O Brasil possui legislação específica, políticas públicas, serviços de proteção e mecanismos jurídicos voltados ao enfrentamento da violência contra as mulheres. Ainda assim, o feminicídio continua em patamares elevados – é o único indicador que sobe. Em 2025, foram registradas 1.571 mortes de mulheres por razões de gênero no país, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Foi o quarto ano consecutivo de crescimento e o maior número da série histórica.
A permanência desses índices levanta uma questão que vai além da responsabilização criminal de quem mata. Por que uma sociedade que reconhece juridicamente a violência contra as mulheres ainda produz tantas mortes?
Para o psicólogo Fabrício de Saibro, uma parte da resposta está justamente na maneira como o feminicídio é compreendido. O crime acontece em uma relação concreta, entre pessoas concretas, mas não pode ser explicado somente pelas características individuais do agressor.
O feminicídio, segundo ele, está relacionado também às normas sociais, às relações de gênero, aos processos de socialização, às concepções de masculinidade e feminilidade e às desigualdades que atravessam a sociedade. “O feminicídio é individual em sua ocorrência, mas social em suas causalidades”, resume.
A observação é importante porque, diante de um feminicídio, é comum a tentativa de encontrar uma explicação exclusivamente individual: o homem era doente, muito ciumento, obcecado, tinha problemas psicológicos ou “perdeu o controle”. Essas características podem estar presentes em determinados casos, mas, para Fabrício, transformá-las em explicação geral significa reduzir um problema social a uma questão de personalidade.
Isso não retira a responsabilidade de quem comete o crime. O agressor continua sendo responsável pelo ato que praticou. A questão é compreender também por que determinadas formas de controle, dominação e violência encontram espaço para surgir, persistir e, em alguns casos, chegar ao extremo.
Uma das perguntas centrais, segundo o psicólogo, é o que significa uma sociedade na qual determinados homens interpretam o fim de um relacionamento como a perda de um direito sobre uma mulher. Quando uma separação é entendida como afronta à autoridade, à posse ou à masculinidade, a autonomia feminina deixa de ser reconhecida. A mulher passa a ser percebida não como sujeito capaz de decidir sobre a própria vida, mas como alguém sobre quem o homem teria direito de exercer controle.
Essa concepção não surge espontaneamente. Ela é influenciada por processos históricos de socialização que associaram masculinidade à autoridade, força, autonomia e capacidade de controle e atribuíram às mulheres papéis relacionados ao cuidado, à submissão e à manutenção dos vínculos.
Isso não significa que masculinidade produza necessariamente violência ou que homens sejam potenciais feminicidas. O ponto é compreender que determinadas formas de exercer a masculinidade, quando associadas a relações desiguais de gênero e à tolerância social ao controle e à dominação, podem favorecer a negação da autonomia das mulheres.
O que os homens têm a ver com isso?
Para a consultora e especialista em masculinidades, Angelita Herrmann, o enfrentamento da violência contra as mulheres não pode ser tratado como uma responsabilidade exclusivamente feminina. Ela defende que os homens precisam reconhecer que também fazem parte da sociedade que produz e reproduz essas normas. Isso significa mais do que condenar um feminicídio depois que ele acontece. Significa questionar comportamentos antes que eles se transformem em violência.
Angelita cita o ciúme possessivo, o controle e outras formas de dominação como comportamentos que precisam ser reconhecidos e enfrentados. Também aponta responsabilidades cotidianas: não permanecer calado diante de piadas e falas misóginas, intervir diante de atitudes violentas, participar de campanhas de conscientização e assumir conjuntamente com as mulheres a educação dos filhos para o respeito.
“O enfrentamento à violência contra a mulher não é uma pauta exclusiva das mulheres. É uma responsabilidade de toda a sociedade, e os homens precisam assumir a sua parte para que a mudança aconteça logo”, afirma.
A proposta não é transformar todos os homens em suspeitos ou atribuir a eles uma culpa coletiva por crimes cometidos por outros homens. É reconhecer que eles podem participar ativamente da prevenção.
