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Não é uma questão de “natureza masculina”


A discussão proposta pelo psicólogo Fabrício de Saibro e pela consultora Angelita Herrmann também questiona ideia recorrente quando se fala sobre violência praticada por homens: a de que determinados comportamentos seriam simplesmente parte da natureza masculina. Não são!

A masculinidade não é uma característica única e imutável. Existem diferentes maneiras de ser homem, e elas também são influenciadas pela família, pela escola, pelos grupos sociais, pela cultura e pelas instituições. Isso não significa negar diferenças individuais nem afirmar que todos os homens são iguais. Significa reconhecer que comportamentos podem ser aprendidos, reproduzidos e também modificados.

A própria experiência do Programa V – Vozes dos Homens, desenvolvido pelo Instituto Promundo no Rio Grande do Sul, parte dessa perspectiva. A iniciativa trabalha com grupos de homens por meio de rodas de conversa, formação e atividades comunitárias, discutindo masculinidades, emoções, relações de gênero e construção de atitudes mais igualitárias e livres de violência. O projeto também produziu o documentário *Vozes dos Homens*, que já ultrapassou 18 mil visualizações.

A proposta é trabalhar com homens, e não apenas falar sobre eles. Esse aspecto é importante porque reconhecer que determinados padrões de masculinidade também podem produzir sofrimento entre os próprios homens não significa equiparar esse sofrimento à violência sofrida pelas mulheres. O objetivo é ampliar a possibilidade de os homens reconhecerem emoções, buscarem ajuda, desenvolverem formas não violentas de lidar com conflitos e estabelecerem relações baseadas em autonomia e respeito.

Responsabilidade

A experiência de Elisabete Barreto Müller, advogada e ex-delegada, reforça: o homem que não agride não deve assumir uma posição de mero espectador diante da violência contra as mulheres. Ele pode denunciar, intervir e liderar campanhas. Pode rejeitar comportamentos que diminuem as mulheres. Pode interromper piadas e discursos misóginos. Pode educar os filhos para o respeito.

Essa participação é especialmente importante porque a violência de gênero não se manifesta apenas no momento do assassinato. Ela pode aparecer em uma relação na qual o homem decide com quem a mulher pode conversar, monitora seus passos, controla suas amizades, restringe sua autonomia, ameaça diante da possibilidade de separação ou transforma ciúme em justificativa para vigilância.

Nem todo comportamento de controle resultará em feminicídio. Mas normalizar essas práticas dificulta reconhecer situações abusivas e pode atrasar a busca por ajuda. É por isso que a prevenção precisa envolver também aqueles que estão ao redor.

Reconhecer o risco

O enfrentamento ao feminicídio depende de uma rede que envolve saúde, assistência social, segurança pública, Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, educação e serviços especializados. Fabrício chama atenção para a necessidade de observar não apenas a existência formal dessa rede, mas seu funcionamento concreto: se os serviços conseguem reconhecer situações de risco, compartilhar informações e atuar de maneira articulada.

Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública citado pelo psicólogo mostrou que, entre 1.127 feminicídios analisados em 16 unidades da Federação, 13,1% das vítimas possuíam medida protetiva de urgência quando foram mortas. A questão é entender em quais circunstâncias a proteção chega, para quem chega e em quais situações a rede não consegue interromper uma trajetória de violência. A prevenção, portanto, não começa apenas quando uma mulher é assassinada. Ela começa quando os sinais de violência são reconhecidos, quando a vítima consegue acessar proteção e quando homens e mulheres são educados para estabelecer relações nas quais controle e posse não sejam tratados como direitos.

Perguntas a fazer

É preciso olhar para o que acontece antes. O que os homens aprendem sobre poder, autoridade e relacionamentos? O que os amigos toleram entre si? O que as famílias ensinam aos meninos? O que a escola consegue discutir? Quando o ciúme deixa de ser entendido como cuidado e passa a representar controle? Em que momento uma separação deixa de ser reconhecida como uma decisão legítima e passa a ser tratada como uma afronta?

O combate ao feminicídio não é uma tarefa exclusiva das mulheres. É responsabilidade de toda a sociedade. A prevenção começa quando homens deixam de ser apenas espectadores da violência e passam a assumir responsabilidade pela transformação dos ambientes em que ela é naturalizada.

O desafio não é apenas impedir o próximo feminicídio. É reconhecer a violência antes que ela chegue ao ponto em que não há mais possibilidade de intervenção.

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