Em 2025, 3,7 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar. Outras 1.568 foram vítimas de feminicídios. Neste ano, foram registrados 848 feminicídios entre janeiro e junho. O Vale do Taquari soma 4 casos e uma tentativa de feminicídio. As ocorrências foram registradas em Encantado, Estrela, Imigrante, Lajeado e Santa Clara do Sul.
Os números serviram como ponto de partida pra uma reflexão sobre as formas de violência contra a mulher no encontro do Grupo de Mulheres Empreendedoras da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços (CIC) de Teutônia. A reunião foi ministrada pela delegada aposentada, professora e advogada Elisabete Cristina Barreto Müller.
O grupo decidiu a temática porque percebe potencial para as participantes atuarem como ponte para auxiliar mais mulheres em situação de violência. “Nem sempre seremos a vítima, mas sempre podemos ser a ponte”, afirma Elisabete.
A convidada também destacou que a violência não escolhe idade, classe social ou profissão. “Muitas mulheres, por estarem em espaços de poder e visibilidade, têm, inclusive, dificuldade de perceber quando são vítimas de violência”, explica.
Ela ressaltou a necessidade de manter o debate sobre a violência contra a mulher. “Infelizmente, é um tema que temos que falar, porque a violência contra a mulher é recorrente. Eu gostaria de ser convidada para vir aqui e não precisar falar sobre isso, porque os números estariam muito reduzidos, mas não é isso que acontece”, lamenta.
E não é apenas “o que deixa marcas no corpo”. A Lei Maria da Penha define seis tipos agressão: física, psicológica, sexual, patrimonial, moral e vicária. Controle, humilhação, ameaça, isolamento e demais fatores psicológicos também são formas de violência.
Além disso, agora a lei também é aplicada em casos fora dos contextos doméstico, familiar ou afetivo. A decisão foi aprovada por unanimidade pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF). Mulheres vítimas de violência de gênero em contexto comunitário, profissional, institucional, social ou politico são protegidas pela Lei Maria da Penha.
Prevenção
O mês de agosto é dedicado ao combate da violência contra a mulher. Os municípios da região desenvolvem ações focadas na prevenção e conscientização para o fim da violência.
Imigrante promove a Tenda Lilás, que irá percorrer dois pontos do município com um espaço gratuito de acolhimento, informação e prevenção. A primeira edição seria realizada no dia 19 de agosto, mas foi adiada. A próxima edição será realizada no dia 26 de agosto, no Bairro Daltro Filho, em frente ao Supermercado Rottoli, das 11h30 às 15h.
As participantes terão acesso a informações sobre os direitos das mulheres, serviços e rede de proteção, além de orientações do Departamento Municipal da Mulher. A programação inclui ainda verificação de pressão arterial realizada por técnico de enfermagem da Secretaria de Saúde, Práticas Integrativas e Complementares e momentos de descontração.
Estrela iniciou o Programa “Respeito é o Começo: Escolhas e prevenção à violência de gênero”. O primeiro encontro do projeto reuniu alunos do 1º ano do Ensino Médio da Escola Estadual de Ensino Médio de Estrela na Câmara de Vereadores. O objetivo é atuar na prevenção para evitar que ciclos de violência se estabeleçam e avancem. O trabalho terá continuidade nos próximos dias. Novos encontros estão programados para segunda-feira (25/8) às 19 horas, e quarta-feira (27/8) às 14 horas, novamente na Câmara de Vereadores.
Em Teutônia, a conscientização faz parte da rotina na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Leopoldo Klepker, no Bairro Alesgut. Desde o mês de março, cerca de 80 alunos participam do projeto Viva Mulher Viva. A proposta é conscientizar os alunos sobre os direitos das mulheres e a Lei Maria da Penha. O projeto é desenvolvido pelos professores Douglas Eraldo e Lisandra Benini Mariani, com apoio da direção da escola.
Na quarta-feira (19/8), os alunos saíram às ruas com o objetivo de informar e conscientizar a comunidade. Os alunos produziram folders sobre o combate à violência contra a mulher e distribuíram pelas salas do Centro Administrativo.
Também no mês de agosto, a Prefeitura de Paverama inaugurou o Banco Vermelho, símbolo internacional de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher. O ato reuniu representantes do Poder Executivo e Legislativo, da Assistência Social, da Saúde, da segurança pública e da comunidade. A solenidade contou com apresentações culturais do Coral Municipal de Paverama e do projeto Coral Notas do Amanhã, do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS).
Feminicídio mais recente foi registrado na localidade da Seca Baixa, em Imigrante / Crédito: Adobe Stock
Casos na região
Encantado
O ex-padrasto de Alice Nitz (14), Wagno Henika (40), confessou ter matado a adolescente na segunda-feira (17/8), em Encantado. Após esfaquear Alice, ele fugiu e permaneceu escondido em uma área de mata. O suspeito foi localizado pela Brigada Militar na noite de terça-feira (18/8), foi contido e preso. A polícia descartou a hipótese de que o assassinato tenha sido cometido como forma de vingança contra a mãe da vítima. A motivação do crime ainda é apurada.
O município registrou nove casos de lesão corporal e três casos de estupro em 2026. O número de ameaças surpreende. Até julho deste ano, foram 41 registros. Em janeiro, ainda ocorreu um caso de feminicídio tentado.
Imigrante
Edemilson José Pereira Duarte (61) matou a esposa Noelici Magdantz Pereira Duarte (56) com golpes de machado e, em seguida, tirou a própria vida. O casal foi encontrado já sem vida na casa onde residiam, numa propriedade de Seca Baixa, na quarta-feira. Não havia nenhum registro de violência doméstica relacionado ao casal. Dentre todos os regitros relacionados a Lei Maria da Penha, o município tem apenas três casos de lesão corporal.
Santa Clara do Sul
Juliane Cristina Schuster (30) e o ex-marido dela, Fabiano Luís Fleck (37), foram mortos por Elton Leuse (58), em fevereiro deste ano. Elton atropelou Fabiano e o atual namorado de Juliane, Cristiano Douglas Marques (45). Após a colisão, o suspeito desceu do carro e atirou contra Fabiano. Em seguida, invadiu a casa e atirou contra Juliane. Cristiano ficou gravemente ferido, mas sobreviveu. O suspeito foi encontrado morto em frente à sede da Brigada Militar (BM) da cidade. Em Santa Clara do Sul, são 13 registros de ameaças, um estupro e quatro lesões corporais.
Lajeado
Denise Silva de Medeiros (21) foi morta pelo ex-companheiro no dia 5 de julho. O crime ocorreu em um apartamento localizado na região central de Lajeado. O suspeito teria ingressado na residência e efetuado um disparo de arma de fogo na cabeça dela. Após o crime, o homem fugiu do local. Posteriormente, ele se apresentou à polícia.
Estrela
Uma mulher foi atacada por golpes de facão pelo ex-companheiro no dia 19 de julho, no Bairro Cristo Rei. O homem foi preso neste mês e a mulher deixou o município. Em Estrela, já são 42 ameaças, seis estupro e 24 lesões corporais.
Ciclo de violência
Vandir dos Santos (46) morreu durante uma briga na segunda-feira, no Bairro Canabarro, em Teutônia. Os suspeitos se apresentaram à Polícia Civil na quarta-feira. Conforme o delegado Rogério Auler, um dos envolvidos é um adolescente e o outro suspeito tem 22 anos.
Segundo a investigação, Vandir teria entrado no pátio de uma residência por volta das 22h30, aparentemente embriagado e apresentando sinais de confusão mental. Ele foi atendido por um adolescente que se encontrava no local. Durante a conversa, o homem teria sido reconhecido pela moradora e por sua filha como a pessoa que, dias antes, teria importunado uma adolescente em um posto de saúde do município.
Após tomarem conhecimento do episódio, os suspeitos teriam iniciado as agressões contra Vandir. A mãe e a irmã do adolescente teriam tentado interromper as agressões, mas não conseguiram. A investigação segue em andamento para esclarecer as circunstâncias da morte e definir as responsabilidades dos envolvidos.
O caso evidencia uma sequência de violência que iniciou com a importunação de uma adolescente e terminou de forma trágica. O episódio também chama atenção para a necessidade de romper a cadeia de violência por meio dos mecanismos de proteção. Teutônia chegou a 21 casos de lesão corporal, 4 estupros e 33 ameaças.
