Para Rudimar Thomas, deixar de jogar futebol nunca significou abandonar o esporte. A bola apenas mudou de lugar. Depois de anos dentro de campo, entre títulos, diferentes clubes e posições e até uma passagem pela Seleção do Banco do Brasil, encontrou no rádio e no jornal uma nova maneira de permanecer próximo daquilo que sempre fez parte de sua vida.
A história começou ainda na infância, nos potreiros e nas goleirinhas improvisadas, onde a técnica era desenvolvida de forma espontânea, com dribles, canetas e chapéus.
Rudimar gostava da jogada individual, mas a chegada ao futebol mais organizado mostrou que seria preciso acrescentar outras características ao seu jogo.
“Eu era um cara que gostava de fazer uma firula, só que, quando comecei a jogar mais para o interior, sofri um pouco mais. Isso tudo me fez refletir que tinha que jogar diferente”, lembra.
O futebol de campo ganhou espaço quando Rudimar começou a treinar e passou a disputar amistosos e competições. Ainda jovem, assinou súmula pelo Boa União e, pouco depois, viveu um dos momentos mais importantes da carreira: o título de Estrela pelo Tupi de Ano Bom, em 1978.
A conquista serviu como vitrine e abriu portas para novas equipes. A partir disso, passou por diferentes clubes e desempenhou funções variadas em campo.
Começou como centroavante, ganhou espaço como meia e, com o passar dos anos, recuou para atuar como segundo homem, volante ou quarto jogador do meio-campo, sempre adaptado às necessidades da equipe.
“Não me considerava um cara fora de série. Ea mais um jogador dentro de uma engrenagem, com uma função mais tática e de posicionamento”, explica.
A experiência também ajudou a formar o olhar que hoje aparece em seus comentários. Para Rudimar, o futebol exige leitura, posicionamento e capacidade de entender o movimento dos companheiros, algo que aprendeu muito antes de ouvir termos como compactação ou transição.
Lembrança de gerações
A passagem pelo Estrela Futebol Clube guarda uma memória especial. Quando tinha 12 anos, Rudimar costumava observar os jogadores durante o aquecimento e ficava impressionado com os movimentos sincronizados realizados antes das partidas.
Décadas depois, estava dentro de campo e repetia aqueles mesmos movimentos. “Eu parava de bater bola e ficava de olho no aquecimento. Anos depois, eu estava lá, com os gestos e a lembrança daquele guri que olhava de fora”, conta.
A lembrança representa bem a relação construída com o futebol, porque muitas situações que um dia pareciam distantes se tornaram realidade.
Entre as experiências mais marcantes também está a participação pela Seleção do Banco do Brasil, com a qual Rudimar conquistou três títulos sul-americanos, como titular na primeira campanha e com gol contra a Argentina.
O feito, entretanto, é lembrado por ele mais como resultado de dedicação do que de talento extraordinário. “Mesmo sem ser um cara fora de série, consegui chegar lá. Então, para quem está no começo, acho que o principal é acreditar e seguir o teu caminho”, engaja.
Da bola ao microfone
A aproximação com o rádio aconteceu ainda durante os tempos de atleta. Rudimar passou a participar de programas esportivos e, em determinada ocasião, foi chamado para comentar uma partida no Ginásio do Sesi.
A experiência se repetiu até que, aos 42 anos, recebeu o convite de Sílvio Brune – sócio fundador da Rádio Popular – para assumir a função de comentarista de forma efetiva.
A decisão significou reduzir a participação no futebol de campo, mas abriu uma nova etapa profissional. Desde então, são 27 anos com o microfone, período em que Rudimar também passou a resgatar histórias, personagens e títulos que poderiam acabar esquecidos.
“Sou um cara de natureza introvertida, não parece, mas sou bastante introvertido. A comunicação me ajudou muito a me expressar, seja em momento de emoção ou de alegria”, revela.
A mudança também trouxe um sentimento de gratidão por tudo aquilo que o esporte proporcionou. “Não me imagino sem o esporte, porque ele abriu muitas portas, e uma delas está aberta até hoje”, resume.
Visão de quem viveu
Hoje, Rudimar acompanha o futebol com o olhar de quem conhece a realidade de dentro e de fora do campo. Ao analisar o esporte atual, critica a dificuldade de manter trabalhos de longo prazo, o excesso de jogos e alguns problemas na formação dos jogadores.
Na avaliação dele, a base precisa preservar espaço para criatividade e experimentação, enquanto o futebol profissional deveria buscar maior continuidade para que as equipes desenvolvam entrosamento.
“Futebol é repetição. Se tu está sempre com mudanças de treinador ou jogador, fica muito difícil criar um time de verdade”, avalia.
Na Seleção Brasileira, também chama atenção para a necessidade de melhorar a organização sem a bola e o funcionamento coletivo, ao mesmo tempo em que reconhece a qualidade técnica existente no setor ofensivo.
Para quem começou com uma bola improvisada no potreiro e terminou atrás de um microfone, a trajetória deixa a certeza de que o futebol mudou de cenário muitas vezes, mas nunca deixou de acompanhar Rudimar Thomas.
A chuteira deu lugar ao microfone, os jogos viraram comentários e as lembranças passaram a ser compartilhadas com o público, mas a relação com o esporte permaneceu como o fio condutor de toda a história.
