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Profissionalização transforma paixão pelo esporte em negócio

Bandeiras / Crédito: Thiago Maurique

A experiência no esporte levou pai e filho a transformar a paixão em atuação empresarial voltada à formação de atletas, gestão de clubes e organização de eventos. Natural de Santa Maria, João Bandeira começou no futsal, cursou Educação Física e chegou ao Vale do Taquari onde consolidou a família. Arthur cresceu acompanhando o pai nos ambientes esportivos antes de se formar em Direito e ingressar na gestão do negócio.

A trajetória empreendedora inclui projetos com prefeituras, atuação junto a categorias de base de grandes clubes e a estruturação da Juventus em diferentes frentes. Ao analisar o mercado, os empresários alertam para os riscos de tratar a formação de jovens atletas apenas pela perspectiva passional.

Grupo Popular – De onde vem a família e como começa essa ligação com o esporte?

João Bandeira – Começa há mais de 30 anos. Fiz formação de base no futsal em Santa Maria, onde morava. Tive uma passagem rápida pelo Inter-SM e pelo Riograndense e depois me dediquei mais ao futsal. Isso fez com que eu migrasse para o curso de Educação Física. Em função da profissão da minha esposa, que é dentista, surgiu oportunidade de vir para o Vale do Taquari. Moramos em Lajeado e, no início dos anos 1990, em Estrela. Aos poucos, fui me especializando mais na área do futebol.

GP – Como foi essa formação mais aprofundada na área?

João – Fiz uma pós-graduação em futebol na PUCRS. Depois, trabalhei com uma empresa alemã, a ISMM. No início dos anos 2000, tive a oportunidade de acompanhar categorias de base e competições na Alemanha. Posteriormente, saí da empresa e percebi que, dentro das quadras, havia algo que era paixão, mas que também existia ao redor de tudo aquilo uma oportunidade de negócios. Migrei para essa área no final dos anos 2000. Em 2006, fundei a primeira empresa.

GP – Tua trajetória chegou a alcançar grandes clubes?

João – Em 2012, fui chamado pelos dirigentes da base do Internacional e do Grêmio para uma reunião no CT do Inter, em Alvorada. Eles solicitaram que organizássemos um campeonato estadual das categorias sub-10 a sub-15. Conduzi esse trabalho até 2015. Paralelamente, continuava fazendo a gestão da Juventus e desenvolvendo projetos junto a prefeituras do Vale do Taquari. Levei esse trabalho até 2018, quando o Arthur entrou na história. Ele constituiu uma empresa com outro sócio nosso, o Felipe, de Porto Alegre. Desde então, a organização de eventos ficou mais com ele. Hoje, temos mais de uma dúzia de meninos colocados em clubes pelo país.

GP – Quando o Arthur começa a vivenciar o negócio?

Arthur Lima Bandeira – A minha infância já foi em vestiário. Eu acompanhava meu pai em todos os ambientes que ele frequentava profissionalmente. Isso me deu uma vivência muito cedo do que era essa paixão. Conforme o tempo passou, também fui vivenciar isso jogando na Juventus, nas categorias de base, disputando estaduais e competições sazonais em Santa Catarina e no Uruguai. Participamos também de torneios continentais. Quando chega aquele momento do “ou vai ou racha” para os meninos que geralmente têm alguma projeção, eu tinha certeza absoluta de que não iria. Para mim, então, foi muito fácil saber que teria de estudar.

GP – Como foi essa formação?

Arthur – Fui para Porto Alegre fazer Direito, entrei no CPOR e fiquei três anos como oficial temporário em Ijuí. Retornei para Teutônia para terminar o curso de Direito e via o Felipe e meu pai lidando com a Noligafi, competição que naquele momento tinha 12 clubes no módulo Série A e seis clubes na Série B. Comecei a participar entre 2018 e 2019. Dali em diante, a profissionalização foi acontecendo. Conforme fui terminando a faculdade de Direito, fiz especialização em Direito Esportivo. Fica muito difícil enxergar o futebol apenas de maneira passional quando se percebe todos os trâmites que impulsionam o esporte.

GP – De que forma a Juventus foi estruturada?

João – Somos divididos em departamentos independentes. Hoje, a Juventus tem uma grande divisão: metade é vôlei e metade é futebol. O futebol, por sua vez, é subdividido em departamentos social, que atende gratuitamente alunos do município, formativo e competitivo. Começamos fazendo praticamente tudo sozinhos e hoje temos uma lista extensa de prestadores de serviço. O grande segredo do negócio é quem faz. O que fazer talvez seja possível planejar e executar, mas depende de quem faz.

GP – Quais motivos fazem projetos esportivos fracassarem?

João – Boa parte do que trava o desenvolvimento da maioria dos projetos dessa natureza é a maneira como as pessoas entendem o futebol. Existe aquela ideia de que todo brasileiro entende de futebol, que é um treinador em potencial, que consegue identificar um talento observando um jogo e que teria condições de desenvolver um projeto porque passou a vida inteira jogando futebol. São milhões de clientes em potencial, mas todo projeto que não for extremamente organizado vai ter um voo de galinha

GP – Como esse mecanismo funciona nas categorias de base?

João – Primeiro há o momento da paixão dos pais, que dura em torno de seis anos. É quando o pai gasta o que não tem para ver o filho realizar o sonho que ele não conseguiu, independentemente do que significa virar jogador de futebol. Se estamos falando em ficar rico e se desenvolver financeiramente, não basta ser jogador. É preciso ter bons contratos no mercado. Por mais qualidade que o menino tenha, se em casa tem uma vida com mais conforto do que encontrará no clube, dificilmente vai adiante. Se submeter a baixar seu padrão de vida, deixar de sair com o grupo de amigos que desenvolveu na escola durante toda a infância e trocar isso por um sonho incerto é muito difícil.

GP – De que forma vocês trabalham essa questão?

João – Nós vemos o futebol como um espaço em que seja possível desenvolver um modelo de educação mais integral. Se o menino tiver talento natural e pudermos potencializá-lo, e se a questão extracampo for bem conduzida, ele consegue suportar essa pressão. Mas, se tiver pressão desde pequeno, acontece o voo de galinha. Ele será o craque da base aos 11 ou 12 anos, vai experimentar o gostinho de tirar uma fotografia e ter uma página no Instagram dizendo que vestiu a camisa do clube X ou Y, mas não completará todo o processo. O ciclo se fecha quando ele assina um contrato profissional como jogador de futebol.

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