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Grupo Amigos da Terra se despede do Paraguai com malas cheias de experiências

Palestras e explicações sobre o trato com o solo, com uso da palha e sem fertilizante surpreendeu produtores rurais de Teutônia / Crédito: Anderson Lopes

Foi um retorno simbólico entre produtores rurais, vendedores de implementos agrícolas, jornalista e motoristas. Após dias no calor extremo do deserto del Chaco, no norte do Paraguai, o Grupo Amigos da Terra retornou ao sul do Brasil com chuva e temperaturas amenas. Dos 44°C registrados durante a incursão, em 16 horas o grupo se deparou com 13°C e muita umidade no ar.

A última parada foi em um restaurante no Paraná, no sábado (24/10), durante um almoço tardio. As reflexões e os comentários giraram em torno da abundância de recursos hídricos e das paisagens verdes existentes no Rio Grande do Sul. A realidade contrastou com o cenário encontrado no Chaco paraguaio, onde a escassez de água, o solo arenoso e as temperaturas elevadas impõem desafios diários à produção agropecuária.

A forma como a experiência impactou os integrantes pode levar lições ao campo na região de Teutônia. Para o fundador do Grupo Amigos da Terra, Elpídio Driemeyer, o aprendizado sobre o cuidado com o solo começou décadas antes, quando conheceu experiências de plantio sobre a palha e percebeu que a conservação da terra exigia mudanças na maneira de produzir.

História começou com a palha

A trajetória do grupo está ligada à difusão do plantio direto e à busca por alternativas para reduzir a agressão ao solo. Driemeyer recorda que o interesse ganhou força após uma visita à Expointer, quando ele e outros produtores tiveram contato com experiências que mostravam a diferença entre uma área com a terra exposta e outra protegida pela cobertura vegetal.

Na ocasião, o grupo conheceu uma demonstração em que a água que escorria sobre o solo cultivado chegava turva, enquanto, em uma área protegida pela palha, saía limpa. A observação despertou a curiosidade dos agricultores, que passaram a buscar maneiras de reproduzir a técnica nas propriedades.

Em 17 de setembro de 1977, Driemeyer e outros produtores participaram de uma tarde de campo para conhecer o funcionamento de equipamentos adaptados ao plantio sobre a palha. A experiência levou à fabricação de peças para as máquinas e ao início dos testes nas lavouras da região.

Anos depois, com a participação de outros agricultores e do agrônomo Nestor Schneider, ligado à antiga Cooperativa Languiru, uma nova tarde de campo reuniu cerca de 540 pessoas em uma propriedade. O encontro ajudou a ampliar a discussão sobre o manejo conservacionista e contribuiu para a organização do Clube da Terra regional, que abrangia municípios além de Teutônia.

A influência de agricultores pioneiros, como Vicente Paludo, também marcou a trajetória de Driemeyer. A comparação que permaneceu na memória foi a de que uma pessoa não suportaria ficar exposta ao sol durante horas, o solo também sofre quando permanece descoberto e sujeito diretamente à chuva e ao calor.

“Uma lavoura é uma proteção da natureza para fazer sombra ao solo”, resume o fundador, ao defender a manutenção da cobertura vegetal. Para ele, a palha funciona como uma barreira que reduz o impacto da chuva e ajuda a preservar as condições necessárias ao desenvolvimento das plantas.

Apesar dos avanços, Driemeyer avalia que ainda há contradições entre o discurso de preservação e algumas práticas agrícolas. Ele critica a insistência em revolver a terra e aponta a necessidade de ampliar o uso de técnicas que favoreçam a vida no solo. O grupo também desenvolve iniciativas voltadas ao uso de misturas naturais para estimular bactérias e fungos benéficos, buscando alternativas aos produtos químicos empregados no controle de pragas e doenças.

Ao avaliar a incursão ao Paraguai, o produtor destacou a organização encontrada em propriedades submetidas a condições climáticas muito mais severas. “Foi muito maravilhosa essa excursão”, afirma. A experiência, segundo ele, mostrou como os produtores do Chaco precisam aproveitar a água da chuva e armazená-la para garantir a sobrevivência das plantas.

Cooperativismo

Para o gerente administrativo e financeiro da Cooperativa Agroindustrial São Jacó (Cooperagri), Lício Sulzbach, um dos principais aprendizados da viagem foi conhecer como as cooperativas organizam a produção e impulsionam o desenvolvimento das comunidades menonitas no Paraguai.

O grupo visitou estruturas ligadas a cooperativas de leite, grãos e carne, observando um modelo em que as organizações atuam de maneira especializada. Em vez de concentrar diferentes atividades em uma única instituição, como ocorre em alguns modelos cooperativistas brasileiros, é comum que produtores de uma mesma comunidade participem de várias cooperativas, cada uma dedicada a um segmento.

“Uma particularidade que percebi nessas cooperativas é que elas são mais voltadas a segmentos específicos”, explica Sulzbach. Na prática, essa divisão permite concentrar conhecimento, tecnologia e investimentos em cada cadeia produtiva, com estruturas direcionadas às necessidades dos associados.

A organização está ligada à história dos menonitas, grupo religioso e cultural que migrou ao longo de gerações. Originários da Europa, passaram pela Rússia e pelo Canadá antes de estabelecer comunidades no Paraguai. Ao longo do tempo, construíram cooperativas que se tornaram fundamentais para a atividade econômica e para a manutenção das comunidades.

O resultado chama a atenção especialmente no Chaco, uma extensa região que ocupa parcela significativa do território paraguaio, mas concentra uma pequena parte da população. O isolamento geográfico e as condições ambientais tornam a produção mais complexa e exigem planejamento rigoroso.

“Eles aproveitam 100% da água da chuva”, observa o gerente da Cooperagri. Para ele, o desenvolvimento alcançado pelas comunidades demonstra a importância da cooperação diante de dificuldades que dificilmente poderiam ser superadas individualmente.

Lições além fronteiras

De acordo com o produtor Rafael Schäffer, a produção do Paraguai é semelhante, mas ainda superior às da região do Vale do Taquari. “Terras e estradas são melhores, o governo ajuda os produtores, as máquinas são mais baratas, além do custo para a produção que é reduzido. Uma máquina custa mais barato no Paraguai.”

Ele afirma que as terras são mais extensas e que na região gaúcha, tem propriedades de 300 a 400 metros, enquanto no solo paraguaio, o pátio das casas somam 1 hectare só de gramado. “São casas boas, maquinário, estrutura dos galpões e carros são bons e organizados.”

A experiência dos produtores ultrapassou as expectativas, levando lições de resiliência para Teutônia e região, tanto nos recursos hídricos, quanto no trato com a terra e a forma como se supera as dificuldades severas impostas pelo tempo, clima e condições de trabalho.

Produzir no Paraguai tem desafios do clima, porém há pouca interferência do governo no sentido de empecilhos para produção, bem como na oscilação dos preços pagos aos produtores, visto que isto fica a cargo das cooperativas. Estas, por sua vez, não visam o lucro da entidade em si, mas devolvem os valores excedentes aos produtores, que podem reinvestir no negócio.

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