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Pavilhões do agro consolidam atrações da feira

Visitantes passaram pelo pavilhão agropecuário para conhecer de perto animais de diferentes espécies e raças / Crédito: Thiago Maurique

O espaço agropecuário da Festa de Maio se transformou em um dos principais pontos de visitação do evento. Nos primeiros dias da feira, o movimento intenso no setor confirmou o interesse do público pela exposição. Com mais de 100 animais expostos, o pavilhão reúne criadores e produtores rurais.

As famílias aproveitam a programação para conhecer de perto animais exóticos e vivenciar experiências ligadas ao campo. São cavalos de diferentes raças e portes, ovinos, caprinos, pavões ornamentais, gansos, marrecos, faisões, coelhos e até emus, aves originárias da Austrália.

A secretária municipal de Agricultura, Francieli Weimer, afirma que o espaço foi pensado justamente para aproximar a comunidade da realidade rural e valorizar os produtores que participam da feira. “Além de ser uma forma de divulgação, também é um espaço de integração entre as comunidades”, destaca. Para ela, a diversidade de espécies expostas desperta curiosidade principalmente entre crianças e pessoas que não possuem contato frequente com propriedades rurais.

Entre as atrações que mais chamam atenção do público está um cavalo Percheron, raça de tração originária da França que pode chegar a 1 tonelada. A criadora Anelise Dill participa pela primeira vez da Festa de Maio e afirma que a recepção do público superou as expectativas. “A grande maioria das pessoas não conhece a raça, então acabam se impressionando pelo tamanho e pela docilidade do animal”, relata.

Segundo ela, o animal também desperta interesse de criadores que buscam cruzamentos com cavalos Quarto de Milha e Crioulo.

Já os emus e as aves ornamentais foram trazidas pelo criador Valdemar José da Silva, morador de Canabarro. Em sua primeira participação na feira, ele conta que o contato com o público tem sido um dos momentos mais marcantes da experiência. “Todos ficam curiosos. Tem muita gente que nunca viu esses bichos de perto”, comenta. Além dos emus, ele expõe pavões, cisnes, gansos e marrecos de diferentes raças.

Segundo Valdemar, a criação começou após ele receber ovos de amigos criadores e se tornou um hobby familiar. “Poder mostrar nossos animais para o público é uma alegria”, afirma.

A visitante Juliane Fell esteve no local acompanhada do marido e da filha, Lara Sofia. Destaca a importância do contato das crianças com os animais. “Os bichos fazem muito bem, são uma companhia e proporcionam momentos diferentes para as famílias”, comenta. Segundo ela, a filha ficou muito feliz ao observar espécies diferentes e rever animais que já conhece no pavilhão.

Agroindústria Familiar

Outro espaço bem movimentado da Festa de Maio no primeiro fim de semana foi o pavilhão da agricultura familiar, que reúne agroindústrias e produtores da região. O ambiente representa uma vitrine de produtos regionais, com pães, cucas, queijos, embutidos, cervejas, cachaças, vinhos, flores e doces artesanais.

Pela segunda vez da Festa de Maio, a agroindústria Delícias da Emili apresentou cucas, bolos e pães produzidos em Teutônia. A empresa tem 7 anos de experiência em grandes eventos da agricultura familiar no estado, incluindo a Expointer, e obteve grandes resultados nos primeiros dias da feira.

“É muito gratificante participar da Festa de Maio por ser na nossa casa. Além da proximidade com o público, conseguimos trazer os produtos sempre fresquinhos”, comenta Emili Klein.

Agroindústria de Linha São Jacó, Estrela, a Dörf aproveitou a Festa de Maio para apresentar lançamentos. Entre elas está o queijo de lavanda e azul estilo gorgonzola.

De acordo com Amanda Rohrig, a participação no evento é importante para aproximar os consumidores da produção regional, e a curiosidade do público tem ajudado nas vendas. “Quando as pessoas veem um queijo diferente, acabam ficando curiosas para experimentar. A aceitação está sendo muito boa”, relata.

Também de Linha São Jacó, a agroindústria de embutidos Kolonie Haus aproveitou a feira para lançar a mortadela defumada da marca. Conforme Michele Wessel, o público aprovou a novidade apresentada no evento. “É um produto mais tradicional, estilo boteco, e o pessoal está gostando bastante”, comenta.

Outra marca tradicional nas feiras da agroindústria familiar, a Estrelat, de Estrela, aproveitou o evento para fortalecer o contato com consumidores do Vale do Taquari. Conforme Eliane Lenhard, a empresa participa da Festa de Maio desde 2022. “Aproxima as pessoas da região do nosso produto. Muitos clientes já conhecem e vêm direto procurar a gente”, afirma.

Futuro do Agro

O agronegócio também foi tema de painel promovido pelo Grupo Popular, com foco nos desafios enfrentados pelo pequeno produtor, a sucessão rural, os custos de produção e o avanço da urbanização sobre áreas agrícolas. Durante a conversa, lideranças do setor defenderam a permanência das famílias no campo e reforçaram a importância do minifúndio para o desenvolvimento regional.

Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Teutônia, Westfália e Poço das Antas, Liane Brackmann ressalta a importância da agricultura familiar para a economia regional.

Mesmo ocupando apenas cerca de 25% da área agricultável, é a modalidade que produz grande parte das riquezas destinadas ao mercado interno e externo. “A própria identidade da Festa de Maio está ligada ao setor. A feira perderia muito do seu atrativo sem os pavilhões da agricultura familiar e das agroindústrias”, destaca.

Representante regional dos STRs, Marcos Antonio Hinrichsen compara a realidade do Vale do Taquari com regiões marcadas pelo latifúndio. “Aqui a renda é mais distribuída. Isso gera mais desenvolvimento social e comunitário. Quanto mais pessoas tivermos no campo, mais desenvolvidos serão os municípios”, avalia.

Ao abordar a expansão urbana e os impactos sobre a produção rural, o presidente da Cooperativa Languiru, Paulo Roberto Birck, alerta para a pressão exercida pelos loteamentos sobre áreas agrícolas. “Hoje, 63% dos produtores de leite ligados à Languiru produzem até 300 litros por dia. Isso mostra a força da pequena propriedade familiar”, destaca.

Sucessão rural e fracionamento

Birck também chama atenção para os desafios da sucessão rural e do fracionamento das propriedades. “Quando a área é dividida entre vários herdeiros e apenas um permanece na atividade, muitas vezes ela deixa de ser economicamente viável”, aponta.

Ele cita exemplos adotados na Alemanha, onde políticas públicas incentivam a transferência de áreas sem sucessão para vizinhos que possuem continuidade familiar na atividade rural: “O pequeno produtor ajuda a equilibrar o mercado. Se ele desaparecer, o grande também será impactado.”

Diretor administrativo e financeiro da Cooperativa Cooperagri, Lício Sulzbach relata a pressão da urbanização sobre comunidades do interior, como São Jacó. “O latifúndio está crescendo e muitos jovens deixam o campo em busca de segurança financeira, porque hoje a agricultura não consegue garantir estabilidade”, afirma.

Ele cita a forte queda no preço do leite em 2023 e critica a postura de produtores que deixaram de travar preços de insumos e commodities esperando altas maiores. “Teve produtor que apostou em aumentos que não vieram e acabou sofrendo prejuízos”, relata ele.

Apresentador do debate, Lucas Leandro Brune ressalta a queda no percentual da agricultura no adicionado do ICMS de Teutônia, que já foi de 35%. A projeção para 2025 aponta redução para 24,2%. Liane Brackmann atribui essa queda às estiagens, enchentes e à ausência de políticas públicas voltadas à agricultura familiar nos anos recentes.

Ela também destaca que muitos produtores passaram a buscar alternativas como floricultura e agroindústrias de panificados, especialmente após o encerramento de atividades como a suinocultura, na Languiru. Para Liane, a retomada de programas como o Crédito Fundiário pode ajudar a manter famílias no campo. “Hoje um irmão consegue comprar a parte dos demais herdeiros com juros subsidiados, evitando o fracionamento excessivo da propriedade”, reforça.

Taxa de juros e apoio

Marcos Hinrichsen critica ainda o impacto das altas taxas de juros sobre os financiamentos rurais. “Linhas de crédito que já tiveram juros próximos de 2% ao ano hoje chegam a até 6%, o que reduz o estímulo para novos investimentos”, observa.

Ao tratar dos custos de produção, Paulo Roberto Birck afirma que a rentabilidade do produtor segue pressionada. “O agronegócio brasileiro aparece como potência, mas a conta muitas vezes não fecha para quem produz”, diz.

Segundo ele, os custos de diesel, ureia, embalagens e outros insumos aumentaram significativamente recentemente, agravados por conflitos internacionais. “Hoje, um aviário moderno ou um sistema robotizado de ordenha custa perto de R$ 2 milhões. Com juros elevados, isso se torna inviável para muitos produtores”, alerta Birck.

Por fim, Lício Sulzbach defende apoio maior às pequenas agroindústrias e critica a concentração financeira. “Enquanto os bancos registram lucros recordes, muitas famílias rurais enfrentam endividamento. Precisamos fortalecer as pequenas agroindústrias para manter renda e famílias no campo”, conclui.

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