Poucas empresas conseguem atravessar gerações mantendo vivos os valores que deram origem ao negócio. Menos ainda chegam ao mercado internacional sem perder a identidade. Na manhã desta terça-feira (28/7), a Docile reuniu empresários, autoridades e representantes da imprensa em sua sede, em Lajeado, para celebrar duas marcas históricas: os 35 anos da empresa e os 90 anos de Nestor Heineck, completados em 21 de julho.
A programação teve como ponto alto o lançamento do livro A Força da Gentileza, obra que retrata a vida e a trajetória do empresário e de sua família. Mais do que uma biografia, o livro reconstrói quase nove décadas de história, desde os tempos em que Lajeado ainda era distrito de Estrela e uma pequena garagem de madeira abrigava a produção dos primeiros doces da família Heineck.
Ao lado da esposa, Isolina Coletti Heineck, a dona Isa, Nestor acompanhou emocionado as homenagens. Cercado pelos filhos, netas, amigos e colaboradores, viu sua história ser celebrada não apenas como a de um empresário bem-sucedido, mas como a de um homem que ajudou a moldar a cultura empreendedora do Vale do Taquari.
“O meu coração está pulando de contente vendo esse pessoal todo aqui para prestigiar o lançamento do livro. Só tenho coisas para agradecer, não tenho para me lamentar. Acho que até aqui fui muito bem ainda”, afirmou Nestor, arrancando aplausos dos presentes.
Antes da Docile
Embora a Docile tenha sido fundada oficialmente em 1º de setembro de 1991, a tradição da família na produção de doces remonta a 1936. O livro percorre os primeiros anos da atividade, as mudanças de endereço, a transferência do Bairro Florestal para o Montanha e a consolidação da Balas Florestal, empresa embrionária da Docile.
Também estão presentes os bastidores familiares, as decisões difíceis e os capítulos mais sensíveis da sucessão. Com a morte de um dos irmãos de Nestor, surgiram divergências sobre os rumos da empresa. Um dos filhos manifestou, inicialmente, o desejo de seguir outro caminho profissional. Quando decidiu retornar, a estrutura societária já havia se reorganizado.
As tensões daquele período, retratadas na obra sem esconder as dificuldades, acabaram levando os filhos de Nestor a construírem seus próprios empreendimentos. Décadas depois, a decisão seria reconhecida como um ponto de inflexão para o surgimento da Docile.
A empresa nasceu como uma distribuidora de xarope de glicose idealizada pelos irmãos Heineck. Com o tempo, passou a fabricar refrescos em pó, guloseimas e, posteriormente, consolidou a marca que hoje é uma das principais indústrias de doces do país.
A empresa que não está à venda
Se o passado ajuda a explicar a origem da Docile, o futuro já está sendo desenhado pela terceira geração da família. Durante a cerimônia, o presidente do Conselho de Administração, Fernando Heineck, reforçou que a empresa seguirá sendo conduzida pela família. “Muitos fundos de investimento e bancos nos questionam: ‘Vocês estão à venda?’. E a gente responde: ‘Não. Essa empresa não está à venda’. Nós queremos perenizar esse negócio. É com essa visão que a gente toca o dia a dia da empresa e pretende seguir os caminhos do futuro com os filhos e com a equipe que conseguimos construir”, destacou.
Dos seis filhos de Fernando, quatro já atuam na companhia. Para ele, a continuidade do negócio passa tanto pela sucessão familiar quanto pela valorização dos colaboradores. “É um agradecimento a todos aqueles que fazem parte desse negócio e que nos ajudam, no dia a dia, a produzir essa empresa para destinos melhores ainda.”
De Lajeado para mais de 100 países
O vice-presidente da Docile, Alexandre Heineck, destacou que o crescimento da empresa nunca esteve dissociado das suas origens. A marca continua carregando a identidade construída no Vale do Taquari. “A nossa história é marcada por muita coisa boa, muita coisa doce. Essa relação com o açúcar, essa relação de irmãos, familiar, são coisas das quais a gente se orgulha muito.”
Hoje, a Docile exporta para mais de 100 países, levando o nome de Lajeado para diferentes continentes. Para Alexandre, o alcance internacional da empresa aumenta a responsabilidade de preservar sua essência. “A gente não está só em Lajeado, mas onde a gente chegar, tem que chegar bem. Com um produto saboroso, gostoso e visualmente bonito. A Docile é para o mundo. Não para nós somente. Ela precisa servir aos colaboradores, à comunidade e às pessoas.”
O legado da humildade
À frente da operação como CEO, Ricardo Heineck resumiu a trajetória da empresa em três palavras, que foram trabalho, humildade e respeito. Os ensinamentos recebidos dos pais continuam presentes no cotidiano da organização. “O pai e a mãe nos deixaram um legado lindo de humildade e respeito às pessoas. A gente nunca imaginou ter uma Docile do tamanho que ela tem hoje, com 1,7 mil colaboradores.”
Ricardo também arrancou sorrisos ao revelar que, apesar dos 90 anos, Nestor continua acompanhando de perto a rotina da família. “Ele ainda puxa a nossa orelha. Eu e meus irmãos seguimos sendo os ‘gurizão’. Isso é bonito, porque faz a gente continuar elevando a régua e buscando fazer a Docile ser uma empresa cada vez melhor.”
Ao final da cerimônia, ficou evidente que a celebração ultrapassava os números. Os 35 anos da Docile representam apenas um capítulo de uma história iniciada muito antes, em uma garagem de madeira, construída com trabalho, atravessada por perdas, divergências e recomeços.
