Golpes envolvendo falsos advogados e escritórios de advocacia continuam fazendo vítimas e preocupam a categoria. A prática utiliza informações reais de processos judiciais para entrar em contato com clientes e convencê-los a realizar pagamentos ou fornecer dados. O alerta foi tema do programa Espaço Aberto da Rádio Popular que contou com a participação de Rafael Godinho, presidente da Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Estrela, e Bruno Tonelli, conselheiro da Subseção e presidente da Comissão de Fiscalização de Publicidade.
O mecanismo de ação é complexo, os criminosos conseguem acessar informações de processos, que são, em grande parte, digitalizados, e utilizam esses dados para abordar pessoas que possuem ações judiciais. Segundo Godinho, “há uma falha, ao meu ver, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), porque é inaceitável que terceiros consigam acessar processos que são todos digitalizados hoje. Eles conseguem acessar os processos e, com essas informações, contatam os clientes”.
Outro ponto que chama a atenção é a obtenção dos contatos telefônicos das vítimas. Godinho explica que os criminosos podem cruzar dados de processos com informações obtidas por outros meios, facilitando a abordagem. Os profissionais ficam sem ações diante deste tipo de fraude que prejudica a própria categoria. Segundo o presidente, os criminosos conseguem listagens nas operadoras de telefonia e batem o CPF com a listagem que têm na telefonia”.
A urgência é uma das principais armadilhas
Uma das principais estratégias utilizadas pelos golpistas é criar uma sensação de urgência. As mensagens ou ligações afirmam que determinado pagamento precisa ser realizado imediatamente, que uma audiência ocorrerá naquele mesmo dia ou que existe alguma situação excepcional relacionada ao processo.
“E esse é justamente o motor do golpe: criar a urgência na cabeça da pessoa. É um trabalho psicológico”, destaca Tonelli.
O advogado ressalta que os processos judiciais seguem prazos e que audiências não são marcadas de forma repentina, como os criminosos costumam alegar. “O advogado que conduz a ação do cliente sempre vai avisar com muita antecedência. A vida do advogado é regulada por prazo”, explica.
Os golpistas também costumam utilizar a promessa de valores elevados para convencer as vítimas. Uma das abordagens envolve informar que a pessoa ganhou uma ação e que precisa fazer um pagamento antecipado para liberar o dinheiro. “O advogado não costuma pedir para que o cliente pague algum valor para assim receber o processo que ganhou. Quem ganhou o processo não tem que pagar nada”, ressalta Tonelli.
Pagamentos devem ser conferidos
Outro cuidado importante está relacionado a boletos e transferências via Pix. Os advogados orientam que qualquer solicitação de pagamento seja conferida diretamente com o profissional responsável pelo processo e que o beneficiário da transferência seja verificado antes da confirmação.
Godinho explica que, quando existe alguma despesa legítima relacionada ao processo, há mecanismos próprios para o pagamento e o cliente deve conferir as informações antes de concluir a operação.
Contato direto é a principal prevenção
Para os representantes da OAB, manter os canais oficiais de contato do advogado é uma das formas mais simples de evitar cair no golpe. Caso uma mensagem seja recebida de um número diferente, mesmo utilizando a foto e o nome do profissional, a orientação é interromper o contato e procurar o advogado pelos meios já conhecidos e se possível, denunciar o número.
Além disso, recomendam o atendimento presencial quando houver qualquer dúvida.
Inteligência artificial amplia os riscos
Os golpes também estão acompanhando a evolução tecnológica. Agora recursos de inteligência artificial podem ser utilizados para imitar vozes, produzir vídeos e tornar as abordagens mais convincentes.
A orientação é não confiar exclusivamente em uma comunicação recebida pela internet, mesmo quando ela aparenta ser legítima.
Combate envolve diferentes instituições
A OAB atua em conjunto com outras instituições no enfrentamento desse tipo de fraude. Godinho afirma que a Subseção trabalha com a Polícia Civil e o Judiciário na tentativa de combater a prática e conter o uso indevido de informações.
Para ele, uma das possibilidades de reduzir os golpes seria restringir o acesso aos processos judiciais. O presidente da Subseção reconhece, porém, que o enfrentamento é complexo diante da velocidade com que a tecnologia avança. “É uma briga muito grande entre a velocidade da tecnologia, o que eles conseguem fazer, e movimentar uma máquina inteira do Judiciário”, avalia.
Enquanto as instituições buscam mecanismos para dificultar a ação dos criminosos, a principal recomendação aos cidadãos continua sendo a desconfiança diante de situações inesperadas.
Golpe do falso advogado exige atenção redobrada

Rafael Godinho e Bruno Tonelli em entrevista exclusiva no estúdio da Rádio Popular / Crédito: Ariana de Oliveira