A Revista Siticalte 50 anos será lançada neste sábado (17/10), no Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Calçadistas e do Vestuário de Teutônia e região (Siticalte), em dia de festa na sede da entidade, no Bairro Canabarro, em Teutônia.
A publicação traz o entendimento sobre a formação da mão de obra calçadista. Explica porque Teutônia se tornou referência na mão de obra do setor e o papel fundamental do sindicato na qualificação e proteção dos trabalhadores.
A publicação traz a diferenciação do Siticalte de outros sindicatos. Ofereceu mais futuro aos associados ao ir além da proteção e auxílio em conflitos, qualificando também o profissional. Ainda foi além e continua. Hoje oferece além de cursos voltados à própria atividade do calçado, mas de outras áreas, para o bem-estar da família associada.
O material reunido é resultado de uma ampla pesquisa com agentes cruciais na história do calçado. Traz uma série de entrevistas em vídeo também, com websérie publicada nas redes sociais, contando relatos de quem viveu grande parte desta trajetória.
O evento de celebração dos 50 anos do Siticalte inicia às 8h, com café da manhã, seguido de cerimonial, homenageando os fundadores do sindicato, os 93 associados ativos e os matriculados mais antigos. O encerramento está previsto para às 11h.
O nascer da cultura calçadista
Para entender a cultura econômica de uma cidade é preciso investigar a cadeia de eventos que levaram uma instituição sindical aos 50 anos de existência, com amplo respaldo social. A questão mais visível é: por que Teutônia se destaca no setor calçadista? Ao refletir sobre esta pergunta, é preciso fazer um paralelo com a história da própria dinâmica de empregos ocorrida ainda no século XX. A cidade passou a produzir couro de qualidade, tornando-se reconhecida no setor nacional e internacional.
O Curtume Augustin, fundado em 1926, detinha matéria-prima de qualidade e o município oferecia mão de obra dedicada. A expansão do setor, entretanto, ganhou força nos anos 1970. A fusão da Reichert Calçados Ltda. com o Grupo Augustin, em 1973, deu origem à Calçados Augustin Reichert S.A. Impulsionou a chegada de outras empresas, como Reifer, Blip, Paquetá e, décadas depois, se refletiu na instalação da Calçados Beira Rio, Piccadilly e Atlas.
A demanda de trabalhadores disponíveis contribuiu para a formação de uma numerosa categoria profissional. Esse processo levou à criação do Siticalte. Marco crucial que traçou o destino e a vocação de Teutônia para o setor. Isto ainda renderia uma cultura do trabalho e refletiria em diversos empreendimentos, com a mesma aplicação laboral da fábrica calçadista.
Os empregadores, diretores, proprietários das empresas, observaram que havia capacidade de melhoria desta mão de obra, com trabalhadores procurando oportunidades, mas era preciso mais. Muitas famílias se formaram entorno do mundo calçadista e a mistura de famílias de outras regiões do estado deu caldo cultural da disciplina ao setor.
Era preciso qualificar os trabalhadores e facilitar o bem-estar social dos recém-chegados, organizá-los. A classe operária estava se formando na cidade e passou a demonstrar necessidades de planejamento. A grande demanda era o sinal de que a classe trabalhadora ansiava por melhorias e por um futuro melhor para suas famílias.
A força do trabalho, qualificação, cultura e disciplina aplicados fizeram com que o setor calçadista se tornasse uma força econômica, acelerando o crescimento e expansão da cidade. Assim vieram também os primeiros desafios e conflitos. Com isto, a primeira assembleia geral foi convocada, em 16 de outubro de 1976. Foram 402 trabalhadores que participaram naquela ocasião.
Um dos empresários envolvidos na mobilização defendia que os recursos arrecadados pelo imposto sindical permanecessem na região, em vez de serem enviados a Porto Alegre para a federação. A ideia era que o dinheiro pudesse retornar para a própria comunidade. Muito da cultura cooperativista influenciou este ecossistema.
Nesta assembleia foi formada a primeira diretoria, com Ervino José Scheeren como primeiro presidente, em pleno regime militar. O receio era grande, mas a intenção era concreta e contundente fazendo-se necessária para os próprios donos dos meios de produção. E assim foram aprovados o estatuto e a primeira mensalidade, de dez cruzeiros. Dois anos depois, o sindicato participou da negociação do primeiro acordo coletivo.
Sede própria mirava o futuro
Em 1979, o Siticalte construiu a sede própria, com 64 metros quadrados, na Rua Capitão Schneider. O espaço reunia secretaria, sala de reuniões e serviços voltados aos trabalhadores, incluindo atendimento odontológico e médico.
A preocupação com a saúde dos trabalhadores fez com que o sindicato, três anos depois, formasse o primeiro convênio com laboratório para realização de exames dos funcionários. A entidade também expandiu a estrutura em 1985, quando adquiriu área para instalação da subsede em Bom Retiro do Sul.
O atual presidente do Siticalte, Roberto Müller, viveu a maior parte desta trajetória. Dos 50 anos, durante 30 anos está à frente da entidade. Assumiu em um momento de crise, com dívidas. A resiliência dele, forjou o presidente para dias melhores. “A calçados Reifer Ltda investiu muito na formação e qualificação da mão de obra, dando assim um impulso para excelência na qualidade dos calçados produzidos.”
A indústria, por outro lado, reconhecia ali a importância de ter alguém à frente do seu tempo, com capacidade de melhorar o ecossistema de negócio, sendo ao mesmo tempo um balizador dos direitos trabalhistas. A formação de uma classe qualificada, refletiu em outros setores sociais.
