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Números alertam crescimento da violência contra a mulher

A agressão contra a mulher vai além da violência física; Lajeado registra mais de 100 ameaças apenas em 2026 / Crédito: Ariana de Oliveira - Arquivo FP

O suspeito de atacar a ex-companheira com golpes de facão foi preso pela Polícia Civil de Estrela. O caso ocorreu no dia 19 de julho, no Bairro Cristo Rei. A vítima sofreu ferimentos graves e sobreviveu após ser socorrida por pessoas que ouviram seus pedidos de ajuda. As duas filhas do casal, de 4 e 2 anos, estavam na residência no momento da agressão.

O ex-companheiro de Denise Silva Medeiros, de 21 anos, também está preso. O crime ocorreu no dia 5 de julho, quando o suspeito atirou contra Denise. Ela não resistiu. Em junho de 2025, Teutônia registrou um caso de feminicídio no Bairro Canabarro. A vítima foi encontrada morta dentro de casa. O principal suspeito do crime é o próprio filho.

Os números também acendem um alerta com relação a violência sexual. Em Estrela, foram registrados quatro estupros, 40 ameaças e 21 lesões corporais até o dia 3 de julho de 2026. Lajeado soma nove estupros, 63 lesões corporais e 125 ameaças no mesmo período. Em Teutônia, foram cinco estupros, 19 lesões corporais e 31 ameaças somente neste ano. No mesmo período no ano passado, ocorreram um estupro, 17 lesões corporais e 38 ameaças. Em 2024, nenhum estupro foi registrado no município.

No Rio Grande do Sul, a Lei Maria da Penha foi aplicada 3.081 vezes apenas em junho. Os dados são do Sistema de Informações Policiais (SIP/Procergs).

A professora e advogada Mara Ahlert destaca que a violência contra a mulher não se resume apenas a agressões físicas. A violência psicológica, por exemplo, é qualquer ação que cause dano emocional. “Geralmente há um processo gradual até chegar à violência física, onde a autoestima da mulher é afetada, a violência psicológica faz ela ir duvidando de si mesma”, afirma.

Já a violência patrimonial, por sua vez, está relacionada ao controle dos bens e recursos da mulher. “Nós temos vários casos que são doentios, onde a mulher tinha uma renda, tinha uma estabilidade financeira e esse marido foi conduzindo para ela deixar de trabalhar”, explica.

A violência moral atinge a honra, a reputação e a dignidade da vítima por meio de mentiras ou ofensas. Por fim, a violência sexual envolve obrigar a mulher a manter uma relação sexual contra sua vontade. “Não é apenas físico, tem muito mais além disso e camadas que não são tão visíveis”, diz.

Medidas

A primeira medida diante da violência é registrar um boletim de ocorrência e solicitar uma medida protetiva. “Grande parte no Brasil hoje as medidas já saem no mesmo dia”, ressalta Mara.

Entre os elementos que podem ajudar na comprovação estão vídeos, áudios e registros de ameaças. Mara também recomenda que a vítima compartilhe a situação com pessoas de confiança.

Ainda assim, existem diversos fatores que levam as vítimas a não denunciar os agressores. Os principais são a preocupação com os filhos e o medo do agressor. Também é comum que a vítima acredite que aquela será a última agressão. “A palavra controle é muito importante nesse contexto”.

Educação

Para ela, a prevenção da violência passa pela educação e mudança de comportamento da sociedade. “A história de que ‘em briga de marido e mulher ninguém mete a colher’ não vale mais. Temos que começar a fazer políticas para que esse ódio diminua, para que as pessoas se conscientizem de que a mulher tem seu espaço na sociedade”.

Na avaliação de Mara, esse processo educativo deveria começar ainda nas escolas. “Discutir esse tipo de tema sempre esteve muito no campo da política. Quando se precisou criar leis que incluíssem nos currículos esse tipo de tema, sempre houve uma onda moralizadora muito grande. Agora estamos colhendo as consequências de não ter feito esse tipo de educação desde cedo”, explica.

Mara chama atenção ainda para a forma como os meninos são ensinados a lidar com conflitos.“Isso é um aprendizado cultural. Que tipo de homem os meninos da nossa sociedade estão se tornando? A mesma questão vale também para as meninas, porque a sociedade também está educando as meninas a acharem normal serem vítimas de violência. Estamos ensinando um padrão altamente violento, onde os meninos precisam esconder as suas emoções e essas emoções vão se acumulando e vão se tornando violência”, explica.

Quem foi Maria da Penha?

A Lei nº 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, completou 20 anos no dia 7 de agosto. A legislação se tornou um marco na defesa dos direitos das mulheres no Brasil.

A lei nasceu da história da cearense Maria da Penha Maia Fernandes, que sobreviveu a duas tentativas de feminicídio cometidas pelo próprio marido Marco Antônio Heredia Viveros. Maria levou um tiro nas costas que a deixou paraplégica e sofreu uma tentativa de eletrocussão no banho.

O agressor permaneceu impune por mais de 15 anos. Em 1998, Maria da Penha denunciou o Brasil à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos). O Brasil foi condenado internacionalmente por negligência e omissão e foi obrigado a adotar medidas para punir com rigor a violência doméstica.

Após a lei completar duas décadas, o ex-marido da ativista foi preso neste domingo (9/8), por descumprir medida protetiva ao conceder uma entrevista sobre a tentativa de feminicídio que cometeu contra a ex-mulher.

Novas leis

A partir da criação da Lei Maria da Penha, outras legislações foram aprovadas para ampliar a proteção às mulheres. Entre as medidas está o agravamento da punição para o feminicídio, que se tornou o crime com a maior pena privativa de liberdade prevista individualmente. Para a advogada, o aumento da pena não é o suficiente para enfrentar o problema. “O fator anos de prisão não está ajudando, nós precisamos rever a nossa sociedade”, conclui Mara.

Outra mudança é a inclusão do crime de vicaricídio, caracterizado pelo assassinato de descendentes, ascendentes, dependentes ou pessoas sob a responsabilidade de uma mulher com o objetivo de causar sofrimento emocional à mulher.

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