A Associação de Ecologia e Canoagem (Aeca), de Estrela, voltou a escrever um mais um capítulo marcante na história da modalidade no país e no Rio Grande do Sul.
No Campeonato Brasileiro de Canoagem Maratona, realizado em Curitiba (PR) de 26 de fevereiro a 1º de março, a equipe conquistou resultados expressivos e garantiu vagas para o Campeonato Mundial de Maratona, que será disputado em outubro, na Argentina.
Entre os classificados estão Larissa Naiara Ahlert (17), Theo Carracedo (23), Francisco Lepkoski (35) e Diego Soarez (17). O grupo reforça o protagonismo da canoagem gaúcha em nível nacional e mantém viva a tradição de um município que é reconhecido como berço da modalidade no Brasil.
A maratona na canoagem é marcada por percursos extensos – 17, 21 ou 25 quilômetros, a depender da categoria -, disputados em circuitos com voltas e portagens (momentos em que o atleta precisa sair da água e carregar o caiaque). Não é apenas força: a prova exige estratégia, leitura de corrida e controle emocional.
Técnico e também atleta, Francisco “Chico” explica que a preparação começou ainda no fim do ano passado. “Soubemos que o Brasileiro seria decisivo para o Mundial e começamos a montar a base. São provas longas, então é preciso ter um volume grande de treino. O objetivo era classificar e a missão foi cumprida”, comenta.
No K2 Sênior (25 quilômetros), Chico e Theo conquistaram a medalha de prata e a vaga. O detalhe é que a dupla praticamente não havia treinado junta. “Subimos no barco e alinhamos tudo na largada. Ajustamos durante a prova e conseguimos evoluir”, relata Francisco. A sintonia rendeu também um 2º lugar no K1 Sênior para Carracedo.
Juventude e maturidade na mesma braçada
Aos 17 anos, Larissa Ahlert é um dos grandes símbolos da nova geração da Aeca. Vice-campeã no K1 Júnior (17,5 quilômetros) e campeã no K2 Misto Júnior ao lado de Diego Soarez, ela garantiu presença no Mundial e vive um momento especial na carreira.
“Foi minha primeira competição maratona. Aprendi bastante coisa e agora é continuar nos treinos para outubro”, afirma. A classificação internacional ainda soa como surpreendente para quem começou de maneira despretensiosa. “Ia tomar banho de rio com uma amiga por lazer. Depois, o Chico me chamou para a equipe de rendimento, tive destaque e comecei a competir”, recorda.
A rotina é puxada. Treino pela manhã, curso em outra cidade à tarde e estudos à noite, em Estrela. “Às vezes, preciso faltar treino para fazer trabalho da escola, mas consigo conciliar. Receber apoio em casa também é crucial. Minha mãe tem muito orgulho, principalmente agora com a vaga para a Argentina”, avalia.
Larissa também superou uma lesão recente e teve de enfrentar dor e sessões de fisioterapia antes de voltar ao alto rendimento. A medalha em Curitiba é considerada uma superação pessoal.
Entre a USP e o caiaque
Theo divide a vida entre a canoagem e a graduação em Química na Universidade de São Paulo (USP). Ele treina na Raia Olímpica da universidade pela manhã, cumpre aulas e laboratório à tarde e ainda desenvolve pesquisas acadêmicas.
“Sempre quis participar de um campeonato como este. Tentei em outras oportunidades e agora deu certo. É uma felicidade muito grande”, destaca. Ele reconhece as dificuldades de conciliar esporte e estudo. “Tenho dias puxados, mas sempre consigo me virar”, comenta.
A classificação ganha ainda mais relevância diante da realidade do esporte no país. “Na prática, não dá para se manter só com a canoagem. O bolsa-atleta ajuda, mas é insuficiente. Por isso, precisamos pensar em um futuro acadêmico também”, afirma ele, que não pretende seguir na canoagem como profissão, pela falta de garantia e segurança.
Persistência e resultado
Com 3 anos e meio de canoagem, Diego Soarez também teve papel decisivo na campanha. O jovem atleta conquistou o ouro e a vaga, considerada como principal. Mesmo nervoso, ele ressalta que é o momento de “ir pra cima deles” e buscar a melhor colocação na Argentina.
Companheiro de Larissa na prova, Diego comemora o resultado depois de uma preparação com treinos intensos. “Foi uma rotina pesada até não aguentar mais, mas todo esforço sempre é recompensado. Às vezes, demora, mas a vitória sempre vem”, destaca.
Satisfeito com a campanha, o canoísta também faz questão de ressaltar o trabalho de Chico e das pessoas que o apoiam na trajetória no esporte. Agora, ele já projeta o próximo desafio da temporada: a disputa da Copa Brasil de Velocidade, marcada para abril. Então, se concentrará no Mundial.
Estrutura e mobilização
Para um dos dirigentes da Aeca, Edson Carvalho, o resultado é fruto de um esforço coletivo que não fica só na água. “O atleta aparece na ponta, mas tem toda uma estrutura por trás. Diretoria voluntária, famílias que apoiam e o treinador, que planeja cada detalhe”, indica.
Ele destaca que a classificação ao Mundial traz também um desafio financeiro. Transporte de atletas e embarcações, inscrições, hospedagem e alimentação elevam os custos. “Representar o Brasil é uma honra, mas exige investimento. Buscamos apoio para viabilizar essa ida para outro país”, reforça Carvalho. Ele lembra a realidade da Aeca, pois a entidade ainda vive um processo de reconstrução estrutural após perdas significativas de material.
Parte das embarcações utilizadas no Brasileiro foi emprestada ou alugada. “Mesmo assim, mostramos que a Aeca é forte. Perdemos equipamentos, mas não a essência”, diz.
São mais de 40 anos de história – a entidade é considerada a mais antiga equipe de canoagem do Brasil. Além do alto rendimento, a Aeca mantém projeto social que atende crianças e adolescentes e oferece iniciação esportiva e formação cidadã.
Sonho compartilhado
Para Chico, a ida ao Mundial tem significado duplo. “Tenho mais de 20 anos de canoagem e nunca tinha representado o Brasil como atleta. É um sonho realizado”, aponta. Ele valoriza o crescimento dos jovens: “Ver eles em evolução, sem ligar para dificuldades, é especial, e isso não tem preço.”
Larissa resume o sentimento com maturidade. “É uma responsabilidade grande, mas um sentimento muito bom” – o que agrega com o pensamento de Theo. “Vamos alinhar as canoas ao lado de atletas que são referências. Isso é uma conquista gigante”, reforça.
Em outubro, no momento em que os caiaques brasileiros estiverem na largada do Mundial na Argentina, Estrela estará representada por atletas que carregam medalhas e levam histórias de disciplina, reconstrução e união – marcas de um grupo que transformou adversidade em oportunidade e reafirmou a força da canoagem gaúcha no cenário internacional.


