Há cerca de 15 anos, Jurandir Ferrari decidiu apostar em uma cultura pouco conhecida para a maioria dos agricultores da região. Acostumado ao trabalho com madeira e à prestação de serviços, o produtor de Boa Vista do Sul recebeu um convite para participar de um dia de campo sobre nogueira-pecã no Grupo Pitol, em Anta Gorda, e enxergou ali uma oportunidade de diversificar a propriedade.
O que começou com cerca de 250 árvores plantadas por curiosidade e como complemento de renda transformou-se em um investimento de longo prazo. Hoje, o pomar reúne entre 550 e 600 nogueiras e representa aproximadamente metade da receita da propriedade.
A atividade também passou a envolver diretamente o filho Vinícius Ferrari, que vê no cultivo uma possibilidade de permanecer no meio rural e dar continuidade ao trabalho da família.
“A cada ano eu gostava mais da cultura, fui fazendo cursos, visitando propriedades e me aperfeiçoando. Quando percebi, já estava investindo mais”, relata o patriarca. Na safra deste ano, a produção familiar deve alcançar entre 6 e 7 toneladas do produto.
A trajetória da família reflete um movimento que ganha força no Vale do Taquari. Em meio às oscilações do mercado rural e aos desafios impostos pelo clima, produtores buscam alternativas para diversificar a produção e reduzir a dependência das atividades tradicionais.
A pecanicultura está entre as culturas que mais avançam. De acordo com o engenheiro florestal e assistente técnico regional da Emater/RS-Ascar, Álvaro Mallmann, a região conta atualmente com cerca de 800 hectares cultivados e aproximadamente 400 produtores envolvidos com a atividade.
O município de Anta Gorda lidera o setor, com cerca de 620 hectares plantados e 340 agricultores. Também há áreas significativas em municípios como Arvorezinha, Coqueiro Baixo, Ilópolis, Encantado, Lajeado, Sério, Paverama e Taquari.
De acordo com Mallmann, a pecanicultura está consolidada especialmente entre agricultores familiares da parte alta do Vale. Segundo ele, a cultura ocupa praticamente toda a área disponível para cultivo em muitas pequenas propriedades. “O crescimento mais recente tem ocorrido por meio de novos investimentos em áreas maiores, realizados por produtores e investidores que enxergam potencial de retorno no médio prazo”, destaca o assistente técnico.
Manejo e processamento
O coordenador da Emater afirma que a cultura da nogueira-pecã exige planejamento. A planta leva cerca de 5 anos para atingir uma produção economicamente significativa. Em contrapartida, apresenta boas perspectivas de rentabilidade. “Hoje, o produtor recebe entre R$ 16 e R$ 18 por quilo da noz com casca. Quando o produto é beneficiado e comercializado como amêndoa, o valor pode alcançar entre R$ 60 e R$ 70 por quilo”, reforça.
Jurandir Ferrari já vislumbra a possibilidade de investir na industrialização do fruto. Depois de adquirir equipamentos para automatizar colheita, secagem e pulverização, ele planeja futuramente implantar uma estrutura própria para beneficiamento da produção e agregar valor. “Se conseguir fazer o processamento, o ganho aumenta bastante, mas é um investimento alto e que precisa ser planejado”, afirma.
Além da rentabilidade, a diversificação tem sido defendida como estratégia para aumentar a segurança econômica das propriedades. Segundo o chefe do escritório municipal da Emater em Teutônia, Carlos Fries, a agricultura regional ainda está fortemente baseada na produção leiteira e em culturas tradicionais de grãos, mas gradualmente novos sistemas vêm sendo incorporados.
“O conceito de diversificação é reduzir riscos. Quando uma atividade enfrenta dificuldades, outra pode compensar as perdas e ajudar a manter a renda da propriedade”, explica ele.
Agregação de valor
Em Teutônia, o produtor Lidomar Roman aposta na industrialização para agregar valor ao fruto. Natural de Anta Gorda, ele iniciou o cultivo de nogueira-pecã há cerca de 9 anos em uma área sujeita a alagamentos pertencente à família da esposa. “Como a nogueira cresce e suporta períodos em que a água atinge determinada altura, resolvi apostar na cultura”, destaca.
Natural de Anta Gorda, Lidomar Roman iniciou o plantio de noz-pecã há 9 anos e investiu em uma agroindústria para agregar valor ao produto / Crédito: Thiago Maurique
Hoje o pomar possui 840 árvores e está entrando na fase de maior produtividade. Segundo Roman, a atividade exigiu paciência e capacidade de investimento durante quase uma década. “As pessoas acham que vão plantar hoje e em 4 anos já vão ganhar dinheiro. Não é assim. São 9 ou 10 anos para começar a ter retorno”, relata o produtor.
A busca por rentabilidade levou Lidomar a investir na formalização de uma agroindústria própria. Há cerca de 1 ano, ele concluiu o processo de legalização para participar de feiras e comercializar produtos com maior valor agregado. Atualmente, vende noz-pecã descascada e caramelizada diretamente ao consumidor final, além de atender mercados e eventos regionais.
Para ele, o beneficiamento é fundamental para a viabilidade econômica da atividade. “Vender com casca praticamente não compensa. O valor não paga o trabalho da colheita. Quando a gente processa e agrega valor, o resultado muda bastante”, afirma.
Roman também destaca que a escassez de mão de obra rural tem levado muitos produtores a buscar sistemas que possam ser conduzidos pela própria família. “Eu realizo praticamente todas as etapas da produção, desde o manejo do pomar até a comercialização”, ressalta ele.
Além da noz-pecã, o agricultor participa de uma pesquisa envolvendo trufas Sapucay, fungo comestível de alto valor gastronômico cultivado em associação às raízes das nogueiras. O projeto é desenvolvido em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e representa mais uma aposta na diversificação da renda no meio rural.
Pioneirismo regional
O avanço da pecanicultura no Vale do Taquari tem forte influência do Grupo Pitol, de Anta Gorda. A empresa pioneira no setor remonta às décadas de 1960 e 1970, quando Luizinho Pitol iniciou a produção de mudas enxertadas de nogueira-pecã e implantou os primeiros pomares.
Com o passar dos anos, a empresa ampliou sua atuação para além da produção de mudas. Em 2008, passou a industrializar a matéria-prima por meio da Nozes Pitol, o que agregou valor à produção regional e ofereceu aos agricultores um canal estruturado para comercialização da safra. Hoje, parte da produção da família Ferrari é destinada à indústria localizada em Anta Gorda.
Além da noz in natura, a empresa trabalha com uma linha diversificada de produtos alimentícios derivados da pecã. Mais recentemente, o grupo expandiu suas atividades para novos segmentos, que incluem cosméticos produzidos a partir do óleo e da casca da noz. A empresa também mantém o Memorial da Noz-Pecã, espaço que preserva a história da cultura e recebe visitantes interessados em conhecer a trajetória da atividade.
Filho Vinícius Ferrari vê no cultivo uma possibilidade de permanecer no meio rural e dar continuidade ao trabalho da família / Crédito: Thiago Maurique
Desafios da diversificação
O chefe do escritório da Emater em Teutônia destaca que um dos principais desafios para ampliar a adoção de novas culturas é a estrutura de comercialização. Diferentemente das atividades tradicionais, que possuem cadeias organizadas de compra e venda, muitos produtos de nicho exigem que o próprio produtor desenvolva mercados e canais de comercialização.
Mesmo assim, a recomendação é que agricultores interessados iniciem experiências em pequenas áreas, de forma a adquirir conhecimento e reduzir riscos financeiros. A própria pecanicultura é vista como um exemplo desse processo. A região já possui agroindústrias legalizadas voltadas ao beneficiamento da noz, e produz itens como amêndoas descascadas e produtos caramelizados.
No cenário estadual, as perspectivas também são positivas. A estimativa da Emater é de que o Rio Grande do Sul produza entre 6,5 mil e 7 mil toneladas de pecã em 2026. O estado responde por aproximadamente 90% da produção nacional e ajuda o Brasil a ocupar a quarta posição entre os maiores produtores mundiais.
