O ataque coordenado entre Israel e Estados Unidos contra o Irã inaugurou uma nova fase de instabilidade no Oriente Médio. Mesmo distante do Brasil, as repercussões do conflito atingem as esferas políticas, militares e econômicas globais. Entre os efeitos imediatos estão o aumento do preço do petróleo no mercado mundial.
Em entrevista à Rádio Popular, o professor do curso de História e Relações Internacionais da Univates, Mateus Dalmáz, analisou os objetivos estratégicos da ofensiva dos países ocidentais. Ele também abordou os limites institucionais do regime iraniano, as contradições das narrativas internacionais e a baixa probabilidade de entrada direta de outras potências no conflito.
De acordo com Dalmáz, ainda é difícil medir a dimensão real da operação promovida por Estados Unidos e Israel. A avaliação é de que os dois países podem ter subestimado a capacidade de reação iraniana e de seus aliados regionais. Um dos pontos mais sensíveis é o Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. “Qualquer instabilidade prolongada na área pressiona mercados e amplia o impacto econômico do conflito”, afirmou.
Conforme o professor, a ação militar teve dois objetivos centrais. O primeiro seria desestabilizar o regime dos aiatolás e, se possível, provocar uma substituição do atual governo por outro mais alinhado ao Ocidente. “Não se trata necessariamente de instaurar uma democracia liberal, mas de trocar um governo considerado hostil por outro mais cooperativo com Washington e Tel Aviv”, alerta.
O segundo objetivo envolve o desmantelamento do programa nuclear iraniano. Para o analista, há um interesse estratégico claro em manter Israel como principal potência regional e, sobretudo, como única potência nuclear do Oriente Médio. “Embora os Estados Unidos mantenham relações com outros aliados, Israel é visto como o parceiro histórico e prioritário na região”, aponta ele.
Regime perdura
A morte da principal liderança religiosa iraniana durante os ataques não resultou em mudança no regime iraniano. Dalmáz destaca que, apesar da gravidade do episódio, o sistema político do país possui mecanismos institucionais de substituição que impediram a queda dos Aiatolás. “Não se trata de uma estrutura personalista dependente exclusivamente de um líder, mas de um arranjo jurídico-religioso complexo, com instâncias políticas, militares e clericais interligadas”, explica.
O professor também ressalta a variação das justificativas norte-americanas. Em poucos dias, os argumentos passaram de contenção de ameaça militar para bloqueio do programa nuclear e, posteriormente, para defesa da democracia e das mulheres iranianas. “Houve ainda a declaração do secretário de Estado, Marco Rubio, indicando que Washington teria se antecipado a uma ação unilateral israelense para manter protagonismo regional”, lembra.
Para Dalmáz, essa oscilação retórica revela um interesse predominantemente geopolítico e estratégico, mais do que humanitário. Segundo ele, ataques que atingem estruturas civis, como escolas, fragilizam o discurso de intervenção em nome da proteção de direitos.
Demais potências
Sobre a possibilidade de ampliação do conflito, o entrevistado avalia que não há tendência de envolvimento militar direto de China ou Rússia, por motivos distintos. A China teria interesse prioritário na normalização do fluxo energético e tende a atuar pela via diplomática. “Envolvida na guerra contra a Ucrânia, a Rússia não teria capacidade material de intervenção adicional, limitando-se ao discurso de defesa do direito internacional”, aponta Dalmáz.
Na Europa, o Reino Unido sinalizou apoio logístico aos Estados Unidos, com possibilidade de uso de bases militares após pressão do governo Trump. Na quinta-feira (5/3), o país anunciou o envio de aeronaves para o conflito. A França reforçou o alinhamento estratégico e anunciou ampliação de investimentos em seu arsenal nuclear. A Espanha foi o único país europeu a declarar que não disponibilizaria bases, o que gerou tensão diplomática pontual, destaca ele.
Para o professor, ao menos no curto prazo, o conflito tende a permanecer concentrado nos três principais atores: Estados Unidos, Israel e Irã. A principal possibilidade é ataques e contra-ataques envolvendo forças regionais já alinhadas. “Lideranças de Hezbollah, do Líbano, e Houthis, do Iêmen, tomaram a atitude de retalhar bases militares no Oriente Médio”, lembra. Também na quinta-feira, o Hezbollah operou o primeiro ataque a Israel coordenado com as forças do Irã.
Estreito de Ormuz
Conforme Dalmáz, a entrada direta de grandes potências externas não aparece como cenário provável neste momento. Porém, a instabilidade no Estreito de Ormuz mantém o mundo em alerta diante das consequências econômicas e estratégicas do confronto.
Considerada uma das rotas marítimas mais importantes do mundo, o Estreito conecta os produtores de petróleo do Oriente Médio com os principais mercados da região da Ásia-Pacífico, Europa e América do Norte. A faixa de 33 quilômetros que banha Irã, Omã e Emirados Árabes é responsável pelo escoamento de cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo e quase 30% de todo o óleo bruto transportado por via marítima.

Estreito de Ormuz é responsável pelo escoamento de 30% do petróleo bruto transportado por via marítima no mundo / Crédito: Divulgação
Acordos internacionais
Para Mateus, o ataque norte-americano também representa mais uma quebra dos acordos internacionais por parte dos Estados Unidos. Lembra que, em um curto espaço de tempo, o país sequestrou o presidente de uma nação soberana latino-americana (Venezuela) e matou um líder religioso e chefe de estado em outro país no Oriente Médio. “São intervenções extremamente sérias e significam um comportamento que despreza totalmente os acordos em torno do direito internacional e da governança global sobre segurança e comércio”, concluiu o especialista.
Consequências para o Brasil
O agravamento das tensões no Oriente Médio tende a pressionar o preço do petróleo no mercado internacional. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), o cenário pode favorecer o comércio exterior brasileiro.
Como o país é exportador de petróleo bruto, a elevação das cotações amplia o saldo das exportações de combustíveis, fortalecendo a balança comercial nesse segmento.
Por outro lado, a guerra no Irã pode resultar em aumento no preço dos combustíveis no cenário doméstico.
A instabilidade também pode provocar impactos temporários nas exportações brasileiras de alimentos. Países do Oriente Médio são importantes compradores de produtos como milho, carne de frango, açúcar e carne bovina. A região responde por 32% das vendas externas de milho do Brasil, 30% da carne de aves, 17% do açúcar e 7% da carne bovina, embora a expectativa do Mdic seja de normalização da demanda ao longo do tempo.


