Em meio aos debates sobre inteligência artificial, startups e transformação digital, uma das palestras mais movimentadas do Gramado Summit foi a do Geek Money, dedicada à cultura pop, aos games, animes, quadrinhos e ao comportamento de uma geração que transformou paixão em mercado, o palco Geek.
O chamado “Geek Stage” reuniu palestras sobre consumo emocional, nostalgia, identidade cultural, creators, games, colecionismo e tendências de mercado ligadas ao universo nerd. Mais do que um espaço de entretenimento, o palco se consolidou como um ambiente de análise econômica e comportamento de consumo, mostrando que o chamado “Geek Money” já movimenta bilhões no Brasil.
Uma das apresentações mais aplaudidas foi a do comunicador e empresário Rodrigo Delback, que levou o público a uma viagem emocional pelos anos 80 e 90 para explicar como a nostalgia se transformou em um dos ativos mais valiosos da economia contemporânea.
Com uma camiseta do anime Demon Slayer escondida sob o paletó, Delback iniciou a palestra contando a própria infância. “Nos anos 80, não existia pôster oficial de videogame. A gente arrancava páginas de revista para colar na parede”, relembrou. O relato pessoal serviu de porta de entrada para uma discussão muito maior: como marcas conseguem construir vínculos afetivos duradouros ainda na infância.
Conforme ele, o mercado geek brasileiro movimenta cerca de R$ 100 bilhões por ano e 29% dos consumidores desse segmento possuem renda superior a sete salários mínimos, além de 61% que guardam dinheiro mensalmente para gastar com produtos ligados ao universo nerd.
A tese central da palestra foi inspirada no livro “Efeito Rim”, citado por Delback como uma obra essencial para compreender comportamento de consumo. A frase que mais impactou o público resumiu a lógica do mercado geek moderno. “Uma corporação pode assumir o poder de compra de um adulto ao fazer propaganda para ele quando criança.”
A partir daí, o palestrante desenvolveu a ideia de que o consumidor geek não compra apenas objetos, compra pertencimento. “Quando eu uso uma shoulder bag do Naruto, estou sinalizando quem eu sou. Quero que alguém olhe aquilo e venha conversar comigo”, explicou.
Colecionáveis do Geek Money
O conceito apareceu diversas vezes durante o evento. Em uma era marcada pela hiperconectividade, a cultura geek funciona como linguagem social. Camisetas de super-heróis, colecionáveis, action figures, bolsas temáticas e referências a animes deixaram de ser nicho para virar identidade pública.
Delback também falou sobre o crescimento da chamada “retrostalgia”, fenômeno em que jovens sentem nostalgia de períodos que sequer viveram. Ele citou o exemplo da banda Titãs, que ganhou novos fãs durante a pandemia porque pais ouviam as músicas em casa ao lado dos filhos.
A lógica do Geek Money, segundo ele, é simples: adultos que não tinham acesso aos produtos na infância agora possuem renda e transformam antigos desejos em consumo. “Hoje estamos financiando a criança que existia dentro da gente”, resumiu.
Cultura pop deixa de ser nicho
O palco Geek também recebeu debates sobre creators, economia dos games, produção de conteúdo e a transformação da cultura nerd em estratégia de marca. Empresas de tecnologia, varejo e entretenimento passaram a enxergar o público geek como um dos mais engajados e fiéis do mercado.
A própria ambientação do Gramado Summit reforçou isso. Cosplayers circulavam pelos corredores do Serra Park, estandes apostavam em referências a animes e super-heróis, enquanto produtos físicos ligados a franquias famosas apareciam como símbolo de conexão emocional em um mundo cada vez mais digital.
Em diferentes painéis, palestrantes defenderam que o consumo atual é menos racional e mais identitário. O consumidor busca produtos que expressem valores, personalidade e pertencimento social.
Essa mesma lógica apareceu em debates sobre creators e marketing digital, mostrando que comunidades online hoje funcionam como novas tribos culturais. No universo geek, isso ganha ainda mais força porque fãs criam conexões profundas com personagens, histórias e franquias.
Geek, negócios e o futuro do consumo
O palco também serviu para mostrar que o mercado nerd deixou definitivamente de ser tratado como algo infantil ou marginal. O que antes era visto como comportamento “estranho” virou ativo econômico poderoso.
Delback lembrou que, nos anos 80, ser chamado de “nerd” era pejorativo, termo popularizado no Brasil após o filme Revenge of the Nerds, conhecido por aqui como “Vingança dos Nerds”. Décadas depois, esse mesmo público se tornou consumidor altamente desejado pelas marcas.
A transformação é visível em eventos como a CCXP, nas grandes plataformas de streaming e no varejo, que hoje aposta fortemente em roupas, acessórios e produtos licenciados. No Gramado Summit, o assunto deixou claro que a nostalgia virou uma indústria altamente rentável e que o universo geek talvez seja um dos exemplos mais fortes de como emoção, memória afetiva e identidade cultural passaram a mover a economia contemporânea.
Enquanto o evento discutia inteligência artificial, inovação e futuro, o palco Geek lembrava que, muitas vezes, o caminho para os negócios mais lucrativos passa justamente pelas memórias da infância.
