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A força que sustenta uma casa, uma família e uma vida

Josiane e Daniela criam os filhos sozinha, mas não estão sozinhas nas estatísticas de mães solteiras no Brasil / Crédito: Arquivo Pessoal

O Dia das Mães costuma ser marcado por homenagens, flores e mensagens de carinho. Mas, por trás das comemorações, existe uma realidade silenciosa vivida por milhões de mulheres brasileiras: a maternidade solo. Mulheres que sustentam financeiramente o lar, cuidam dos filhos, enfrentam jornadas duplas ou triplas de trabalho e, ainda assim, precisam encontrar forças para serem porto seguro dentro de casa.

A trajetória de Josiane Denise Follmer (39), moradora de Teutônia e operária do setor calçadista, é um retrato dessa realidade. Mãe de Isabela (10), e Isadora, que recém completou 7 anos, ela cria as filhas sozinha há 7 anos, desde que o pai das meninas saiu de casa e deixou de participar da criação das duas. “Eu prefiro mil vezes criar elas sozinha do que viver naquela insegurança”, resume.

Apesar da ausência paterna, Josiane decidiu não transformar a dor em ressentimento. Quando a filha mais velha perguntava pelo pai, ela evitava críticas ou acusações. “Eu jamais vou falar mal dele para elas. Elas não têm culpa”, diz. Com o passar do tempo, veio uma das frases mais marcantes que já ouviu da filha: “Mãe, eu não sinto falta porque tu é pai e mãe.”

A história de Josiane está longe de ser isolada. Uma pesquisa do Datafolha realizada em 2023 apontou que 69% das mulheres brasileiras têm ao menos um filho. Dentro desse universo, cerca de 55% são mães solo, mulheres solteiras, divorciadas ou viúvas que assumem, na prática, a criação dos filhos sem a presença cotidiana de um parceiro. Os números ajudam a dimensionar um cenário cada vez mais comum no Brasil. Que estas mulheres carregam sozinhas a responsabilidade emocional, financeira e afetiva da família.

Recentemente, a cantora colombiana Shakira trouxe o tema para o centro do debate durante o show “Todo Mundo no Rio”, ao dedicar a apresentação às mães solo brasileiras. A artista falou sobre a força das mulheres que sustentam suas famílias sozinhas e mencionou a carga invisível enfrentada diariamente por elas.

A identificação do público também passa pela trajetória pessoal da cantora, que, após a separação do ex-jogador de futebol, Gerard Piqué, transformou a dor em arte e reposicionamento profissional, tornando-se símbolo contemporâneo de reinvenção feminina.

Aluguel, medo e a vontade de criar raízes

Natural de Paverama, mas criada em Teutônia, Josiane sempre carregou um sonho simples: ter uma casa própria. Durante anos, viveu de aluguel com as filhas, equilibrando contas, trabalho e maternidade. Mais do que estabilidade financeira, ela buscava pertencimento. “Eu sempre dizia que quando elas começassem a crescer, precisavam criar raiz”, cita.

A conquista veio perto do Natal, há menos de 2 anos, quando recebeu a confirmação de que o financiamento habitacional havia sido aprovado. “Foi um milagre. Eu jamais imaginava que ia conseguir construir minha casa sozinha”, revela ela.

A residência própria mudou completamente a rotina da família. Pela primeira vez, elas tinham um lugar realmente delas: “Hoje, é o nosso canto.”

Renúncia em silêncio

Josiane trabalha o dia inteiro, cuida da casa, acompanha a rotina das filhas e tenta proteger emocionalmente as meninas das dificuldades da vida adulta. O sofrimento quase sempre fica escondido: “Nunca choro na frente delas.”

Ela admite que abriu mão de muitas coisas ao longo desses anos, como vida social, momentos pessoais e até descanso. Mas não sente que perdeu algo. “Muita gente diz que eu perdi, porque não vou em festas ou não faço certas coisas. Mas eu não vejo assim”, defende.

A rede de apoio é pequena. O pai faleceu há 14 anos, vítima de um AVC. A mãe mora em Paverama e enfrenta problemas de saúde. Quem mais ajuda é uma tia, irmã do pai. Ainda assim, Josiane nunca cogitou em desistir. “Não existe o não. Sempre tem um jeito. Se não vai de um, eu dou outro”, garante ela.

O acidente que virou renascimento

Há poucas semanas, pouco antes de completar 39 anos, Josiane viveu um dos momentos mais traumáticos da vida. Era madrugada. Como fazia diariamente, acordou cedo para trabalhar. Ao perceber que a luz interna do carro havia ficado ligada, tentou resolver rapidamente o problema antes de acordar as filhas.

O veículo perdeu o controle na garagem inclinada. Com parte do corpo para dentro da janela, ela foi arrastada enquanto o carro descia em direção a uma área verde. Pedras, árvores e barranco cercavam o local. Milagrosamente, o veículo não capotou.

Ela sofreu ferimentos, perdeu parte da pele dos dedos e dos pés e ficou com dores na coluna. Mesmo assim, sem fraturas graves.
Josiane interpreta o episódio como um recomeço: “Deus sabe que ainda não era minha hora. As minhas meninas precisam de mim.”

Depois do acidente, decidiu comemorar o aniversário pela primeira vez. Não pela festa em si, mas pelo significado de estar viva. “Foi um renascimento”, afirmou.

As raízes que ensinaram a resistir

Quando fala da infância, Josiane se emociona. Cresceu no interior de Paverama, em Cantagalo, cercada pelos pais e pelos valores simples da vida no campo. “O café junto, a família perto, aquelas coisas bem raiz”, conta.

Ela acredita que foi justamente essa criação que moldou a mulher resiliente que se tornou hoje. “Eu não tenho nada para reclamar da minha infância. Só agradecer”, reforça. Talvez por isso siga encontrando forças mesmo diante das dificuldades.

Apesar das contas, dores, medos e responsabilidades, ela continua a sustentar sozinha um lar inteiro, não apenas financeiramente, mas emocionalmente. No Dia das Mães, enquanto muitas mulheres recebem flores, outras seguem apenas tentando sobreviver. E fazem isso com coragem extraordinária.

Josiane não se define como heroína. Apenas como mãe. Sua trajetória é tão poderosa por isso: pela capacidade de transformar abandono em afeto, medo em coragem e dificuldade em lar.

Rotina extenuante

Para a mãe de três filhos, Daniela Loose, a rotina tem sido exaustiva. Ela se casou aos 16 anos e foi mãe do primeiro filho aos 18. Rhayan tem 12 anos, a Manu tem 10 e o Augusto, 4. Ela se separou em setembro de 2025 e, desde então, mora com mãe.

“Foco em cuidar deles e os dias vão passando. Minha mãe é o meu braço direito, é quem mais me ajuda”, diz. Segundo ela, o ex-marido auxilia nas despesas. “Apesar da separação, é um pai presente”, afirma.

Para ela, ser mãe mostrou que os filhos transformam os dias difíceis em um recomeço: “Eles me dão forças para superar obstáculos que jamais imaginaria conseguir superar. Hoje vejo que minha família pode ser apenas eu e eles.”

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