a tensão central é a mesma: a distância entre o que foi prometido e o que foi entregue.

Box jornalístico: reconstrução do Rio Grande do Sul dois anos após as enchentes de maio de 2024

Dois anos depois · maio de 2024 – abril de 2026

Reconstrução do RS: o que já foi feito e o que falta

Panorama geral — RS

R$ 111 bi anunciados pela União para a reconstrução

R$ 90 bi efetivamente pagos pelo governo federal

R$ 14 bi do Plano Rio Grande (governo estadual)

478 dos 497 municípios atingidos em 2024

183 mortos confirmados + 27 desaparecidos

430 mil famílias com Auxílio Reconstrução (R$ 2,2 bi)


Habitação

Economia


Vale do Taquari — destaques

Tensão no terreno: segundo o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), apenas 30% dos atingidos organizados pelo movimento no Vale do Taquari constam nas listas oficiais das prefeituras — impedindo o acesso a auxílios. Cidades como Lajeado, Estrela, Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul e Roca Sales ainda aguardam busca ativa.


Prevenção e resiliência

Plano Rio Grande MCMV Reconstrução Vale do Taquari PIR El Niño 2026

Fontes: Secom/Gov. Federal, Secretaria da Reconstrução Gaúcha, Portal do Estado do RS, MAB, Univates — dados até abril de 2026

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