A primeira enchente de 2026 no Vale do Taquari expôs, mais uma vez, a vulnerabilidade de milhares de moradores que vivem às margens dos rios da região e levantou questionamentos sobre a capacidade dos sistemas de monitoramento em antecipar eventos extremos.
Após um dia marcado por alertas da coordenação da Defesa Civil, de que não havia expectativa de uma cheia significativa – inclusive na noite de terça-feira (21/7), a rápida elevação do Rio Taquari durante a madrugada de quarta-feira (22/7) surpreendeu moradores e obrigou dezenas de famílias a deixarem suas casas. O Rio Taquari alcançou pico de 24,77 metros na régua da CPRM em Lajeado, às 00h45min de quinta-feira (23/7). No Porto de Estrela, o pico foi 24,95 metros, à 1h.
Em Lajeado, o Parque do Imigrante voltou a receber famílias desalojadas. Foram mais de 470 pessoas. Entre elas, Darci Soares Viana Neto, morador do Bairro São José, que precisou deixar a residência às pressas, durante a madrugada. “Até então, nós não estávamos preocupados. Falaram que o rio não ia dar enchente. De madrugada, a Defesa Civil passou avisando que a água estava subindo e que era para todo mundo sair”, relata.
Segundo Darci, o alerta ocorreu entre 3h e 4h da madrugada. Poucas horas depois, ele e o filho retiravam os pertences da família em uma caçamba, enquanto a água já avançava sobre a frente da residência. “A água vem muito ligeiro, não tem tempo. O Rio Taquari sobe muito rápido”, afirma.
Aos 32 anos, ele conta que praticamente passou toda a vida no Bairro São José e que essa não é a primeira vez que precisa buscar abrigo. “Nós moramos praticamente a vida inteira ali. Se morei um ou dois anos fora, foi muito. Hoje não tem como ir para outro lugar. Os aluguéis são muito caros e a casa é nossa. Estamos esperando pela prefeitura, vai que ganhamos alguma coisa.”
Estado admite falha na previsão
A surpresa dos moradores também foi compartilhada pelas autoridades. O coordenador da Defesa Civil Estadual, Luciano Boeira, admitiu que os sistemas utilizados pelo Estado não conseguiram antecipar a dimensão da inundação. Ele afirmou que os modelos hidrológicos subestimaram a resposta dos rios e que não estaria esperando essa elevação do Rio Taquari. Os grandes volumes de chuva registrados nas cabeceiras da bacia do Taquari/Antas foram determinantes para o comportamento do rio.
A declaração ocorre em um momento em que o Estado conclui a implantação de um amplo sistema de monitoramento hidrometeorológico, anunciado após as tragédias climáticas de 2023 e 2024. O investimento supera R$ 47 milhões e prevê a instalação de 130 estações equipadas com sensores de nível dos rios, medidores de chuva, câmeras e transmissão de dados em tempo real.
A primeira enchente de 2026, no entanto, reacende o debate sobre a eficiência dos modelos de previsão e sobre a comunicação dos riscos à população.
Famílias fora de casa
Em Estrela, 67 pessoas ficaram abrigadas no Centro Comunitário Cristo Rei até a tarde desta quarta-feira. O grupo de 22 núcleos familiares totalizou 36 adultos e 31 crianças.
O município também registrou, na terça-feira (21/7), o dia mais chuvoso do ano. Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) apontam um acumulado de 85,4 milímetros em apenas 24 horas.
Em Arroio do Meio, a Defesa Civil informou que o Rio Taquari atingiu a marca de 29 metros. Por precaução, 11 famílias foram retiradas de suas residências. Sete delas foram encaminhadas ao abrigo temporário montado no Ginásio do Bairro Barra do Forqueta, enquanto outras quatro buscaram acolhimento junto a familiares.
Já em Santa Tereza, o Rio Taquari alcançou aproximadamente 17,33 metros, quase três metros acima da cota de inundação, estabelecida em 14,50 metros. A água invadiu alguns pontos da cidade, como a sede da Associação Santa-Terezense de Canoagem (Astecan).
Em Bento Gonçalves, a força das águas do Rio das Antas chamou a atenção. Uma casa de madeira localizada na Linha Alcântara foi arrastada pela correnteza na manhã desta quarta-feira. A residência era utilizada apenas nos fins de semana e estava desocupada no momento do incidente. Os móveis já haviam sido retirados. A imagem foi registrada nas proximidades do encontro dos rios das Antas e Carreiro, ponto que marca a formação do Rio Taquari, nas imediações da nova ponte de Santa Bárbara, na RS-431.
Um problema que persiste
Mais do que os números, a enchente de 2026 evidencia um problema que segue sem solução definitiva. Após as maiores tragédias climáticas da história do Rio Grande do Sul, centenas de famílias ainda vivem em áreas sujeitas a inundações frequentes.
Para muitos moradores, deixar esses locais representa um custo impossível de ser assumido. Entre financiamentos, preços elevados dos aluguéis e a ligação construída ao longo de décadas com a comunidade, a permanência acaba sendo a única alternativa.
Enquanto as equipes da Defesa Civil trabalham para atender os atingidos, o Vale do Taquari revive cenas que se tornaram familiares como os ginásios transformados em abrigos, mudanças feitas às pressas e moradores observando o avanço das águas.
El Niño ganhará intensidade
Para o meteorologista e autor da MetSul, Luiz Fernando Nachtigall, este é apenas o começo de um período de altíssimo risco climático. Projeções climáticas para o El Niño 2026-2027 indicam a possibilidade de um evento sem precedentes desde o início dos registros meteorológicos. Modelos apontam que a anomalia da temperatura das águas do Pacífico Equatorial, na região Niño 3.4, pode atingir cerca de 3,6°C, superando com folga os maiores episódios já observados, como os de 2015-2016, 1997-1998 e 1982-1983.
Análises baseadas em centenas de simulações, mesmo os cenários mais conservadores se aproximam dos recordes históricos, o que reforça a expectativa de um fenômeno de intensidade excepcional. Especialistas destacam, no entanto, que previsões de longo prazo ainda carregam incertezas, já que fatores atmosféricos e oceânicos podem alterar a evolução do sistema.
O rápido aquecimento do Pacífico também chama a atenção dos meteorologistas. Em poucos meses, o oceano passou de uma condição neutra para níveis considerados de Super El Niño, impulsionado por alterações nos ventos e pelo acúmulo de águas mais quentes abaixo da superfície.
Caso as projeções se confirmem, os impactos poderão ser sentidos em diversas regiões do planeta, com mudanças significativas nos padrões de chuva e temperatura. No Sul do Brasil, a tendência é de precipitações acima da média, aumento na frequência de temporais e maior risco de enchentes nos próximos meses.
Meteorologistas alertam que a cheia registrada no Rio Grande do Sul nesta semana pode representar apenas o início de um período de maior instabilidade climática. Os meses entre setembro e dezembro são apontados como os de maior preocupação, embora os efeitos do fenômeno possam se estender até o verão e, eventualmente, alcançar o outono de 2027.
Linha do Tempo
Domingo (19/7): chuva fraca no vale, mas intensa na Serra
Volume de chuva registrado diretamente no Vale do Taquari foi pontual e baixo (com acumulados iniciais de cerca de 5 mm a 20 mm na região), mas os temporais intensos se concentraram principalmente nas cabeceiras da bacia e na Serra Gaúcha, com volumes que superaram os 120 mm a 170 mm.
Segunda-feira (20/7): chuva intensifica
Os acumulados de chuva no Vale do Taquari alcançaram até 36 milímetros em diversos pontos da região. O cenário mais crítico continuou se desenhando nas cabeceiras da bacia hidrológica (regiões Norte e Serra Gaúcha), onde os volumes acumulados foram severos e prepararam o terreno para a cheia do Rio Taquari vista nos dias seguintes
Terça-feira (21/7): dia mais chuvoso do ano
Os acumulados de chuva dispararam e atingiram 64,2 milímetros diretamente na região de Lajeado, enquanto algumas localidades vizinhas como Colinas e Nova Bréscia registraram mais de 80 mm acumulados. Em Estrela choveu 85,4 milímetros, sendo o dia mais chuvoso do ano até aqui. Ao meio dia, a projeção da Defesa Civil indicou abaixo da cota de inundação. À meia-noite os níveis das águas já apresentavam aceleração acima do previsto.
Quarta-feira (22/7): ponto crítico da enchente
Era 1h da madrugada quando a prefeitura de Lajeado começou a retirar as famílias ribeirinhas. Rio Taquari atinge cota de inundação. Às 9h, em Estrela, prefeitura inicia a remoção de pessoas. Parque do Imigrante em Lajeado e Centro Comunitário Cristo Rei em Estrela abrigam as primeiras famílias. Às 12h, acesso a Colinas, pela RS-129, é interrompido. Outras ruas são inundadas pelas águas.
Quinta-feira (23/7): recuo das águas
A chuva dá uma trégua depois de o Rio Taquari atingir pico máximo de 24,77 metros, às 0h45min. Às, 9h15, o rio reduziu para 23.90 metros. Iniciam as limpezas das ruas e algumas famílias começam a retornar às residências.
