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A violência antes do feminicídio

Um homem que não agride também pode questionar uma piada machista feita por um amigo. Pode não tratar o ciúme como prova de amor. Pode conversar com outro homem que demonstra comportamento de controle. Pode ensinar os filhos a respeitar uma negativa. Pode reconhecer em si mesmo comportamentos que foram socialmente naturalizados. Para Angelita Herrmann, a mudança passa também pela capacidade dos homens de romper padrões aprendidos e buscar novas formas de lidar com emoções, relacionamentos e conflitos.

O psicólogo Fabrício de Saibro chama atenção para outro ponto fundamental: o feminicídio nem sempre surge de forma desconectada do que acontecia anteriormente na relação. Controle, isolamento, ameaças, perseguição, humilhações, violência psicológica e agressões físicas podem fazer parte de uma dinâmica abusiva anterior à morte.

Isso não significa que exista uma sequência obrigatória. Nem todo comportamento de controle levará a uma agressão física e nem toda agressão necessariamente evoluirá para um feminicídio. Mas reconhecer essas manifestações pode ser fundamental para a prevenção. Por isso, Fabrício propõe uma mudança de pergunta. Em vez de olhar somente para o que aconteceu no momento em que uma mulher foi assassinada, é necessário perguntar também: “O que estava acontecendo antes?”.

Se a violência pode ser construída e naturalizada progressivamente dentro de uma relação, a intervenção também precisa acontecer antes que ela alcance a forma mais extrema. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram a dimensão desse desafio. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 aponta crescimento dos feminicídios, das tentativas de feminicídio, da violência psicológica, do stalking e dos descumprimentos de medidas protetivas. Em 2025, os feminicídios cresceram 4% em relação ao ano anterior, chegando a 1.571 vítimas.

Os números indicam que o feminicídio não pode ser analisado isoladamente de outras formas de violência contra as mulheres.

O papel da escola

Em Teutônia, professores que trabalham com estudantes a discussão sobre violência contra as mulheres defendem que a prevenção precisa começar antes da vida adulta. O professor de História Gabriel da Rosa relaciona o feminicídio a uma construção histórica das relações de gênero. Em sua avaliação, diferentes sociedades ensinaram durante séculos que homens deveriam ocupar posições de autoridade e mulheres deveriam assumir papéis subordinados. Para ele, essa construção ajuda a explicar a ideia de posse que ainda pode aparecer em determinados relacionamentos.

O professor afirma que trabalha com os alunos o respeito à autonomia das meninas e insiste em uma orientação simples: quando uma menina diz “não”, a resposta precisa ser respeitada. Para Gabriel, a escola tem papel importante porque muitos homens adultos não tiveram esse tipo de discussão durante a infância. A transformação, portanto, precisa envolver as novas gerações.

A iniciativa desenvolvida na Emef. Leopoldo Klepker, no Bairro Alesgut, segue justamente essa perspectiva. O projeto Viva Mulher Viva envolve estudantes em atividades interdisciplinares sobre violência contra as mulheres, com pesquisas, debates, produção de materiais informativos e ações de conscientização junto à comunidade. A proposta coloca a educação como parte da prevenção. Em vez de esperar que o problema apareça na forma de um crime, trabalha-se para questionar previamente os comportamentos e valores que podem sustentar relações violentas.

O professor Douglas Eraldo dos Santos também considera que, embora existam homens preocupados com o problema, a discussão ainda não é suficientemente forte entre eles. Por isso, defende que meninos e meninas sejam envolvidos desde cedo na reflexão sobre a violência.

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