Economia deve crescer em ritmo mais moderado em 2026

Apesar dos juros elevados e das incertezas do ano eleitoral, Codevat indica continuidade da recuperação econômica na região. Entidades setoriais apontam expectativas moderadas no cenário nacional para o próximo ano

105
Na Indústria, CNI projeta desempenho mais fraco tanto em 2025 quanto em 2026 / Crédito: Anderson Lopes

Após um ano de desempenho positivo, a economia brasileira deve crescer novamente em 2026, porém, em ritmo moderado. O diagnóstico consta em relatórios e projeções divulgados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

O Vale do Taquari encerra o ano com indicadores positivos no mercado de trabalho e sinais consistentes de retomada da atividade produtiva. Economista e presidente do Conselho de Desenvolvimento do Vale do Taquari (Codevat), Cintia Agostini avalia que a região conseguiu recuperar sua dinâmica econômica de forma mais rápida do que outras áreas do Rio Grande do Sul, impulsionada por investimentos públicos e privados realizados após as enchentes.

De acordo com a CNI, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro deve encerrar 2025 com crescimento de 2,5%. Para 2026, a confederação projeta alta de 1,8%, devido ao impacto direto da política monetária restritiva que elevou os juros. A Confederação estima que a taxa Selic encerrará 2026 em 12%, com juros reais em torno de 7,9%, patamar que segue inibindo investimentos produtivos.

Apesar do cenário mais restritivo, a avaliação do Codevat é de que o Vale do Taquari seguirá em processo de retomada, sustentado pela base produtiva diversificada, investimentos realizados e novos movimentos previstos, como concessões na área de infraestrutura.

“Há um caminho de recuperação em andamento. O desafio agora é transformar esse movimento em crescimento sustentável, mesmo com um ambiente macroeconômico desafiador”, aponta Cintia.

Segundo ela, um dos principais destaques da região é o desempenho do mercado de trabalho. Enquanto a taxa média de desemprego no Brasil gira em torno de 5,5% a 5,6%, o Vale do Taquari apresenta um índice significativamente menor, estimado em cerca de 3%. “A nossa taxa de desemprego é inferior à média brasileira, o que demonstra uma condição diferenciada da região”, afirma.

Conforme ela, ainda não há dados consolidados sobre o crescimento da economia regional nos últimos 2 anos. Para o 2026, ela acredita em um desempenho alinhado ao cenário nacional, com alta em torno de 2%.

“O volume de recursos direcionados à região nos anos recentes não tem precedentes recentes e continuará a repercutir na economia regional por mais algum tempo, ainda que em intensidade decrescente”, destaca a economista.


Cíntia Agostini é economista e presidente do Codevat / Crédito: Divulgação

Pontos de atenção

Apesar do avanço, a presidente do Codevat ressalta a permanência de desafios estruturais importantes. Segundo Cintia, problemas habitacionais e de infraestrutura ainda exigem atenção, apesar dos avanços significativos em um curto período. Além disso, o fato de 2026 ser um ano eleitoral pode impactar decisões de investimento e a continuidade de políticas públicas.

Entre os fatores que mais preocupam está a combinação entre inflação elevada e juros altos. A economista lembra que a inflação permanece próxima ao teto da meta, enquanto o Brasil opera com uma das maiores taxas de juros reais do mundo. “Isso encarece o crédito, dificulta investimentos e beneficia o sistema financeiro, ao mesmo tempo em que freia a economia”, analisa.

Outro ponto de atenção é o aumento do endividamento das famílias. Parte desse movimento está relacionada aos recursos recebidos no fim de 2024 para enfrentamento dos impactos das enchentes, que aqueceram o consumo no curto prazo, mas com efeitos que não se sustentam ao longo do tempo.

“Em 2025, observamos um crescimento do endividamento das famílias, impulsionado também por programas de crédito que nem sempre são acompanhados de capacidade de pagamento”, observa Cintia.

No cenário externo, o impacto das tarifas internacionais é considerado limitado no Vale do Taquari, já que a região não tem forte dependência das exportações para os Estados Unidos. Alguns setores específicos sentiram os efeitos, como a indústria de transformação e o setor calçadista, mas buscam novos mercados para reduzir a dependência e compensar perdas.


Investimentos públicos e privados no pós-enchente, além de um mercado de trabalho aquecido, sustentam a previsão de crescimento regional / Crédito: Vitor Kalsing – Divulgação

Agronegócio

No cenário nacional, a CNA evidencia o papel central do agronegócio na melhora de indicadores econômicos em 2025, incluindo o crescimento do PIB e a redução da inflação. A confederação estima que o PIB do agronegócio tenha crescido 9,6% no ano, alcançando R$ 3,13 trilhões. O resultado é atribuído ao bom desempenho das lavouras de grãos e à recuperação da pecuária.

Para 2026, a CNA projeta crescimento de cerca de 1% para o setor, em um cenário considerado mais desafiador. De acordo com o presidente da entidade, João Martins, sem a repetição do bom desempenho de 2025, existe o risco de descumprimento da meta de inflação. “O agronegócio foi fundamental para conter a inflação em 2025”, aponta ele.

A CNA também chama atenção para o aumento do endividamento no campo. Em outubro, a inadimplência do crédito rural com taxas de mercado chegou a 11,4%, a maior desde 2011. Entre os fatores apontados estão problemas climáticos recorrentes, queda nos preços das commodities, alta nos custos de produção, juros elevados e a baixa cobertura do seguro rural.

Após impulsionar crescimento do PIB em 2025, agronegócio deve crescer apenas 1% em 2026 / Crédito: Thiago Maurique

Comércio e serviços

No setor de serviços, a CNC estima que o volume de atividades fechará 2025 com crescimento de 3,5%. Os resultados estão apoiados no dinamismo do mercado interno e na demanda consistente por segmentos como transporte, turismo e tecnologia. Para 2026, a projeção é de alta de 1,7%, o que reflete em um ambiente de menor tração econômica, mas ainda sustentado por fundamentos como renda em crescimento e ocupação elevada.

Presidente do Sistema CNC Sesc Senac, José Roberto Tadros destacou a resiliência do setor diante do cenário macroeconômico. Segundo ele, apesar dos desafios impostos pelo cenário fiscal, pela política monetária ainda restritiva e pelas incertezas internacionais, os serviços seguem apresentando um desempenho firme e sustentado. “O setor está apoiado no dinamismo do mercado de trabalho, no crescimento da renda real e na confiança dos consumidores”, afirmou Tadros.


Após crescimento de 3,5% em 2025, setor de comércio e serviços deve ter alta comedida de 1m7% em 2026 / Crédito: Thiago Maurique

Indústria

Na indústria, a CNI projeta desempenho mais fraco, tanto em 2025 quanto em 2026. Após crescer 3,3% em 2024, o PIB industrial deve avançar 1,8% em 2025, com desaceleração mais intensa nos segmentos mais sensíveis aos juros, como a indústria de transformação e a construção. Para 2026, a expectativa é de crescimento de apenas 0,5% na indústria de transformação.

Apesar do cenário adverso, a CNI projeta desempenho mais favorável para alguns segmentos em 2026. A construção civil deve crescer 2,5%, impulsionada por mudanças no crédito imobiliário e pela ampliação de programas habitacionais. A indústria extrativa também deve registrar crescimento, sustentada pela produção de petróleo e minério de ferro.

De acordo com o diretor de Economia da CNI, Mario Sergio Telles, as novas regras do imposto de renda podem ajudar o desempenho no próximo ano. “A isenção do Imposto de Renda para pessoas que ganham até R$ 5 mil e a desoneração do IR para aqueles que recebem entre R$ 5 mil e R$ 7,5 mil vão aumentar a renda disponível para parte da população, estimulando o consumo e a atividade econômica”, avalia.

- publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Escreva seu comentário!
Digite seu nome aqui