
O Dossiê Assassinatos e Violências contra Travestis e Transexuais Brasileiras 2025, divulgado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) em janeiro, aponta redução de 34,4% nos assassinatos de mulheres trans no Brasil.
No entanto, a queda não representa avanço estrutural, mas um cenário marcado por subnotificação, retração da cobertura midiática, medo de circulação em espaços públicos e ausência de políticas públicas específicas. O perfil das vítimas segue praticamente inalterado, sendo a maioria jovens trans negras e empobrecidas, assassinadas em vias públicas e com requintes de crueldade.
Embora o número de homicídios seja menor no Rio Grande do Sul em comparação a outras regiões, o estado lidera pelo segundo ano consecutivo os registros de crimes de injúria e agressões contra a população LGBTQIAPN+.
Conforme a Antra, cerca de 90% da população trans recorre à prostituição em algum momento da vida, em razão da exclusão do mercado formal, da evasão escolar precoce e da transfobia nos processos de recrutamento. É nesse cenário que o acesso ao mercado de trabalho passa a ser mais do que uma conquista individual: torna-se estratégia coletiva de sobrevivência.
O acesso ao emprego formal representa mais do que inserção econômica para mulheres trans: é um fator direto de proteção. A formalização reduz a exposição à violência, ao afastar da informalidade compulsória, amplia o acesso a serviços de saúde e assegura estabilidade emocional e social, elementos fundamentais para construir trajetórias mais seguras e duradouras.
A conquista de chegar aos 60
Viver e envelhecer sendo uma mulher trans no interior do estado carrega desafios específicos. Dandara Rodrigues destaca que a violência nem sempre se manifesta de forma explícita, mas se infiltra no cotidiano, na negação de oportunidades, no isolamento social e na dificuldade de acesso a trabalho e saúde.
“No interior, muitas vezes tu não apanha na rua, mas não consegue emprego, não consegue alugar uma casa, não consegue ser vista como cidadã”, relata. Nesse contexto, alcançar a maturidade se torna um feito coletivo.
“Quando chego aos 44 anos, não chego sozinha. Chego com todas que ficaram pelo caminho”, diz. A fala carrega a memória das que não sobreviveram e reforça a responsabilidade do poder público em transformar essa exceção em regra. “Agora que a gente está vivendo mais, o Estado precisa aprender a cuidar da gente”, completa ela.
Mas é ao falar sobre envelhecimento que a voz de Dandara ganha um peso histórico. Para ela, estar viva aos 44 anos já é, por si só, um ato político. “Pela primeira vez na história, estamos vendo a comunidade trans envelhecer”, afirma.
O dado carrega uma ruptura brutal com o passado. Durante décadas, a expectativa de vida de mulheres trans e travestis no Brasil não ultrapassava os 35 anos, marcada pela violência, exclusão e assassinatos. “Essas mulheres não chegavam à velhice. Elas eram assassinadas antes disso. Hoje, a gente começa a ver o primeiro grupo de mulheres trans chegando aos 60 anos”, diz Dandara.
O avanço, no entanto, traz novos desafios. “Agora o nosso trabalho é pressionar o poder público, o mercado de trabalho e a sociedade para garantir qualidade de vida nesse envelhecimento. Porque isso é uma conquista coletiva, não individual”, explica.
Para Dandara, não basta sobreviver, é preciso envelhecer com dignidade, acesso a políticas públicas e reconhecimento social. Ela cita exemplos simbólicos, como Glória Crystal, mulher travesti com mais de 60 anos, que ocupa espaço institucional no governo do Estado. “Isso muda tudo. Não é sobre mim. É sobre mostrar que a comunidade pode, sim, ter futuro”, afirma.
Narrativa histórica rompida
Embora os dados nacionais apontem a expectativa média de vida da população trans em 35 anos, elatos locais indicam que começa a se formar uma geração que rompe esse limite histórico. Ao atuar em marketing, propaganda e beleza, Alessia Fonseca rompe com a narrativa histórica que empurrou mulheres trans exclusivamente à informalidade e à marginalização.
Para ela, que é candidata ao Musa do Brasileirão, sua atuação é uma ferramenta de reposicionamento simbólico e profissional. Ela vê na experiência um movimento ainda incipiente, mas simbólico, observado em regiões como o Vale do Taquari.
Conforme Alessia, o primeiro grande desafio é a jornada de autodescoberta e aceitação de uma pessoa transgênero. Ela destaca a complexidade de definir a própria identidade em um mundo com poucas oportunidades e descreve o percurso pessoal que partiu da homossexualidade e do crossdressing até a compreensão final da transsexualidade.
“O conselho que eu daria hoje seria não abaixar a cabeça e não desistir dos sonhos. Sei que é difícil, que é um caminho bem complicado, delicado, que o preconceito está aí, mas não dá para descer do salto simplesmente por existirem pessoas incompletas, mal-amadas e, de modo geral, infelizes. Já que a nossa felicidade atrapalha e muito a vida de pessoas que têm esse tipo de preconceito”, aponta.
Entrevista com a candidata a Musa do Brasileirão, Alessia Fonseca:
Folha Popular – A sua trajetória profissional multifacetada é, de certa forma, um exemplo vivo de conquista. Como você enxerga a relação entre oportunidade, visibilidade e longevidade para a população trans?
Alessia – O acesso às oportunidades reais de trabalho muda trajetórias, amplia horizontes e, principalmente, devolve dignidade. Quando pessoas trans são vistas apenas por estigmas, a exclusão se perpetua, mas quando somos vistas por nossa capacidade, talento e profissionalismo, a longevidade se torna possível. A visibilidade, quando vem acompanhada de responsabilidade, ajuda a abrir caminhos. Ela normaliza a nossa presença em espaços onde antes não éramos imaginadas e mostra que existem alternativas, escolhas e futuros possíveis. A minha trajetória não é sobre exceção, é sobre o que acontece quando há oportunidade. Trabalho, reconhecimento e pertencimento salvam vidas, afastam vulnerabilidades impostas e constroem perspectivas mais longas e saudáveis.
FP – Além da estética e da representação do clube, o que essa candidatura a Musa do Brasileirão significa para você?
Alessia – Para mim, essa candidatura vai muito além da estética ou da representação do clube. Como mulher trans, é sobre ocupar espaços com confiança, sem pedir licença, mostrando que a feminilidade pode ser força, identidade e voz. Como profissional, é uma extensão do meu trabalho com imagem, comunicação e autoestima. Eu acredito no poder da presença, da narrativa e da forma como nos apresentamos ao mundo. Estar no Musa do Brasileirão é unir paixão por quem eu me tornei, criatividade e propósito, transformando visibilidade em mensagem.
FP – Você atua em áreas diversas. Como é conciliar essas facetas em um mercado que muitas vezes tenta limitar mulheres trans a uma única narrativa?
Alessia: É um desafio, mas também, um posicionamento. O mercado ainda tenta nos simplificar, como se tivéssemos que caber em uma única caixa. Eu escolhi não aceitar isso. Marketing, propaganda e beleza são extensões da mesma visão: comunicação e impacto. Existir de forma multifacetada, sendo uma mulher trans, é resistência e profissionalismo. Nossa pluralidade não é obstáculo, é diferencial.

