Poço das Antas é palco de um empreendimento que une turismo rural, afroturismo e a produção de vinhos premiados. Fundado pela advogada Miriam Santiago Krindges, o Sítio Rosa do Vale ganhou projeção nacional com o “Samba da Uva” e conquista as gôndolas de grandes varejistas do país.
Localizado em Boa Vista, o Sítio é o resultado de uma transição de carreira iniciada em 2022. Miriam atuava como advogada em seu próprio escritório em Teutônia e decidiu mudar o rumo de sua carreira após a maternidade. O desejo de acompanhar de perto o crescimento da filha, Dandara, a motivou a investir na propriedade da família e a criar um negócio que valorizasse a produção familiar e o potencial turístico do Vale do Taquari.
Resiliência e inovação
O caminho para o sucesso não foi isento de obstáculos. Miriam relata que, inicialmente, o plano era focar na industrialização de geleias, mas a negação de um financiamento para a construção de um prédio mudou os planos. Em vez de paralisar, Miriam e o marido, Irani, decidiram abrir as portas para o turismo. “O desafio te tira do lugar de conforto e te faz ter ideias que você não teria se tudo tivesse dado certo”, defende. Foi da necessidade de gerar renda e visibilidade para a marca que nasceu o Samba da Uva, uma experiência de enoturismo na qual os visitantes pisam nas uvas ao som do samba. A iniciativa rendeu ao Sítio o título de vinícola oficial da Gramado Summit e participações em programas da Rede Globo.
Legado e expansão
O empreendimento é movido pelo exemplo que Miriam deseja deixar para sua primogênita: “Minha filha foi a inspiração para o surgimento do Sítio Rosa do Vale”. Essa motivação trouxe a força necessária para enfrentar um mercado tradicionalmente dominado por famílias de longa data na vitivinicultura. Em apenas 3 anos, a vinícola familiar conseguiu acessar grandes players do mercado, tornando-se fornecedora de grupos como o Carrefour. Além dos vinhos e espumantes premiados, o Sítio aposta em sabores autênticos, como o suco de bergamota, uma fruta que Miriam, natural de São Paulo, aprendeu a valorizar no Rio Grande do Sul.
Afroturismo
Um dos pilares que diferencia o Sítio Rosa do Vale é o resgate histórico. Miriam é reconhecida como a primeira mulher negra a ser proprietária de uma vinícola no Brasil, o que a levou a Brasília para discutir a consolidação do afroturismo. Através de pesquisas, ela descobriu conexões com a civilização quemética (antigo Egito) e conclui que o vinho é uma tecnologia ancestral africana. “Você está trazendo a história dos queméticos”, ouviu de uma historiadora ao apresentar a experiência de pisar na uva com roda de samba. Isso a motivou a se apropriar desse conhecimento para transmiti-lo aos turistas.
Valores familiares
Apesar da rápida expansão, Miriam mantém o foco no que considera essencial: “negócios são só negócios. Agora, família é o nosso bem mais precioso.” Ela utiliza a filosofia de que muita água ainda vai passar embaixo da ponte para manter a serenidade diante das crises financeiras ou safras difíceis que afetam os agricultores gaúchos. A rotina no Sítio, que inclui passeios de trator e piqueniques, é conduzida pessoalmente pela família, garantindo que o visitante sinta a essência do modo de vida local. Para Miriam, o trabalho é um propósito maior: “Se estou aqui fazendo uma coisa que eu não escolhi, que eu fui levada pela vida, Deus não ia me abandonar”, conclui.

