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Jorge de Freitas: “Para ser árbitro, tem que ter muita coragem”

Jorge de Freitas participou do EntreLinhas - Crédito: Lucas Leandro Brune

Jorge de Freitas participou do EntreLinhas - Crédito: Lucas Leandro Brune

Jorge de Freitas “Taxa” construiu sua história no futebol do Vale do Taquari com o apito na mão e ótimas relações fora de campo. Aos 63 anos, acumula mais de quatro décadas na arbitragem e segue ligado ao esporte, agora na coordenação e na organização de competições.

A trajetória começou aos 22 anos, após um convite de Wolmir Pedrazza de Oliveira, então presidente da Liga Lajeadense de Futebol Amador (Lilafa). A arbitragem já fazia parte da família, pois alguns de seus tios também atuavam como árbitros.

Taxa aceitou o desafio e começou em jogos de Veteranos, antes de avançar para partidas de Aspirantes. “Comecei no apito bem cedo. Hoje, sou muito feliz por aquela decisão e pelo que conquistei dentro desses anos no futebol amador”, recorda.

Nascido no Bairro Conservas, em Lajeado, Jorge também trabalha há 30 anos na prefeitura do município, onde atuou em um projeto esportivo voltado ao treinamento de crianças. Seu primeiro campo de trabalho no Vale foi o do Internacional perto de onde cresceu. Com o passar dos anos, se tornou conhecido em diferentes municípios da região.

Uma das marcas da carreira de Taxa é ter apitado sete finais do Campeonato Regional da Aslivata. Entre as lembranças está a decisão de 1999, no estádio do Águia Azul. Na ocasião, substituiu Leandro Vuaden, inicialmente escalado para a partida contra o Floriano.

Depois de vencer o primeiro jogo por 1 a 0, o Floriano perdeu a partida de volta no tempo normal e foi derrotado também na prorrogação. A decisão ficou marcada não apenas pelo resultado, mas pelo clima vivido após o apito. “Nunca me esqueço daquela tarde. Ficaram eu, Moacir Mantovani, meus bandeiras e todo mundo na festa dos dois times, juntos no meio de campo”, conta.

A trajetória, porém, também teve episódios de tensão. Em 2004, também no Estádio Vovô Marcírio, durante uma decisão entre Águia Azul e Juventude da Vila Arlindo, Taxa mostrou cartão amarelo a um jogador aos 38 minutos do segundo tempo e recebeu um soco no rosto. Após ser atendido no vestiário, decidiu retornar para concluir a partida.

Outro episódio ocorreu em 1994, no confronto entre Gaúcho de Teutônia e Brasil de Marques de Souza. Após o terceiro gol do Brasil, já nos acréscimos, houve uma invasão de campo. Taxa conseguiu chegar ao vestiário da equipe visitante, onde recebeu proteção.

Ao longo da carreira, relata ter sofrido seis agressões. Apesar das situações enfrentadas, afirma que nunca permitiu que os episódios interferissem em partidas posteriores. “Não tenho nenhum deles como meu inimigo. Se alguém disser que depois fui apitar algum jogo para prejudicá-los, jamais fiz isso”, garante.

Sem inimizade

Para Taxa, um dos principais aprendizados foi separar a função de árbitro das relações pessoais. Durante os jogos, precisava tomar decisões e manter a autoridade, mesmo diante de reclamações. Depois, procurava conversar com atletas e dirigentes, inclusive sobre lances contestados.

O costume era ir ao vestiário após a partida e, mais tarde, reencontrar os envolvidos para conversar. Dessa forma, buscava evitar que as divergências próprias do futebol se transformassem em inimizades.

Na década de 1990, Taxa chegou a reunir documentos para tentar ingressar na Federação Gaúcha de Futebol. As dificuldades financeiras e as responsabilidades familiares, porém, impediram que avançasse no projeto. Mesmo sem seguir esse caminho, encontrou no futebol amador espaço para desenvolver a vocação e construir uma trajetória reconhecida na região.

Paixão

Taxa já não apita partidas de futebol de campo, mas continua envolvido com a arbitragem. Como presidente da associação, participa da organização de campeonatos de futsal, visita municípios para acompanhar as competições e, em algumas ocasiões, ainda apita um ou dois jogos.

Ao falar sobre a arbitragem atual, critica o que considera falta de renovação e questiona o uso do árbitro de vídeo (VAR). Na avaliação dele, a ferramenta diminuiu a autoridade de quem está em campo e nem sempre intervém nos lances controversos.

Fora do futebol, a família acompanhou essa trajetória. Jorge se casou com Miriam aos 22 anos, e os dois construíram uma vida compartilhada com os compromissos da arbitragem, que frequentemente ocupavam os fins de semana. O casal tem um filho, Renan, hoje com 36 anos.

Ao olhar para trás, Taxa não ignora as dificuldades nem os erros, mas prefere avaliar a trajetória pelo conjunto de experiências acumuladas. “Sou uma pessoa humilde, de uma família muito pobre. Tive meus erros, mas tive muito mais acertos. Isso me traz muita alegria”, resume.

Depois de mais de 40 anos no futebol, sete decisões do Regional e episódios que testaram sua coragem, Taxa segue ligado ao esporte que marcou sua vida. Já não precisa acompanhar os 90 minutos com o apito na mão, mas continua presente nos campeonatos, nas conversas e nos reencontros que fazem parte do futebol amador.

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