Por Camille Lenz da Silva, Letícia Echer e Luis Augusto Huppes
Todo ano, o mês de junho celebra a campanha nacional que lembra a importância de um gesto simples e capaz de salvar vidas: a doação de sangue. A iniciativa busca manter os estoques dos hemocentros abastecidos, especialmente durante o inverno, período em que as doações costumam reduzir.
O ponto alto do mês é o Dia Mundial do Doador de Sangue, comemorado em 14 de junho. A data foi designada em 2005 pela Assembleia Mundial da Saúde e homenageia o nascimento de Karl Landsteiner, imunologista austríaco que descobriu o fator Rh e as diferenças entre os tipos sanguíneos.
A campanha de 2026 traz como tema “Uma gota de humanidade. Doe sangue. Salve vidas”. O recado não poderia ser mais direto. O sangue doado é separado em componentes como hemácias, plaquetas e plasma. Ele é necessário em situações como cirurgias de urgência, anemias crônicas, complicações da dengue, tratamento de câncer e outros casos graves.
Apesar da relevância, o Brasil ainda enfrenta um desafio de adesão. Aproximadamente 1,4% da população doa sangue regularmente, número ainda distante dos 2% recomendados pela Organização Pan-Americana da Saúde. Em meses de frio e férias, as doações podem cair até 30%.
Força para continuar
Morador de Teutônia, Bryan Alexander da Silva Berghahn (20) convive com a Imunodeficiência Primária (Candidíase Mucocutânea Crônica). A condição consiste em um grupo de doenças congênitas que alteram a resposta imune. Além disso, o jovem possui bicitopenia (redução de duas linhagens de células sanguíneas), anemia sintomática e precisa de transfusões de sangue.
Como uma pessoa beneficiada pelas doações de sangue, Bryan agradece a todos os voluntários e incentiva as pessoas. “Quero agradecer imensamente aos 72 doadores que se disponibilizaram e tiraram um tempo das suas rotinas para ir até Porto Alegre”, destaca. Ele conta que descobriu a força da solidariedade em um dos momentos mais delicados da sua vida. Para Bryan, o gesto mostrou que ainda existem pessoas dispostas a ajudar sem receber nada em troca.
A doação de sangue é mais do que um ato de generosidade, é contribuir com a chance de viver. “Hoje eu tenho a oportunidade de agradecer porque pessoas disseram ‘sim’ quando a ajuda foi necessária”, enfatiza ele.
Os doadores nem sempre conhecem a história do receptor. “Mas, para quem recebe, cada doação representa uma oportunidade, uma esperança e, em muitos casos, a própria continuidade do tratamento”, explica Bryan.
A trajetória de Berghahn retrata a realidade de muitos pacientes, principalmente aqueles que ainda necessitam de doações. Não só no dia 14 de julho, mas todos os dias. “É um gesto simples, mas que pode salvar vidas”, conclui o jovem.
Colocar-se no lugar do outro
Iniciativas coletivas ajudam a manter o atendimento de pacientes que dependem de transfusões de sangue. Em Teutônia, o CT Mão de Pedra faz da solidariedade uma extensão dos ensinamentos praticados nos tatames e promove mutirões de doação regulares.
Neste sábado (27/6), o grupo realizará mais uma ação. Vinte voluntários viajarão até o Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre, para doar sangue.
A mobilização foi organizada em apoio ao pequeno Benjaminn de Souza Tauchert da Costa, aluno do CT que está em tratamento contra a leucemia. Mas as bolsas coletadas também poderão beneficiar outros pacientes, conforme a necessidade do hemocentro.
De acordo com o responsável pelo centro de treinamento, Dirlei Broenstrup, campanhas como essa já fazem parte da rotina da equipe. Um mutirão é organizado sempre que os doadores estão aptos a realizar uma nova doação.
Em outras ocasiões, o grupo também se mobilizou para atender pacientes sem qualquer vínculo com a academia. “Sempre que podemos, organizamos essas doações. Nosso objetivo é ajudar quem precisa. É uma forma de incentivar a solidariedade e retribuir com o próximo”, afirma Broenstrup.
Franciéli Bittencourt coordena a lista de voluntários desde a primeira edição. Segundo ela, o envolvimento cresce a cada mobilização. “Até consegui doadores que não são do nosso CT. Pessoas desconhecidas que se prontificaram em ajudar também”, relata.
Ela doa sangue há muitos anos e procura se manter apta para contribuir quando Benjaminn precisar. “Ultimamente, acabo por ‘‘guardar’’ para que, quando ele precisar, eu esteja disponível para doar. Ele tem a mesma idade da minha filha. Como mãe e amiga da família, gosto de me envolver nisso e ajudar, é uma atitude de se colocar no lugar do outro”, destaca Franciéli.
A ação tem o apoio da Prefeitura de Teutônia, que disponibilizou o transporte dos voluntários até a capital. A saída está prevista para as 6h, com chegada ao hospital às 8h, horário reservado para a coleta do grupo.
O mutirão deste ano também chama atenção pelo crescimento da participação. O número de voluntários aumentou em relação à campanha mais recente, em setembro de 2025.
Ao incentivar a doação voluntária e periódica, o grupo busca conscientizar a comunidade sobre a necessidade de manter os bancos de sangue abastecidos durante o ano, o que contribui para que pacientes em tratamento, submetidos a cirurgias ou vítimas de acidentes tenham acesso ao líquido da vida sempre que precisarem.
A ação é recorrente no CT Mão de Pedra / Crédito: Divulgação
Banco de sangue no Polo de Saúde
Quando se fala em doação de sangue, o projeto do Polo de Saúde do Hospital Ouro Branco (HOB) mostra mais uma vez sua relevância. Entre os serviços planejados, como a Unidade de Terapia Intensiva (UTI), está o Banco de Sangue. Uma vez instalada, a estrutura vai transformar a capacidade de atendimento da microrregião.
O projeto, estimado em mais de R$ 52,5 milhões, prevê a construção do Banco de Sangue no segundo ano de obras, junto à UTI e à Oncologia Ambulatorial.
A relevância dessa estrutura vai além da logística hospitalar. O sangue é insubstituível – não existe versão sintética – e sua disponibilidade imediata pode ser a diferença entre vida e morte em situações de urgência.
Cirurgias de emergência, acidentes com hemorragia e tratamentos oncológicos estão entre as situações que dependem diretamente do estoque de sangue. Ter um banco dentro do próprio hospital elimina a dependência de transferências e a perda de tempo crítico.
O contexto regional torna esse investimento ainda mais urgente. O Hospital Ouro Branco atende mais de 40 municípios dos vales do Taquari e do Caí. Durante as enchentes de 2024, a instituição funcionou como retaguarda para municípios cujo atendimento foi comprometido pelas inundações.
Também, concentrou grande parte dos atendimentos de feridos em episódios como o acidente com universitários em Imigrante. Naquele momento, a ausência de uma estrutura de hemoterapia local evidenciou uma vulnerabilidade que o Polo de Saúde agora se propõe a resolver.
Hemovale
O Centro Hemoterápico do Vale do Taquari (Hemovale), localizado em Lajeado, recebe, em média, 750 doadores por mês. Uma única doação pode ajudar até quatro pessoas e o processo dura cerca de 40 minutos.
Apesar da média mensal, o número costuma cair cerca de 10% no inverno. No momento, a maior necessidade é por doadores do tipo sanguíneo O-.
Desde janeiro, o Hemovale funciona em um novo endereço: o antigo prédio do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), na Avenida Benjamin Constant, no Centro. A mudança teve como objetivo facilitar o acesso ao local.
O serviço funciona de segunda a sexta-feira, das 7h30 às 13h. No sábado, o atendimento é das 7h30 às 11h. A doação deve ser previamente agendada. Contato: (51) 3748-0442 (WhatsApp).
DOAÇÃO DE SANGUE – INFORMAÇÕES IMPORTANTES
Antes de doar, atente-se:
• Estar bem alimentado
• Dormir pelo menos 6h na noite anterior
• Beber bastante água antes da doação
• Evitar alimentos gordurosos nas 3h que antecedem a doação
• Não ingerir bebidas alcoólicas 12h antes
Quem pode doar
• Ter entre 16 e 69 anos (menores de 18 anos precisam de autorização dos responsáveis)
• Pesar no mínimo 50 quilos
• Estar em boas condições de saúde.
Principais impedimentos temporários
• Se está com sintomas de gripe, febre ou infecção
• Se recebeu vacina injetável contra gripe
• Se estiver grávida ou amamentando bebê menor de 12 meses;
• Se tiver contraído hepatite após os 11 anos de idade;
• Se está amamentando (parto há menos de 12 meses)
• Se fumou pelo menos 2h antes ou ingeriu bebida alcoólica 12h antes de doar
• Se realizou tatuagem ou piercing recentemente (mínimo 6 meses)
• Se passou por cirurgias ou procedimentos médicos recentes
• Se estiver utilizando determinados medicamentos ou em situações específicas, que serão avaliadas pela equipe do hemocentro
