“É possível se reinventar e liderar com competência em qualquer fase da vida”

Giselda Hahn destaca o novo olhar da liderança feminina

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Giselda Hahn / Crédito: Luciana Brune

Em entrevista ao programa Empreendedoras em Ação, a diretora da Cometa Livraria e Papelaria, Giselda Veronice Hahn, reflete sobre a transição de carreira após 30 anos na saúde, a importância do aprendizado contínuo e o papel dos homens como parceiros no fortalecimento da gestão feita por mulheres.

Sua trajetória não segue uma linha reta, mas sim, uma curva ascendente de aprendizado contínuo. Conhecida hoje como diretora da tradicional Cometa e presidente da CDL Lajeado, Giselda carrega em sua bagagem 30 anos dedicados à área da saúde, uma experiência que, segundo ela, moldou sua visão humanizada para os negócios.

Transição de “cuidar” para “gerir”

Para quem vê Giselda à frente de entidades de classe e do varejo pode ser surpreendente descobrir que sua primeira vocação foi a Enfermagem. Com mestrado e doutorado na área, atuou em UTIs e como professora universitária. A mudança radical ocorreu há 7 anos, atendendo a um chamado familiar. “Foi um desafio essa transição, mas hoje estou absolutamente apaixonada. A gestão do varejo me captou completamente, pois é uma área muito dinâmica”, revela Giselda.

Embora os setores pareçam opostos, a gestora identifica um fio condutor que une o hospital ao balcão da livraria: as pessoas. “Em ambos trabalhamos intimamente com pessoas. No varejo, trabalhamos com a equipe, preparando essas pessoas, mas, ao mesmo tempo, atendendo os clientes para sanar alguma necessidade ou expectativa”, explica. Ela reforça que o foco final é sempre o bem-estar do ser humano.

Sucessão e organização da empresa familiar

A entrada de Giselda no varejo foi peça-chave em um movimento de sucessão familiar na Cometa, empresa com mais de 70 anos de história em Lajeado. A reorganização dividiu as responsabilidades de forma estratégica: enquanto o marido, com vasta experiência no comércio, e o filho, Guilherme, focaram na indústria gráfica, Giselda e a filha Carolina assumiram a operação do varejo.

Essa divisão permitiu uma simbiose de gerações. Carolina trouxe a energia jovem para compras e treinamentos, enquanto Giselda aplicou sua experiência acadêmica e humana no RH e gestão. “A necessidade de sucessão é algo que se fala muito hoje. Felizmente, existem muitos eventos e cursos que auxiliam os gestores de empresas familiares, porque se quer que a empresa continue”, pontua a empresária, que celebra o sucesso dessa condução até o momento.

A reinvenção da loja física e o “terceiro lugar”

Como equilibrar a gestão de uma empresa, a presidência de uma entidade e a vida pessoal? Para Giselda, a resposta está na disciplina e no “alimento” constante da mente e do corpo. Sua rotina é milimetricamente planejada: atividade física quatro vezes por semana, terapia semanal e, claro, muito estudo. A ex-professora segue na sala de aula. Atualmente cursando pós-graduação em Gestão de Pessoas e Liderança, frequenta também cursos on-line e grandes eventos do setor. “A gente aprende o quanto é benéfico estar atualizado”, diz.

Sob essa nova gestão, a Cometa precisou se adaptar. Giselda destaca que, apesar da força do digital e da “inteligência artificial ser um caminho sem volta”, a loja física retomou seu protagonismo, não apenas como ponto de venda, mas como o “terceiro lugar” na vida das pessoas, após a casa e o trabalho. “As pessoas gostam de estar na loja física. Esta precisa acolher, acalmar a pessoa dessa agitação do dia a dia”, afirma Giselda, citando tendências globais da NRF.

Para manter a relevância, a empresa investe em personalização, como a montagem de kits de presentes e o “Clubinho Cometa”, um clube de assinatura focado no desenvolvimento cognitivo infantil. Segundo ela, o cliente busca uma sintonia com a loja, encontrar uma afinidade e criar comunidade.

A disciplina da líder: estudo, rotina e raízes

A disposição para o trabalho árduo e comunitário vem de berço. Filha de agricultores de Santa Maria, Giselda recorda que seus pais, mesmo com o trabalho pesado na roça, dedicavam os fins de semana ao voluntariado em escolas e festas comunitárias. “A educação pelo exemplo é o que se fala tanto. Tive um exemplo muito real de pais que trabalhavam pesado, mas, no fim de semana, estavam lá voluntariamente”, conta. Isso explica o que a motiva a dedicar horas ao trabalho não remunerado na Acil e CDL.

Liderança feminina: apoio e gratidão

Sua atuação no associativismo, inclusive como coordenadora pioneira do Fórum da Mulher Empresária da Acil, revelou a ela o poder das redes de apoio. “A mulher dá muita força para a outra. É extremamente positivo, porque a gente se retroalimenta com as experiências”, avalia. Giselda observa que a mulher traz uma nova forma de gestão, mais inclusiva, humana e com visão integral, características que beneficiam as empresas modernas.

No entanto, ao encorajar outras mulheres a ocuparem espaços de poder, ela faz questão de reconhecer o papel dos homens nessa jornada, rejeitando a rivalidade de gêneros. “Sou muito grata aos colegas homens que estão conosco na gestão. O homem esteve muito tempo à frente, tem experiência e tem sido um ótimo educador”, afirma, destacando a parceria com líderes masculinos preocupados com o desenvolvimento regional. Giselda deixa uma mensagem clara para as futuras líderes: é preciso romper a síndrome do impostor. “A mulher precisa acreditar em si e romper com paradigmas de que ‘não tenho capacidade’. Ela precisa virar essa chave e se desafiar; foi o que eu fiz”, conclui. Assim, prova ser possível se reinventar e liderar com competência em qualquer fase da vida.

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