As lembranças de Ernani Jacó Goergen “Nanico” estão ligadas à família e ao convívio com os irmãos. Oitavo filho de uma família de nove, encontrou um caminho para fazer amizades e participar das comunidades no esporte. A relação com a bola começou jovem e se estendeu por décadas.
A carreira poderia ter seguido outro rumo. Aos 16 anos, recebeu convite para fazer um teste no Guarani de Campinas, quando defendia o Estrela Futebol Clube. A experiência, no entanto, não prosperou.
Ele permaneceu próximo da família e fez sua trajetória no Vale. “Acabei aqui e me acolheram no futebol amador. Nunca fui craque, sempre comprometido nas comunidades. Isso que é o mais importante”, resume.
Em 1976, Nanico participava de competições em Estrela. Na sequência, passou a atuar pelo Flamengo da Linha Schmidt, clube que permaneceu durante 12 anos.
Como os campeonatos municipais ocupavam o primeiro semestre e os regionais o segundo, ele também vestiu as camisas de equipes como Gaúcho, Esperança e Canabarrense.
O apelido fazia referência ao porte físico menor quando jovem, mas isso nunca o impediu de jogar ao lado de atletas mais fortes e experientes.
Pelo contrário, a posição exigia leitura de jogo e liderança. “Jogava na lateral esquerda, de volante ou zagueiro de espera. Mas a adaptação mesmo foi na zaga, para fazer a linha de impedimento e para chamar o time”, explica.
A função acompanhou a responsabilidade de utilizar a braçadeira de capitão. Para ele, assumir a liderança dentro de campo era algo natural em muitos dos clubes pelos quais passou. “Na maioria das vezes, eu era o capitão do time. Se trata de um dom que precisa ser aproveitado”, afirma.
Títulos e memórias
Entre os capítulos especiais está a passagem pelo Brasil de Marques de Souza. Nanico foi campeão Regional nos anos de 1991 e 1992, em equipe que marcou época. Depois, recebeu ingresso vitalício do clube, símbolo da ligação construída com a instituição.
Antes, também viveu a transformação provocada pela emancipação de Teutônia. Em 1982, ainda quando o município pertencia a Estrela, foi campeão Municipal pelo Flamengo.
No ano seguinte, já com a nova realidade, participou da conquista do primeiro título Municipal de Teutônia, também pelo Flamengo – hoje Westfália.
As histórias daquele período não ficaram apenas nos resultados. Os deslocamentos para os jogos também faziam parte da experiência. Nanico lembra das viagens em uma kombi lotada com jogadores que vinham de Estrela para partidas em outras comunidades.
“A gente convivia nas comunidades depois do jogo e era uma coisa bem aberta”, recorda.
A experiência também se estendeu ao futsal. Em competições do Sesi, Goergen integrou times que representaram a região em nível nacional pela Cooperativa Languiru. Uma das lembranças foi a viagem a São Paulo para disputar uma competição do Sesi. “Ficamos em 6º lugar dos 26 estados. Para mim, foi um momento espetacular, fica sempre marcado na cabeça”, destaca.
Não é só jogar
Para Nanico, o esporte nunca foi apenas competição. Ele acredita que o futebol abriu portas, aproximou pessoas e ajudou a construir relações que atravessaram décadas.
Entre seus companheiros de trajetória estão jogadores, treinadores, dirigentes e também pessoas que ocuparam funções de destaque em suas comunidades.
“O futebol é uma vitrine para colocar a tua imagem, negativa ou positiva. Então depende do teu comportamento e sequência”, afirma.
Isso também esteve presente na vida profissional. Formado em Economia pela Univates, Ernani levou conceitos de organização financeira e planejamento para fora dos campos.
Enquanto jogava, utilizava a renda obtida no futebol como complemento e buscava preservar parte dos recursos para o futuro. “Não se pode gastar o que não tem. Primeiro receber para depois gastar em volta”, ensina.
Ele também passou a atuar com negócios relacionados à construção e conta que participou da realização de mais de mil apartamentos em Estrela. Para Nanico, a experiência adquirida no futebol e os relacionamentos construídos nas comunidades ajudaram a abrir portas.
Comprometimento
Nanico faz questão de destacar a disciplina. Muito antes de conceitos como preparação física, alimentação equilibrada e rotina de exercícios ganharem espaço nas discussões esportivas, ele cuidava do corpo e da alimentação.
“Não precisa ser craque, tem que ser comprometido naquilo que faz. No futebol, trabalho, família, se for comprometido, a tendência é de bom resultado”, resume.
Hoje, aos 70 anos, mantém rotina de caminhadas, bicicleta, musculação leve e alimentação feita em casa. Depois de uma lesão no joelho, decidiu trocar o futebol de competição por atividades que considera mais adequadas à idade.
A preocupação com a saúde também aparece para as novas gerações. Nanico defende que os jovens aproveitem o tempo, cuidem do corpo e mantenham relações próximas com família, amigos e comunidade.
“Nunca perdemos tempo com amizades. Ele e a idade passam e não conseguimos voltar. A prioridade no corpo humano é a saúde. Sem ela, não vai a lugar algum”, diz.
Ao olhar para a caminhada, Nanico entende que os troféus são apenas parte da história. O que permanece, segundo ele, são as pessoas encontradas ao longo do caminho, os ensinamentos recebidos e a possibilidade de transmitir essa experiência.
Depois de mais de cinco décadas ligadas ao futebol, ele agora experimenta uma nova perspectiva: a de acompanhar do lado de fora.
Ainda ligado ao esporte, mas com outra relação com a competição, Nanico resume a fase atual com simplicidade. “Minha vida foi só jogar, jogar, jogar e ficar dentro do campo. Agora, quero ficar sentado lá de fora e viver um pouquinho de como são as emoções do jogo”, completa.
