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Especial Dia dos Namorados: A vida é tolerância e parceria, sem egos

Paciência diante das falhas alheias e respeito mútuo é o que sustenta o cotidiano de Chico e Helga / Crédito: Arquivo pessoal

A história de João Francisco “Chico” da Silva (71) e sua esposa, Helga Hildegard Lenz (73), não segue um roteiro comum. Ela atravessa estados, desafia vocações religiosas e se consolida sob o teto da tolerância.

O início desta jornada remonta ao Paraná, onde Chico, desde a infância, nutriu o desejo de servir à Igreja Católica como padre. Aos 21 anos, ele ingressou no seminário na cidade de Uraí, naquilo que se denomina vocação adulta. Contudo, o caminho que o trouxe ao encontro de sua companheira teve o empurrão decisivo de mãos externas.

O primeiro sinal de que o destino possuía planos específicos para João ocorreu no momento da escolha de sua província. Com opções que incluíam diversos estados brasileiros, Chico recorreu à irmã mais velha, Antônia. “Perguntei: desses estados aqui, se fosse tu, qual escolheria?”, recorda ele. A resposta veio: Rio Grande do Sul.

Chico, que possuía curiosidade sobre o estado, aceitou o conselho. Ele desembarcou em Porto Alegre em 1979 e, de lá, seguiu para Agudo, onde iniciou sua preparação na ordem franciscana.

Anos de estudo em Filosofia e Teologia se passaram na capital gaúcha, mas a vida religiosa reservava crises silenciosas. Chico descreve o processo de desistência como algo sem uma explicação única, mas fruto de fatores que se somam ao longo do tempo. A falta de aceitação plena dentro da ordem e preconceitos vividos aceleraram sua decisão de sair antes da ordenação final.

Nesse momento de incerteza, surgiu o segundo sinal de que algo diferente estava reservado para ele. Durante o estágio em Progresso, Chico conversou com seu mentor, frei Albano, que o orientou. “Teu lugar não é em Progresso. Teu futuro é em Lajeado”, argumentou.

Sua escolha já estava clara. “Antes eu pedi para o Menino Deus: olha, se é para eu sair, eu quero me casar, ter um filho ou uma filha, escrever um livro e plantar árvores”, disse. E, assim, ele cumpriu.

Chico seguiu o conselho de frei Albano, mudou-se para Lajeado, estabeleceu-se em uma pensão e conquistou uma vaga na Prefeitura através de concurso público, onde trabalhou por mais de três décadas.

Foi em Lajeado que o ex-seminarista, que sempre sentiu atração pela Língua Alemã, buscou o Instituto Cultural de Idiomas. Lá, o destino operou novamente: a professora titular, Irlê Bambini, fora convidada para um intercâmbio de 6 meses na Alemanha. Para substituí-la, foi chamada a mulher que se tornaria o grande amor de Chico. Ela, que já dava aulas no Estado desde 1982, aceitou o desafio temporário no curso noturno.

O interesse foi imediato por parte do aluno. “Fiquei de olho, fui vasculhar para ver se ela era casada”, ri Chico. Após confirmar que ela estava solteira, ele iniciou uma aproximação estratégica, que seguiu ao longo do semestre, com encontros na pensão, na casa da mãe de Helga, em bailes.

Pouco tempo depois, no aniversário dela, Chico oficializou suas intenções com um par de alianças. A união se concretizou com rapidez. Em cerca de 8 meses, eles decidiram morar juntos e, em 1992, casaram-se no civil.

Casal reflete sobre os 33 anos de união em meio a jornadas cansativas de trabalho, a criação da filha e, agora, a aposentadoria / Crédito: Arquivo pessoal

Hoje, com 33 anos de história compartilhada, o casal reflete sobre os pilares que sustentam a longevidade da relação. Para Chico, a palavra-chave é a paciência diante das falhas alheias. “A vida é tolerância. Tu sempre tens que tentar entender o outro, porque se tu começas a retrucar, já deu problema”, afirma. Ele acredita que o segredo reside no equilíbrio e no ato de gostar do outro e querer o outro, apesar das particularidades.

Helga complementa essa visão, ao destacar a importância da parceria absoluta e do respeito. “Sempre nos ajudamos; nunca houve isso de dizer que um ganha mais que o outro, essa disputa de egos. Acho que isso mina muitos relacionamentos”, pontua ela.

Para o casal, a partilha financeira e emocional é fundamental: “O que é teu é dela e o que é dela é teu, porque senão, dá zebra”, reforça Chico.

Além da cumplicidade, a ausência de sentimentos destrutivos fortalece o vínculo. Segundo ela, dois elementos nunca tiveram espaço no lar: “Ciúme e inveja são as coisas que nunca tivemos entre nós.” Essa ausência de sentimentos destrutivos permite que a parceria prospere com confiança.

Na criação da família, o valor central é o exemplo prático. Chico acredita que os filhos espelham o comportamento dos pais; portanto, a conduta ética e o respeito foram ensinados à filha através da observação direta do cotidiano.

Chico e Helga reconhecem na filha os exemplos de integridade e ética que buscaram ensinar / Crédito: Arquivo pessoal

Mesmo com a proximidade maior trazida pela aposentadoria, o casal valoriza o tempo para si como uma manutenção saudável do relacionamento. Chico encontra seu refúgio na horta, no contato com a terra, no ciclismo e na leitura. Helga caminha, visita suas irmãs todos os dias e adora uma palavra cruzada.

Ao longo de três décadas de união, a trajetória demonstrou a ambos que a vida a dois exige uma correção constante de rumos, o preparo para o desconhecido e a disposição para aceitar que ambos são seres humanos passíveis de erro. É assim que a união perdura: porque o desejo de estar junto supera as particularidades e as crises que o tempo impõe.

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