‘Flurona’: quando gripe e covid atacam ao mesmo tempo

Meio de transmissão parecido facilita a ocorrência simultânea de influenza e coronavírus, mas infecção dupla não é considerada uma nova doença

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A junção da epidemia de gripe H3N2 com a pandemia de covid-19 está resultando em situações onde as duas doenças ocorrem ao mesmo tempo. A coinfecção já tem até apelido, “flurona”, mistura de coronavírus com flu (gripe em inglês). Centenas de casos já foram relatados em diferentes cidades brasileiras.

Em primeiro lugar, é importante destacar que não se trata de uma doença nova, apesar de o termo passar essa impressão. Pegar mais de um vírus e bactérias é comum. “Esse é um fenômeno antigo, que pode ocorrer com outros vírus respiratórios além do influenza e do Sars-Cov-2 (vírus da covid-19), já que eles são transmitidos de forma muito semelhante”, disse em comunicado a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Além do contágio ser parecido – pelo contato com gotículas respiratórias e superfícies contaminadas – gripe e covid se juntaram agora por motivos extras. Houve uma baixa adesão à vacinação contra o influenza ao longo de 2021 e um relaxamento das medidas de distanciamento nos últimos meses, que coincidiu com a chegada de uma variante mais transmissível do coronavírus, a Ômicron, abrindo espaço para a disseminação das duas doenças.

Com todas essas possibilidades no ar, pesa ainda o fato de que, quando o indivíduo desprotegido pega um vírus, seu corpo fica debilitado. Portanto, mais vulnerável a outros micro-organismos. “A segunda infecção pode ocorrer durante o período de incubação da primeira, quando ainda não há sintomas, por isso as pessoas não percebem”, alerta a OMS.

Ainda não há informações suficientes para afirmar se os casos de coinfecção estão crescendo pelo país, e é importante haver testes disponíveis para levantar esses dados, defendem os especialistas. Outro ponto que dificulta a vigilância adequada é o acesso aos números do Ministério da Saúde. Desde dezembro, o sistema sofre com instabilidade após um apagão generalizado.

Sintomas e diagnóstico

Só fazendo um teste para ter certeza de que há uma coinfecção. Há possibilidade de realizar o exame RT-PCR ou antígeno para cada vírus, ou pagar por uma análise mais completa, que distingue quatro infecções virais.

No mais, poucas pistas nos sintomas podem levantar a suspeita. “Quando, por exemplo, ocorrer uma febre muito alta nos primeiros dias, que é mais característico de influenza, e haver uma piora inesperada depois, apontando para a covid”, demonstra um relatório da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

Estudos tentam diferenciar os sinais das duas doenças, mas as mutações dos vírus complicam o cenário. “Depende de cada indivíduo também. A covid-19 causa preocupação quando há febre e baixa saturação, mas há casos de Ômicron que atacam mais o aparelho digestivo, o que também pode ocorrer com a infecção pelo influenza”, pontua a SBI.

Para complicar, um material recém-publicado no The British Medical Journal pelo governo do Reino Unido aponta coriza, dor de cabeça e fadiga como os sinais mais prevalentes da nova variante – queixas bastante comuns em outras infecções virais.

Ou seja, na dúvida, é importante buscar testes e atendimento médico quando há indícios de um quadro respiratório agudo: febre, calafrios, dor de garganta, dor de cabeça, tosse, coriza, distúrbios de olfato ou paladar. Até que a diferenciação seja feita, o quadro é tratado como síndrome gripal, termo genérico que engloba essas doenças.

Como fica o tratamento?

Se os sintomas e a forma de transmissão são semelhantes, cada doença tem protocolos diferentes – daí vem a relevância dos testes, como já dito. “Muda a forma como evolui, os tratamentos possíveis e os protocolos de isolamento, por isso é importante saber com que vírus estamos lidando”, reforça a SBI.

O coronavírus ainda não possui um antiviral específico aprovado no país, mas há medicamentos que podem servir para alguns casos graves. Já a gripe tem o oseltamivir, antiviral que atua contra o influenza, mas que também possui um protocolo bastante específico de uso e não é uma bala de prata. O protocolo de isolamento é de sete dias quando a infecção é pelo influenza e 14 dias se for covid.

A coinfecção pode ser mais grave?

Ainda antes da vacina contra a Covid ser realidade, um estudo inglês fez um alerta de que infectados pelo coronavírus teriam o dobro de risco de morrer se contraírem junto a gripe. Com a imunização, contudo, a figura muda.

“Sabemos que as vacinas estão cumprindo bem o papel delas, que é evitar casos graves e mortes. Uma pessoa com coinfecção pode ter sintomas mais leves de covid porque está protegida, mas pode sentir mais os danos da influenza. De qualquer modo, duas infecções podem sobrecarregar o organismo”, avalia a SBI.

A SBI lembra ainda que os grupos de risco para cada doença precisam de atenção extra. Para covid, são os idosos. Para influenza, crianças menores de 5 anos, e também a terceira idade. Pessoas com comorbidades e imunossuprimidos estão mais vulneráveis nos dois casos.

Ainda não há estudos suficientes para saber se um jovem com bom estado de saúde pode ter o quadro agravado pela coinfecção.

Como se proteger?

Com a chegada da Ômicron, o ideal é garantir o esquema vacinal completo da covid, que inclui a terceira dose. Já que se sabe que só as três doses podem dar uma proteção mais eficaz contra a nova variante.

A vacina da influenza está sendo aplicada em algumas regiões, mesmo não contendo a nova cepa da H3N2. Vale tomar ela também. “Há estudos apontando que a variante de Hong Kong, presente no imunizante, é bem distante da Darwin, causadora dos surtos atuais. Mas, como estamos vivendo uma epidemia, é recomendado que se tome essa dose para estar ao menos parcialmente protegido”, esclarece em nota a Sociedade Brasileira de Imunizações (SMIm).

Uma vacina atualizada, contendo a nova cepa, deverá chegar aos postos em meados de março. É recomendado um mês de intervalo entre as duas injeções, então dá para se vacinar com a dose disponível agora, entre janeiro e fevereiro.

É bom lembrar que as vacinas integram um conjunto de outras medidas protetivas. Nesse cenário de alta circulação de dois vírus, usar máscara, evitar aglomerações e lavar as mãos com frequência ainda são prioridades, reforçam os especialistas.

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