As irmãs estavam juntas na infância e adolescência. Depois, cada uma seguiu sua vida com suas famílias. O tempo, contudo, foi implacável com muitas pessoas próximas. Agora, no limiar da vida, Wally Dietrich, que completou 103 anos no domingo (24/5), segue ao lado da irmã, Edeltrud Horn, de 90 anos. Apesar de atravessar mais de um século de vida, Wally carrega consigo poucas lembranças, pois a mente está seletiva. No entanto, sua lucidez é clara. Ela realmente parece escolher suas memórias. O que fala mais alto são as suas expressões, daquilo que também escolhe ouvir, para responder as inquietações humanas de quem tenta imaginar como é viver tanto tempo.
Foi através das perdas que as irmãs voltaram a se encontrar. Wally perdeu sua única filha ainda jovem, aos 55 anos. Depois de um período vivendo com o genro e os netos, foi acolhida pela irmã mais velha. Apesar da morte da filha, a linhagem continuou através de dois netos e dois bisnetos.
Edeltrud, por sua vez, ficou viúva há 8 anos e adoeceu física e mentalmente. “Eu vim para cá sem falar, sem caminhar. Pensei que ia morrer, mas tô aqui, tô bem. Deus foi muito bondoso comigo”, recorda a irmã mais nova.
Hoje, elas residem juntas em um lar de idosos, onde a vida é composta por tranquilidade e luz. Seus cabelos brancos refletem a intensa claridade do dia que entra pelo corredor de vidro e oferece uma visão direta ao movimento da cidade. No pátio, é possível uma visão ímpar do jardim e do pomar de frutas.
Vitalidade que impressiona
Apesar das idades avançadas, ambas mantêm uma autonomia funcional notável. “Nós vamos a mercado, às lojas”, relata a cuidadora, impressionada com a lucidez das irmãs. “Totalmente lúcida. Ela sabe tudo”, diz sobre Wally.
A irmã mais velha atribui parte de sua disposição ao amor pelo baralho. “Eu adoro. Em casa a gente fica muito sozinho. Quando tem uma mesa, são quatro os que jogam”, conta ela. Menciona que, às vezes, um homem se junta à partida para fazer companhia. Edeltrud revela outra paixão: “Eu amo dançar. Até hoje, se eu vou num baile, ainda danço.”
A rotina das irmãs inclui também atividades de voluntariado dentro da própria instituição. Edeltrud conduz meditações três vezes por semana e ajuda na cozinha, fazendo doces. “Se eu deixo, ela se alimenta só de chocolate e bolacha”, afirma a cuidadora.
Aprendizados da longevidade
No crepúsculo da vida, as irmãs chegaram a conclusões simples. Quando perguntadas sobre as lições que deixariam às gerações mais jovens, Edeltrud responde sem hesitar: “O amor. Ficar juntas. Abraçar. O tempo é mais carinhoso agora com todos. Isso não havia quando nós éramos crianças. O amor ao próximo é muito importante.” Wally complementa com seu estilo direto: “A vida não é fácil. Mas a gente tem que agradecer.”
Elas mantêm vínculos com sobrinhos e sobrinhos-netos, que as visitam, trazem presentes e as levam para confraternizações em datas especiais. “Quando é Natal, ano novo, a gente se reúne. É muito bonito quando eles são jovens”, diz Edeltrud.
A religiosidade atravessa os relatos das duas mulheres. Edeltrud se declara evangélica luterana e enfatiza a importância da fé diante das adversidades. “Tem muitas religiões, mas o que prega a Jesus Cristo… a gente tem que assistir à palavra de Deus, ela sempre é válida. O amor de Deus que deu o seu filho, Jesus Cristo, por nós, é tudo. Em quem nós vamos nos agarrar?”, questiona.
Há também espaço para o reconhecimento daqueles que cuidam. Uma das irmãs menciona, com gratidão especial, uma senhora que nunca se esquece de agradecer: “Ela me chama, me dá um abraço e agradece. Nunca esquece de fazer. Enquanto eu tiver vitalidade e conseguir, eu faço também.”
Aniversário de Wally foi celebrado nesse domingo / Crédito: Divulgação
Um passado de muitas moradas
Quando questionada sobre o segredo para viver tanto tempo, Wally desvia com bom humor: “Ah, a carta.” Sobre os momentos mais felizes, ela não aponta uma data ou comemoração específica. Sua lembrança mais vívida está ligada aos lugares por onde passou: “Canabarro foi a primeira casa que morei. Eu estava me casando e fui morar lá, onde criei minha filha. Depois, fomos para Ernestina, depois, para Estrela. Eu morei em muitos lugares”, diz ela.
Os quatro irmãos nasceram em casa, em Linha Wink. O pai, Edvino Luersen, era um homem de múltiplos ofícios: alfaiate, músico e barbeiro. Morreu cedo, aos 51 anos, vítima de hidropisia (água no coração), consequência do trabalho com carvão e ferro em ambientes fechados.
As raízes da família Luersen remontam à imigração: o avô das irmãs chegou ao Brasil com oito filhos. A árvore genealógica inclui 13 irmãos no lado paterno, cinco mulheres e oito homens, que formavam uma orquestra, lembra Edeltrud com orgulho.
A língua alemã foi a primeira que aprenderam. Mas a Era Vargas e a Segunda Guerra Mundial trouxeram a repressão. Edeltrud, nascida em 1936, guarda uma lembrança vívida: “Eu ia nos bailes com meus pais e, quando via uma pessoa estranha, eu corria para minha mãe e dizia: ‘Mãe, não fala alemão, senão tu vai ser presa.’”
A trajetória das irmãs se confunde com a própria história do Brasil. Nascidas quando o rádio era novidade e a televisão, uma promessa distante, viram o mundo se transformar a uma velocidade que elas mesmas têm dificuldade de mensurar. Viram o brigadeiro Eduardo Gomes perder a eleição para Eurico Gaspar Dutra, em 1945. Viram Juscelino Kubitschek construir Brasília. Viram o AI-5, a abertura política, o impeachment de Collor. Viram o real estabilizar a economia após décadas de inflação galopante.
Mas o que importa, agora, não são as décadas ou os eventos históricos. É o cotidiano. É ter com quem conversar. É poder jogar baralho, ajudar na cozinha, sentir o sol que entra pelo corredor de vidro. É, finalmente, encontrar um lugar onde a vida, mesmo depois de tantas partidas e despedidas, ainda tem sabor de doçura.
“O que é a vida?”, perguntaram a Wally. Ela pensou, suspirou e respondeu: “Não é fácil.” Mas lá estava sua irmã ao lado. E isso, talvez, seja o mais próximo da resposta.
