Estrutura diversificada garante mais estabilidade à região

Economista Fernanda Sindelar aponta tendências na área para 2026 e destaca características regionais

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Fernanda Sindelar é economista e professora da Univates / Crédito: Thiago Maurique

O desempenho da economia brasileira em 2025 surpreendeu positivamente, mas o cenário projetado para 2026 exige cautela. A avaliação é da economista Fernanda Cristina Wiebusch Sindelar, que analisa fatores internos e externos que influenciam o crescimento do país e do Vale do Taquari.

Segundo ela, o contexto internacional segue instável, enquanto entraves estruturais limitam uma expansão econômica mais consistente. Entre os fatores externos, Fernanda destaca os efeitos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos em 2025 e, mais recentemente, as restrições adotadas pela China à importação de carne brasileira.

Para ela, esses movimentos impactam setores estratégicos e reduzem as perspectivas de crescimento. “A projeção é de uma expansão nacional mais baixa e menos sustentada ao longo de 2026”, afirma.

No ano passado, o bom desempenho da agricultura, favorecido pelas condições climáticas, impulsionou outros segmentos da economia. No Rio Grande do Sul, houve ainda uma retomada após as cheias registradas em 2023 e 2024. No entanto, a economista avalia que esse crescimento é volátil. “Sem uma base industrial sólida, o avanço econômico tende a perder força no médio e longo prazo”, aponta Fernanda.

Conforme ela, a dependência do setor primário segue como um ponto de vulnerabilidade. Embora o agronegócio tenha papel central na geração de renda e no dinamismo econômico, ele não garante, sozinho, taxas de crescimento sustentadas.

A economista acredita que, para recompor investimentos industriais, o Brasil precisaria crescer cerca de 3,5% ao ano: “Falta uma política nacional de desenvolvimento industrial e um direcionamento claro de áreas prioritárias”.

Outro fator limitante é o patamar elevado da taxa de juros. Com juros básicos em torno de 15% ao ano, o Brasil figura entre os países com maior juro real do mundo. Isso dificulta investimentos produtivos, especialmente na indústria. Ainda assim, o mercado financeiro tem apresentado desempenho positivo, com a B3 ultrapassando os 160 mil pontos.

“Esse movimento pode refletir uma antecipação de expectativas para 2026, em um contexto de busca por proteção diante da instabilidade típica de um ano eleitoral”, acredita ela.

Para os próximos meses, a avaliação é de que o Banco Central seguirá adotando uma postura cautelosa. A expectativa é de que os juros só fiquem abaixo de 10% a partir de 2028 ou 2029. Juros elevados, segundo Fernanda, inibem o consumo e novos investimentos, o que restringe o crescimento econômico.

Perspectivas regionais

Em âmbito regional, o Vale do Taquari apresenta características que explicam a rápida recuperação após períodos de crise. De acordo com Fernanda, a economia local é baseada em uma estrutura diversificada, com predominância de minifúndios, presença relevante da pecuária e uma cadeia industrial integrada à produção agropecuária. “Essa combinação garante mais estabilidade de renda ao produtor e mantém a circulação de recursos dentro da própria região”, explica ela.

Segundo a economista, crises locais tendem a gerar impactos mais significativos do que choques globais, justamente pela forte interdependência entre agro e indústria regional. Ela cita a crise enfrentada pela Cooperativa Languiru como exemplo de como dificuldades em grandes empresas afetam especialmente os municípios menores.

A especialista lembra que, apesar da resiliência econômica, o Vale do Taquari enfrenta gargalos importantes, especialmente relacionados à mão de obra. A região vive uma situação próxima ao pleno emprego, com índices de desemprego historicamente baixos: “O principal desafio está no descompasso entre a qualificação exigida pelas empresas e o perfil dos trabalhadores disponíveis”.

Organização financeira

No campo das finanças pessoais, Fernanda reforça a importância do controle de gastos em um ambiente de crédito caro. A orientação é não gastar mais do que se ganha e manter uma reserva de emergência para imprevistos, como problemas de saúde ou eventos climáticos.

A economista também faz um alerta sobre promessas de “milagres econômicos”, como sites de apostas e investimentos sem lastro produtivo, que drenam recursos da economia real.

Ao abordar o comportamento econômico da sociedade, Fernanda destaca o papel individual de cada cidadão. Para ela, a macroeconomia é formada pelas decisões tomadas diariamente pelas pessoas e empresas, o que torna difícil prever o comportamento agregado da população. “Uma gestão mais eficiente dos próprios recursos amplia a capacidade de consumo e investimento, fortalecendo a economia como um todo”, conclui.

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