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Plataforma reúne histórico das cheias no Rio Taquari

A elevação do nível do Arroio Estrela provocou alagamentos na região da Ponte Baixa, uma das áreas mais afetadas durante a cheia / Crédito: Município de Estrela

Um levantamento que reúne mais de 150 anos de registros de cheias no Vale do Taquari passou a estar disponível em uma plataforma digital de acesso público. O projeto é resultado da pesquisa desenvolvida ao longo de aproximadamente uma década pela doutoranda Sofia Royer Moraes, da Universidade do Vale do Taquari (Univates) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em parceria com o jornalista e pesquisador Lucas George Wendt.

A plataforma organiza registros históricos, gráficos e informações técnicas sobre as cheias que atingiram a região. Atualmente, o levantamento reúne 213 eventos, apresentando dados como ano, mês, data, intervalo entre uma ocorrência e outra, cota atingida e as fontes utilizadas para validar cada registro. Também foram incluídos gráficos que permitem observar a frequência das cheias ao longo das décadas e a possível relação dos eventos com fenômenos climáticos como El Niño, La Niña e períodos de neutralidade.

O primeiro evento confirmado na série histórica ocorreu em julho de 1873. Embora existam registros mais antigos, a equipe optou por incluir apenas aqueles que puderam ser comprovados por diferentes fontes documentais. “Nós temos dados desde 1824, mas o dado que conseguimos validar mesmo foi o de 1873″, explica Sofia. Segundo ela, a confirmação foi possível a partir de documentos oficiais enviados ao imperador, registros administrativos da época, fotografias históricas e levantamentos topográficos.

Para ir antes de 1873, será necessário um garimpo mais profundo, mas é bom lembrar que em 1824 começou a colonização alemã no Estado. Até por volta e 1850, a região era habitada por povos originários e não há registros.

Um dos elementos que permitiu reconstruir a altura da enchente de 1873 foi uma fotografia da antiga Casa de Navegação de Lajeado. “Com base nessa foto e em um levantamento topográfico, conseguimos reconstituir aquela cota antiga”, destaca Moraes. Com essa atualização, a inundação de 1873 passou a ocupar a terceira posição entre as maiores já registradas no Vale do Taquari. A cheia de maio de 2024 é a maior da série histórica, seguida pela de setembro de 2023 e novembro de 2023, enquanto a enchente de 1941 passou para o quinto lugar, conforme a cota do Porto de Estrela.

Os pesquisadores afirmam que o trabalho também pretende incentivar a identificação de marcas históricas preservadas em construções da região. Para Sofia, esses registros ajudam a compreender a evolução das cidades. “Quando conseguimos reconstituir como esses eventos aconteceram, entendemos também como eles remodelaram o meio urbano”, afirma.

Memória

Além do caráter científico, a plataforma busca preservar a memória coletiva das enchentes. Lucas Wendt explica que boa parte dessas informações já existia em pesquisas acadêmicas, mas permanecia dispersa. “A ideia de trazer isso para uma plataforma mais acessível é oferecer informação e constituir uma memória desses eventos. Organizar esse material permite que as pessoas compreendam o que aconteceu e utilizem essas informações para pensar o futuro”, ressalta.

O banco de dados permanece em constante atualização e já incorpora os eventos registrados nas duas últimas semanas. A intenção é ampliar continuamente a série histórica à medida que novos documentos forem localizados e validados.

Comportamento

Os dados também revelam uma mudança na frequência das cheias nas últimas décadas. A década de 1980 contabilizou 37 eventos, enquanto a década de 2010 registrou 23 ocorrências. A década atual, iniciada em 2020, já soma 20 registros em menos de 6 anos. Para Wendt, essa informação reforça a importância de manter os dados organizados. “A coletividade não consegue lembrar de tudo. Por isso é importante sistematizar essas informações para que elas possam orientar decisões”, afirma.

Outro dado levantado pelos pesquisadores mostra que, considerando os registros entre 1940 e os eventos mais recentes, o intervalo médio entre uma cheia e outra é de aproximadamente 150 dias. “Na prática, isso significa que ocorre um evento desse tipo a cada 150 dias, praticamente dois por ano quando consideradas todas as cotas registradas”, destaca Wendt.

Aprofundamento

A pesquisa também busca estimular iniciativas semelhantes em outros pontos da bacia hidrográfica Taquari-Antas, ou seja, avaliar as bacias próprias de rios como Carreiro, Forqueta, Guaporé, entre outros. Atualmente, os dados têm como referência principal os níveis registrados em Lajeado e Estrela, mas a metodologia pode ser aplicada em diferentes municípios e afluentes.

Para Sofia, compreender o histórico das inundações é essencial para o futuro da região. “Precisamos consolidar essa memória para que ela não caia no esquecimento. Isso pode trazer respostas no comportamento das cidades e contribuir para que cada vez menos pessoas sejam atingidas pelas enchentes”, conclui. Permitirá inclusive o planejamento de construções por haver uma análise de onde o rio passou quando houve enchente.

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