Ícone do site Folha Popular

Enchente muda a rotina de moradores pela segunda vez em duas semanas

Moradores de Estrela carregam móveis e eletrodomésticos para o segundo piso de forma a evitar maiores prejuízos com a cheia / Crédito: Thiago Maurique

O Rio Taquari voltou a transbordar e alterar a rotina das famílias. O nível das águas atingiu 23,99 metros na noite de quarta-feira (29/7), abaixo dos 24,77 metros registrados na cheia da semana passada, mas ainda quase cinco metros acima da cota de inundação (19m). Embora menor, a nova enchente foi suficiente para reacender o temor de quem, desde as históricas cheias de 2023 e 2024, convive com a incerteza a cada previsão de chuva.

Em Estrela, moradores passaram a quarta-feira levantando móveis, retirando eletrodomésticos e acompanhando a evolução do rio. O ritual se tornou rotina para moradores ribeirinhos, especialmente em períodos marcados pelo fenômeno El Niño.

Há apenas 6 meses na casa onde mora atualmente, Sandro Johann (30 anos), já enfrenta a segunda inundação no novo endereço. Natural de Estrela e pai de três filhos, ele conta que perdeu uma residência nas enchentes de 2024 e, desde então, vive uma sequência de mudanças em busca de um lugar seguro. “Não tem muita casa para alugar na cidade”, relata.

A propriedade levada pelas enchentes ficava no bairro Marmitt. Após a tragédia, a família alugou uma casa no Bairro das Indústrias, que também foi invadida pela água. Agora no Bairro Cristo Rei, ele mantém a rotina de tentar minimizar os prejuízos com a retirada de móveis, eletrodoméstico e demais pertences. “Infelizmente, não temos outra coisa a fazer”, lamenta.

Enquanto algumas famílias vivem o drama dentro de casa, outras enfrentam prejuízos no trabalho. Há 10 anos atuando em uma lavagem de veículos nas proximidades do Parque Princesa do Vale, Jarbas Cristiano Mädke se acostumou com o protocolo imposto pelas enchentes. “Hoje (quarta-feira), às 5h da manhã, já tinha água lá embaixo. Peguei o caminhão e levei tudo para casa”, conta.

Quando o rio baixa, o trabalho recomeça imediatamente. Primeiro, a limpeza com a própria água da enchente, depois a retirada do barro com vassouras e um lava-jato para remover a lama das paredes. “É um transtorno, mas fazer o quê? A vida segue”, contemporiza.

Para Ademir Fülber (67), deixar a área de risco nunca foi uma decisão simples. Morador do Bairro Alto da Bronze há 47 anos, ele viu a enchente de 2024 ultrapassar o piso superior da residência que construiu e guarda até hoje as marcas deixadas pela água.


Morador do bairro Altos da Bronze, Ademir Füllber relata não ter alternativa para sair da área alagável / Crédito: Thiago Maurique

Viúvo há 10 anos e aposentado após 37 anos trabalhando na construção civil, ele diz que gostaria de mudar, mas esbarra na realidade financeira. “Sair para onde? Um terreno custa R$ 200 mil. Depois tem mais R$ 200 mil para construir uma casa. De onde o cara vai tirar R$ 400 mil?”, questiona. Ele afirma que chegou a procurar programas habitacionais, mas não conseguiu ser contemplado. “Vou ficando por aqui mesmo”, sentencia.

Experiência e prevenção

A experiência fez de Darlã Bellini um observador atento do comportamento do Rio Taquari. Também morador do Bairro Cristo Rei, antes mesmo do amanhecer de quarta-feira, ele já consultava os níveis registrados em Santa Tereza e Encantado para estimar quanto a água ainda subiria em Estrela. Ao mesmo tempo, deslocava a esposa e os filhos para casa de parentes.

O conhecimento foi adquirido após anos convivendo com as cheias. Em 2001, durante a construção da residência, o rio atingiu 26,95 metros e Bellini decidiu elevar o piso da casa em 20 centímetros. “Se eu soubesse o que viria depois, tinha feito um metro mais alto”, lamenta.

Na enchente histórica de 2024, todos os cuidados foram insuficientes. Mesmo com os móveis elevados, a água invadiu a casa e causou grande destruição. Hoje, ele constrói uma nova residência em local alto, enquanto vê a propriedade onde investiu anos de trabalho perder, aos poucos, as características que tinha antes das enchentes. “As árvores foram arrancadas, o espaço onde reunia amigos desapareceu”, relata.

Quem também acompanha de perto a evolução do rio é Pedro Darci Beschorner (59). Morador do Bairro das Indústrias, ele teve a casa invadida pela água em 2024 e voltou à margem do Taquari para observar o comportamento da nova cheia.


Pedro Beschorner observa o comportamento do rio para decidir se recolhe os pertences da família, moradora do Bairro das Indústrias / Crédito: Thiago Maurique

Pedro acredita que o cenário não deve repetir as proporções da tragédia registrada há 2 anos, mas não descuida da prevenção. “Se precisar, pegamos um caminhãozinho para tirar os móveis e não perder tudo de novo”, afirma.

Preocupação redobrada

Mesmo com a água baixando, a tranquilidade está longe de voltar às margens do Rio Taquari. A previsão do Núcleo de Hidrometeorologia da Univates indica o retorno da chuva já a partir deste sábado (1º/8), quando a aproximação de uma área de baixa pressão, associada a uma frente fria. O volume previsto é de cerca de 35 milímetros apenas no sábado.

A instabilidade deve persistir ao longo da próxima semana, com volumes que variam de 8 milímetros a 20 milímetros até a sexta-feira (7/8). Embora os acumulados diários sejam menores, a sequência de dias chuvosos mantém a atenção voltada para o comportamento da bacia do Taquari-Antas.

O receio é que novos acumulados, somados ao solo já encharcado e aos rios ainda elevados, possam provocar novos alagamentos. Para quem precisou levantar móveis, retirar pertences e recomeçar em tão pouco tempo, cada nova previsão de chuva significa a possibilidade de reviver um cenário que ainda está longe de ser superado.

Sair da versão mobile