Convento São Boaventura: Missão comunitária segue a vida simples por trás do castelo de pedras

Nos fundos do convento franciscano São Boaventura há o trabalho diário que construiu a história de fé na comunidade. Frei Milton conta a trajetória na agricultura familiar e no Movimento Sem Terra.

94
Para frei Milton, o espetáculo pode mobilizar as pessoas emocionalmente e atiçar as pessoas para seguirem Jesus Cristo como um caminho / Crédito: Anderson Lopes

Entre paredões de pedra e silêncio monástico, o Convento São Boaventura se transforma mais uma vez em palco da Paixão de Cristo, em Imigrante. A calmaria do distrito de Daltro Filho dá lugar à movimentação das equipes técnicas. Em meio a isso estão os freis que seguem seu cotidiano de trabalho, tanto nos afazeres do convento quanto nas atividades da comunidade.

Enquanto na frente do convento ocorrem as últimas instalações dos grids e torres de iluminação, que rompem o silêncio com a montagem dos metais, o frei Milton Backes (55), retorna da lida na horta. Dois cães de porte imponente e calmos o acompanham. Ele havia se sentido tonto, então decidiu sentar à sombra e aferir a pressão. Os animais se deitam ao lado, fazendo companhia.

A presença tranquila dos cães, que são parte da rotina do convento, contrasta com a agitação que se aproxima. Mas tanto a paz dos dias comuns quanto o movimento do espetáculo são faces complementares da mesma missão.

Por trás do espetáculo que movimenta a região há 20 anos existe uma história de fé, trabalho comunitário e luta diária. O religioso detalha como a trajetória pessoal, marcada pela agricultura familiar e o contato com o Movimento Sem Terra, nos anos 80, se entrelaça com a missão franciscana e a necessidade pragmática de realizar grandes eventos para garantir a sustentabilidade da instituição.

O espetáculo da Paixão de Cristo, em frente ao cenário imponente do Convento São Boaventura, não é apenas um momento de devoção e arte. Para Frei Milton, que retornou a Imigrante em novembro de 2024 após uma passagem pelo Rio de Janeiro, o evento cumpre uma função vital para a existência do espaço.

“Precisamos manter o convento, e essa é uma forma de atrair pessoas e criar um movimento econômico que ajude a sustentar”, conta. Sua fala revela o equilíbrio delicado entre a vocação contemplativa e a realidade administrativa. A movimentação intensa que toma conta do convento durante a Paixão é, na verdade, a garantia de que o local possa voltar a ser o que é em sua essência: um espaço de silêncio, oração e retiro nos outros meses do ano.

Das lutas da terra à vocação religiosa

A decisão de Frei Milton de ingressar na ordem franciscana não surgiu no vazio. Ela foi moldada em meio à terra e à luta por ela. Natural de uma família de pequenos agricultores, sua infância e juventude foram marcadas pela forte presença da igreja e por um contexto social efervescente.

“Quando eu era menor de idade ainda, a gente era assíduo na vida da igreja enquanto família. Na nossa comunidade existia também uma motivação vocacional”, relembra. O ponto de virada veio ao participar de uma ordenação de padre: “Era um frade. Isso chamou atenção”.

Mas foi a realidade dura da agricultura familiar e o envolvimento de seus pais com o MST nos anos 80 que selaram a identificação com a ordem. “Influenciou bastante, porque eram os frades que acompanharam. Inclusive o frei Sérgio Görgen [falecido em 3 de fevereiro] foi sepultado aqui”, comenta. A memória do finado frei, que o acompanhou desde aqueles dias de luta, reforça o laço histórico entre a ordem franciscana e as causas sociais do campo no Sul do país.

Guardiões de grande porte

O Convento São Boaventura não é apenas um palco. Ele é, em si, um personagem histórico. Construído por frades holandeses a partir da década de 1940, sua arquitetura foi inspirada em castelos e mosteiros medievais da Europa.

A escolha do local não foi por acaso. “Foi escolhido por vários fatores, entre eles, a própria matéria-prima, a pedra grés. A maioria dessas pedras foram extraídas daqui, e ele está alicerçado sobre a própria rocha”, detalha frei Milton. As obras se estenderam por 12 anos e foram concluídas em 1952, com a construção da capela.

O frade faz questão de desmistificar lendas que circulam sobre a construção. “O bonito dessa obra é que os frades também ajudaram a trabalhar, e os contratados para a construção eram pessoas da comunidade. Ao mesmo tempo em que o convento era erguido, se construiu a igreja matriz. Aqui os frades pagavam, lá, era serviço voluntário. Muitos trabalharam como serviço voluntário na construção da igreja matriz”, ressalta.

Real missão da espiritualidade

Se a Paixão de Cristo atrai multidões e emociona, frei Milton faz questão de colocar o evento em perspectiva. Para ele, o risco de reduzir a fé a um grande espetáculo é real, mas a verdadeira mudança de vida exige mais do que uma noite de comoção.

“O espetáculo pode mobilizar as pessoas emocionalmente e atiçar a curiosidade para voltar a seguir Jesus Cristo como um caminho. Mas isso não é automático, porque a vida cristã é ligada a uma comunidade”, alerta o religioso.

Frei Milton estabelece um paralelo entre o caminho encenado por Jesus e o que cada fiel é chamado a percorrer. “Não basta nós acompanharmos o espetáculo da encenação de Jesus se não nos engajarmos com o cotidiano da comunidade e fazermos, no dia a dia, o seu caminho de salvação”, conclui.

- publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Escreva seu comentário!
Digite seu nome aqui