A trajetória de Diogo Dickel no empreendedorismo começou em 2017, quando deixou o mercado de trabalho para fundar a Vincere, empresa voltada à execução de obras corporativas e públicas. Natural de Teutônia, o empresário passou pelo magistério, pela docência e pela engenharia civil antes de iniciar o próprio negócio.
Em entrevista ao programa Inteligência Empresarial da Rádio Popular, Dickel fala sobre os desafios da construção civil, a falta de mão de obra, o uso de tecnologia e a criação da Teutoaço a partir de uma necessidade da Vincere. Também aborda os impactos das enchentes, a importância do associativismo e as perspectivas para as empresas e para o desenvolvimento de Teutônia.
Grupo Popular – Qual a tua trajetória até chegar ao empreendedorismo?
Diogo Dickel – Sou natural de Teutônia, do Bairro Boa Vista. Saí aos 14 anos para estudar em regime de internato em Ivoti. Minha primeira formação foi o magistério. Quando retornei a Teutônia, comecei Ciências Exatas na Univates e troquei no meio do caminho para Engenharia Civil, quando abriu o curso em Lajeado. Empreendo nesse ramo por uma vontade muito grande de construir algo que tenha continuidade. Em 2017, nasceu a Vincere junto com meu sócio.
GP – Você chegou a lecionar?
Dickel – Fui professor do quarto ano por um período bem curto. Depois fui professor na faculdade, em disciplinas de Arquitetura, Engenharia e no curso técnico de Edificações, onde também fui coordenador até 2017. Na faculdade conheci o Eduardo Gravina, meu sócio. Dois anos após a formatura, ele me convidou para iniciar o negócio. Antes disso, trabalhei em empresas da região e em grandes empresas de Porto Alegre.
GP – Como foi essa transição de sair de um emprego garantido e começar a empreender?
Dickel – Fiz isso no mês em que meu filho nasceu, em março de 2017, mesmo mês do registro da Vincere. A vontade de fazer algo por si, pela família e deixar um legado falou mais alto. No início, fiz um treinamento em Porto Alegre e conheci um engenheiro que tinha uma obra em Estrela, mas não tinha equipe. Eu disse que tinha equipe, mas também não tinha. Voltei, contratei meu primeiro mestre de obras, que continua conosco até hoje, e montamos uma equipe com quatro funcionários. Fizemos trabalhos menores e fomos ganhando corpo para obras maiores.
GP – De que forma o setor pode solucionar a falta de mão de obra?
Dickel – Precisamos desenvolver novas soluções, embarcar inteligência artificial e tecnologia. Hoje estamos construindo 56 casas em Lajeado para a Defesa Civil, decorrentes da enchente de 2023. É um processo industrializado com formas metálicas e concreto, onde erguemos as paredes de uma casa por dia com seis ou sete funcionários. Temos cerca de 90 funcionários diretos e baixa rotatividade.
GP – Quais as oportunidades para quem quer ingressar na construção civil?
Dickel – Há muitas oportunidades na área de controle de qualidade, laboratórios e tecnologia no canteiro. Como o interesse jovem no trabalho braçal diminuiu, logo veremos robôs para reboco, pintura e contrapiso. Toda a inovação e inteligência artificial podem ser trazidas para dentro do nosso negócio.
GP – Como a Teutoaço entra nessa trajetória?
Dickel – Nasceu de um problema na pandemia. Nossos fornecedores não conseguiam entregar corte e dobra de aço. Decidimos comprar máquinas para produzir para nós mesmos. Depois investimos em equipamentos mais modernos e, cerca de um ano depois, passamos a atender terceiros. Hoje a Teutoaço atende muito mais clientes externos do que a própria Vincere.
GP – Quais foram as diferenças de gestão entre a construção civil e a indústria?
Dickel – Tivemos que aprender a precificar, entender o momento certo de comprar matéria-prima, as bobinas de aço, acompanhar o mercado de mineração e lidar com os impostos da indústria, que são diferentes da prestação de serviços.
GP – Como foi o impacto do período das enchentes nas obras de vocês?
Dickel – Fomos atingidos em duas obras no Parque do Arroio do Engenho, em Lajeado. Tivemos também um grande desafio logístico na obra do Desco Atacado por conta dos bloqueios entre Teutônia, Arroio do Meio e Lajeado, mas conseguimos entregar no prazo contratado. Também é uma honra participar da construção das casas sociais para remover as famílias das áreas de risco.
GP – Por que a aproximação com a CIC Teutônia e o associativismo?
Dickel – Conforme as empresas cresceram, percebi que meus problemas não eram só meus, mas de todo o setor. A CIC-Teutônia conta com cerca de 630 associados, o que dá uma força muito maior para pautar demandas de infraestrutura, impostos e cursos junto à comunidade e ao Estado. Das empresas associadas, cerca de 87 a 90 são indústrias. Em Teutônia, a indústria representou 46% do valor adicionado fiscal do ICMS em 2025. É o setor que puxa a economia, gera empregos com salários mais altos e movimenta o comércio e os serviços.
GP – Como Teutônia pode se desenvolver ainda mais?
Dickel – Teutônia está fora da área de enchente e conta com infraestrutura e hospital em expansão. Precisamos focar na qualificação da mão de obra jovem e preparar a infraestrutura urbana, escolas, habitação e saúde, para receber novas empresas e trabalhadores, inclusive imigrantes.
GP – Qual o futuro da Vincere, da Teutoaço e de Teutônia?
Dickel – Na Vincere, vamos avançar na construção industrializada e na produção própria de estruturas metálicas. Na Teutoaço, investiremos em automação para produção contínua sem desperdício. Em Teutônia, o desafio é transformar oportunidades em desenvolvimento real. Aos empreendedores, minha dica é: não espere estar tudo pronto para começar. Encare, erre, aprenda e participe do associativismo para fortalecer todo o ecossistema regional.
