Cássio Scheid: “O futebol hoje exige inteligência. Sai na frente quem escuta e aprende”

A trajetória do lajeadense é construída com consciência, adaptação e entendimento do jogo do campo e da vida.

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Lajeadense foi capitão do Farense, de Portugal - Crédito: Arquivo Pessoal

Natural do Bairro Olarias, em Lajeado, o zagueiro Cássio Scheid iniciou sua relação com o futebol ainda nas escolinhas da região, especialmente em Arroio do Meio e na Juventus, com quem foi campeão da Copa Teutônia.

Na época, começou como meio-campista. A função moldaria uma das principais características que ele carrega até hoje: a qualidade na saída de bola.

Ao longo da formação, passou por clubes importantes da base brasileira, como o Red Bull Brasil (atual Bragantino) e o Santos (em 2009), até encontrar seu caminho definitivo no profissional – ainda que longe dos grandes holofotes nacionais.

A virada de chave na carreira veio com uma decisão que, à época, poderia parecer arriscada. Abandonar a função original e assumir um novo papel dentro de campo foi desafiador, mas uma escolha acertada e aconselhada pelo atual treinador do Coritiba, Fernando Seabra.

“Nunca tive problema em mudar de posição. O jogador precisa ser inteligente, ouvir e se adaptar. Eu não tinha o desejo de ter apenas uma posição, só queria jogar”, afirma. A leitura, aliada à capacidade técnica, o levou à zaga, posição em que se consolidou.

Após os primeiros passos no Brasil, Cássio optou por seguir carreira na Europa. Em Portugal, encontrou estabilidade, espaço e reconhecimento.

Foram anos de consolidação, com passagens marcantes e participação direta em acessos de divisão – especialmente no Farense, onde ganhou a braçadeira de capitão, protagonismo e respeito.

“Cresci como jogador e me moldei como homem em Portugal. Cheguei novo, tive que aprender muita coisa fora de campo também. Foi desafiador, mas fundamental para minha construção”, destaca Scheid.

O desempenho consistente abriu portas para uma nova etapa, o futebol asiático. A mudança, segundo ele, teve um componente claro. “Fui pela independência financeira. Não há necessidade em esconder isso. Mas também encontrei um nível competitivo melhor do que muitos imaginam e pensam”, avalia.

A experiência na Ásia, com passagens por países como Tailândia e Indonésia, ampliou não apenas o repertório técnico, mas também a visão de mundo.

“As pessoas acham que aquele futebol é feito apenas por dinheiro, mas não é bem assim. Joguei com atletas de alto nível, com passagem por grandes clubes. O futebol lá evoluiu muito”, acrescenta o jogador.

Maturidade e o auge físico

Aos 32 anos, Cássio define o momento atual como o mais completo da carreira. Longe da ideia de declínio físico, comum em gerações anteriores, o zagueiro aponta para uma evolução baseada nos pilares do conhecimento e disciplina.

“Me sinto melhor do que há 5 anos. Aprendi a cuidar do corpo, entendi a importância do sono, da alimentação e do trabalho extra. Isso faz toda a diferença”, afirma.

A maturidade também se reflete na forma como ele encara o futuro. Já com estabilidade financeira, o jogador começa a planejar a transição de carreira – um tema ainda pouco discutido entre atletas, mas essencial para garantir a sequência da vida.

“Agora não penso só no dinheiro, mas em um projeto que faça sentido, que me permita também estudar e me preparar para o pós-carreira. Seja como treinador, gestor ou em outra função dentro do futebol”, comenta.

Além das quatro linhas

Se dentro de campo a leitura de jogo sempre foi um diferencial, fora dele a análise é ainda mais crítica e cautelosa. Cássio chama atenção para um ponto sensível no futebol atual: a formação de jovens atletas – e o papel dos pais nesse processo.

“Vejo muitos jovens que não querem entender o motivo das coisas. Ou não fazem, ou fazem sem buscar aprender. Isso é um problema muito grande para as novas gerações”, alerta.

Para ele, o excesso de pressa pode comprometer trajetórias promissoras, especialmente com pressões vindas de casa. “Muitas vezes, os pais têm mais sonhos do que os filhos. Querem pular etapas, trocar de clube o tempo todo. Mas o futebol não funciona assim. É processo, calma e trabalho”, ressalta.

A defesa por uma formação sólida passa, necessariamente, por paciência e ambiente adequado. Conforme Cássio, o jogador que presta mais atenção e põe em prática o que aprende deve pular etapas em momentos avançados da carreira, mas isso tudo exige dedicação, não a busca por atalhos. Como exemplo, há o atleta Raphinha, atualmente no Barcelona. Ele era reserva do Sporting Sul em uma Copa Teutônia de anos atrás.

Ao longo da carreira, Cássio também enfrentou situações comuns no futebol profissional, como conflitos contratuais e decisões difíceis. Em todas elas, diz ter mantido a conduta de sustentar suas convicções acima de tudo.

“A vida não é um vale tudo para se tornar jogador. Se eu tiver que abrir mão dos meus princípios e essência, então não vale a pena”, afirma.

Reservado fora de campo, o zagueiro mantém uma relação próxima com a família e evita o protagonismo midiático. Prefere que a carreira fale por si – e, ao que tudo indica, com consistência.

“Olhar sempre para a frente”

Com passagens por diferentes culturas e estilos de jogo, Cássio Scheid se consolida como um atleta moldado pela adaptação e pela inteligência.

Agora, enquanto avalia os próximos passos entre um possível retorno ao Brasil ou permanência no outro lado do mundo, carrega consigo uma visão inteligente do que construiu e do que ainda pretende alcançar.

“O projeto precisa fazer sentido. Hoje, escolho mais do que aceito. Quero algo que agregue dentro e fora de campo”, resume

A carreira de Scheid não ficará registrada apenas pelos acessos conquistados ou os clubes defendidos, mas por seguir um princípio muito importante, a coerência

Em um ambiente no qual decisões rápidas e promessas fáceis são comuns, ele optou pelo caminho mais difícil e, ao mesmo tempo, mais sólido: o da construção consciente.

Assista à entrevista:

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