A trajetória de Mauro Luciano Hauschild até a advocacia passou por caminhos pouco convencionais. Formado em matemática, servidor público e professor, ele chegou ao Direito por uma oportunidade de carreira no Ministério Público Federal. No poder público, construiu sólida trajetória que incluiu cargos como Adjunto do Advogado-Geral da União, chefe de gabinete no Supremo Tribunal Federal e presidente do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Em 2013, Hauschild decidiu transformar a experiência acumulada no setor público em um empreendimento próprio. O escritório, criado inicialmente em uma pequena sala, hoje conta com unidades em diferentes estados e uma equipe especializada em atuação estratégica. No Dia do Advogado, ele conversou com o Grupo Popular sobre a decisão de empreender, a relação entre Direito e negócios, além dos desafios para os novos profissionais da área.
Grupo Popular – Qual a origem do Mauro Hauschild e a trajetória até se tornar advogado?.
Mauro Hauschild – Eu nasci em Estrela, mas me considero “bom-retirense”, pois mudei para Bom Retiro do Sul com 3 meses de idade. Curiosamente, nasci em primeiro de abril e minha mãe contava que, uma semana antes do parto, uma cigana previu que eu seria um grande advogado. Mas eu não queria isso. Meu primeiro vestibular na UFRGS foi para medicina, fiquei na suplência, mas não entrei. Depois, acabei me formando em matemática, tornando-me servidor concursado do Ministério do Exército e professor.
GP – Como se deu essa “virada de chave” para o Direito?
Hauschild – Foi por uma questão prática de carreira. Depois do Ministério do Exército fiz concurso público e passei para o Ministério Público Federal como servidor. Na época, meu chefe notou que eu era um dos poucos sem uma gratificação específica dada apenas a quem tinha curso de Direito. Aquilo foi uma “bomba” na minha vida. Duas semanas depois, me inscrevi no vestibular da UniRitter. No último semestre, meu chefe na procuradoria viajou e deixou as inscrições pagas para eu e meus colegas fazermos concursos para procurador federal, da Fazenda e advogado da União, dizendo que não nos queria mais lá quando voltasse. Todos passamos. Tomei posse como procurador federal em 2004, sem nunca ter tido experiência prévia na advocacia privada.
GP – O que o motivou a abandonar um salário estável na advocacia pública para empreender?
Hauschild – Na advocacia pública, cheguei a cargos como Adjunto do Advogado-Geral da União e chefe de gabinete no STF. Mas, ao ocupar essas posições estratégicas e resolver problemas complexos para o mercado, percebi que havia oportunidades interessantes no setor privado. Em 2013, decidi me licenciar para abrir o escritório, o que permitia que eu voltasse se desse errado. O escritório começou em uma salinha pequena. Só me exonerei definitivamente em 2020, quando assumi a Secretaria de Justiça do RS, pois entendi que o escritório já estava consolidado e eu não poderia mais conciliar ou retroceder. Abri mão de uma remuneração que hoje, entre salário e honorários na AGU, passa de 40 mil reais, mas foi uma decisão acertada.
GP – Como você estruturou o escritório para atuar em tantas frentes nacionais?
Hauschild – O escritório nasceu com meus irmãos em 2013, e hoje temos uma equipe de 10 advogados. Eu fico em Bom Retiro do Sul, onde temos uma estrutura tecnológica robusta com três linhas de internet e Starlink para emergências, já que hoje quase tudo nos tribunais é virtual. Temos unidades em Porto Alegre, São Paulo e uma no Rio de Janeiro focada em marcas e patentes. Nossa maior base é em Brasília, com oito advogados focados no STF, STJ e TRF1, onde chegamos a gerenciar mais de 20 mil execuções para entidades sindicais.
GP – De que forma um advogado entrega de resultados ao ambiente empresarial?
Hauschild – O advogado moderno precisa entender de geopolítica, economia e taxas de juros. Muitas vezes, a “vitória” não é ganhar um processo após 20 anos de briga, mas sim construir uma solução negociada ou conciliação. Dou o exemplo de um caso em que o cliente brigou por cinco anos; no fim, ele pagou em honorários e correção monetária muito mais do que se tivesse feito um acordo no início. Hoje, trabalhamos muito com a transação tributária, que permite negociar dívidas com o governo antes que elas virem um litígio impagável. O foco é evitar que o “sangue nos olhos” do empresário destrua o patrimônio da empresa no longo prazo.
GP – Como a assessoria de inteligência empresarial entra nessa equação?
Hauschild – É um nicho consultivo, não contencioso. O objetivo é assessorar CEOs e conselhos de administração em decisões complexas, como planejamento tributário e gestão de riscos. Muitas vezes, a empresa precisa saber se parar de pagar um tributo por três meses para fazer fluxo de caixa é uma estratégia juridicamente amparada ou um risco pessoal para os diretores. É melhor entregar uma solução de curto prazo que deixe o cliente satisfeito do que apostar em processos longos contra devedores que, no futuro, podem nem ter patrimônio para pagar honorários. Também estou me preparando pela Board Academy para atuar como conselheiro, unindo minha experiência pública e jurídica.
GP – Qual o papel da gestão e da tecnologia no dia a dia do escritório?
Hauschild – Temos um advogado que se especializou apenas em ser gestor do escritório, controlando prazos, distribuição de processos e software. Isso me libera para a parte estratégica e para o relacionamento. Sobre a Inteligência Artificial, ela é fundamental para ganhar tempo e qualidade, mas é perigosa. Recentemente, vi um tribunal em Brasília proferir uma decisão baseada em um precedente inexistente gerado por IA. Os advogados que não conferiram a informação estão sendo sancionados pela OAB.
GP – Para encerrar, qual seu conselho para quem está começando no mercado jurídico?
Hauschild – O segredo é o relacionamento. O advogado não pode ficar trancado no escritório estudando; ele precisa ir a eventos da CIC, da FIERGS, reuniões de condomínio e associações de bairro. É no “olho no olho” que se ganha o cliente. Além disso, nunca pare de estudar. Eu tenho mais de 50 anos, estou lançando livros e continuo me aprofundando, pois o conhecimento humano é o que diferencia o profissional neste ambiente de IA. Movimento gera movimento.
