A trajetória de Franciele Diehl, engenheira química e diretora da Eco Diehl Saneamento e da Áqueo Poços Artesianos, é um exemplo de como o empreendedorismo pode florescer a partir de raízes familiares sólidas. Com sede em Estrela, a empresa, que celebrou 15 anos de atuação, foca em soluções voltadas à água subterrânea, desde a perfuração até o tratamento. No entanto, por trás da gestão técnica, Fran, como é conhecida, revela uma jornada de busca constante por autoconhecimento e conexão espiritual.
Sucessão: do banco do carona à gestão do negócio
Diferente de muitos casos onde a sucessão é sentida como pressão, para Franciele o processo foi natural. Desde os 5 anos de idade, ela acompanhava o pai em visitas a clientes e, depois, ajudava em tarefas administrativas. Hoje, ela lidera o negócio ao lado da irmã Roberta, engenheira civil, enquanto a irmã Fernanda, advogada, presta consultoria jurídica.
A convivência familiar no ambiente corporativo, contudo, exige maturidade. “Os combinados são importantes, deixar as regras claras”, afirma Franciele. Ela destaca a necessidade de separar o papel de filha e irmã do papel de sócia para evitar que conflitos profissionais cheguem ao “churrasco de domingo”. Ela ressalta que o respeito pelo conhecimento dos mais velhos e a abertura para inovações são as chaves para o equilíbrio geracional.
A força feminina em um mundo masculino
Atuar no setor de perfuração e hidráulica, ambiente predominantemente masculino, trouxe desafios iniciais. Franciele recorda que, no começo, sentia resistência por parte de clientes e da própria equipe operacional. No entanto, sua base técnica em Engenharia Química foi fundamental para conquistar autoridade: ao demonstrar conhecimento prático sobre perdas de carga e análises de água, ela rompeu barreiras e construiu uma relação de confiança e respeito com seus colaboradores.
Desafio da mão de obra
Lidar com a escassez de mão de obra em um nicho tão específico quanto a perfuração de poços exige que a empresa atue como sua própria escola de formação, uma vez que, historicamente, não existem cursos técnicos tradicionais para a função de operador de perfuratriz. Franciele destaca que a solução reside na formação interna, processo no qual os colaboradores mais jovens aprendem o ofício na prática com os veteranos, suprindo a carência de profissionais qualificados disponíveis no mercado.
Além da capacitação técnica, a gestão busca mitigar esse desafio ao cultivar a empatia e o senso de propósito na equipe. Ao entenderem que o serviço é essencial, como evitar que um produtor rural perca sua produção por falta de água, os colaboradores tornam-se mais parceiros e comprometidos, inclusive em regimes de plantão e fins de semana. A estratégia de “formar em casa”, aliada a um ambiente de confiança, é o que sustenta a retenção de talentos e permite planos de expansão apesar das dificuldades do setor.
Gestão além do CNPJ: autoconhecimento e saúde mental
A transição de engenheira para gestora exigiu que Franciele buscasse novos saberes em finanças e gestão de pessoas. Nesse percurso, a terapia tornou-se uma ferramenta essencial, iniciada há cerca de 3 anos para ajudá-la a equilibrar os papéis de empresária, mãe e esposa. Ela defende que o CPF precisa estar forte para que o CNPJ prospere. “A gente não dá conta de tudo e tá tudo certo”, reflete. Fran enfatiza a importância de pedir ajuda e abandonar a “capa de mulher-maravilha”. Esse autoconhecimento também se reflete na sua rotina: ela identificou que rende melhor ao realizar exercícios físicos pela manhã, o que a ajuda a lidar com o estresse mental do dia a dia.
Espiritualidade e aprendizado contínuo
A gestão de Franciele é também permeada por rituais de espiritualidade. Ela mantém o hábito de acender uma vela e fazer uma oração ao chegar na empresa, pedindo proteção para sua equipe e sabedoria nas decisões. Para ela, a fé traz o acalento necessário em dias difíceis e ajuda a enfrentar situações desafiadoras com mais leveza. Além da fé, o aprendizado contínuo move a empresária. Participante ativa do Tittanium Club e de eventos como o Gramado Summit, Franciele expandiu seus horizontes para a escrita, tornando-se coautora de livros como “Negócio 360” e “Construa Negócios com Identidade”. Seu engajamento estende-se ao voluntariado na Cacis Estrela, onde integra a diretoria e coordenação do comitê feminino para fortalecer a rede de apoio entre mulheres empreendedoras.


