Languiru avança na redução da dívida, enquanto Piá entra em liquidação

Casos expõem lacuna legal no setor cooperativista, mostram uso de alternativas à recuperação judicial e reacendem debate sobre regras

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Números da dívida da Languiru foram apresentados aos associados em assembleia realizada no dia 20 de março / Crédito: Thiago Maurique

O avanço de processos de reestruturação financeira em cooperativas gaúchas evidencia um cenário de pressão sobre o setor. Os casos das cooperativas Languiru e Piá mostram caminhos distintos, mas convergentes na tentativa de reorganizar dívidas e manter operações.

A Languiru afirma ter reduzido em 52% o montante da dívida, originalmente estimada em mais de R$ 1 bilhão. O passivo foi renegociado para cerca de R$ 584 milhões, resultado de um processo contínuo de negociação com credores e adesão a um plano de liquidação.

Superintendente da cooperativa, Gustavo Marques destaca que a redução não representa pagamento efetivo da dívida, mas sua reorganização. “Esse percentual é de dívida renegociada, já com algum nível de adesão ao plano, o que nos permite alongar prazos e estruturar o pagamento”, afirma.

Segundo ele, o avanço é resultado de um trabalho operacional intenso, muitas vezes invisível fora da gestão. “É ligar todo dia, retomar contato, insistir na negociação. É um esforço contínuo para trazer os credores para dentro do plano”, reforça ele.

A cooperativa projeta um prazo entre 10 e 12 anos para liquidar o passivo, considerando a adesão dos credores e a evolução da operação. “Pode variar um poujco a depender das condições de mercado, mas essa é a base do nosso planejamento”, diz Marques.

Em assembleia realizada no dia 20 de março, o superintendente detalhou o tamanho do desafio entre os próprios associados. O grupo de credores não financeiros soma cerca de R$ 372 milhões, distribuídos entre 2.883 credores, em sua maioria, associados e fornecedores.

Até o momento do encontro, 666 haviam aderido ao plano, o que representa aproximadamente R$ 223,5 milhões negociados, enquanto o restante ainda resiste às condições propostas, como deságios e prazos mais longos. Segundo o superintendente, a não adesão pode comprometer o avanço do processo como um todo. “Sem isso, não conseguimos consolidar o plano e avançar para a liquidação de forma estruturada”, afirmou.

Do ponto de vista legal, o risco também recai sobre os próprios associados. O presidente-liquidante, Paulo Roberto Birck, reforça que, no modelo cooperativista, os membros participam tanto dos resultados positivos quanto dos negativos. “É ruim receber apenas uma parte do valor a que se tem direito, mas é melhor ter essa segurança do que correr o risco de ter que assumir uma parcela maior da dívida da cooperativa”, disse.

Na prática, caso não haja adesão suficiente, o processo pode se alongar e dificultar novos acordos com credores, bem como ampliar o risco de responsabilização dos próprios associados, conforme previsto na legislação cooperativista.

Liquidação da Piá

Em movimento semelhante dentro do cooperativismo gaúcho, a Piá aprovou, por unanimidade, a liquidação com continuidade dos negócios em assembleia realizada nessa quinta-feira (26/3). O então presidente, Jorge Dinnebier, agora nomeado liquidante, afirma que a medida busca dar fôlego financeiro à cooperativa.

Com a decisão, o Conselho de Administração foi dissolvido e substituído por um Conselho Fiscal, que atuará junto ao liquidante, com prestação de contas periódica aos associados. “Conseguiremos criar condições mais seguras para renegociar dívidas, com ampliação de prazos, redução de juros e descontos”, afirmou o presidente.

Com mais de 20 mil associados, a cooperativa enfrenta dificuldades financeiras. Parte relevante das dívidas está concentrada em instituições como Banrisul, Sicredi e Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE).

O modelo adotado permite suspender ações judiciais e manter as operações enquanto a cooperativa busca reequilíbrio. Em paralelo, a Piá avalia propostas de parceiros estratégicos para aporte de capital e retomada da produção, atualmente abaixo da capacidade instalada.

Languiru abriu precedente

Além da reestruturação financeira, a Languiru também marcou o debate jurídico ao tentar acessar mecanismos típicos da recuperação judicial, instrumento previsto na legislação brasileira, mas restrito a empresas.

Ao recorrer à Justiça, a cooperativa buscou, na prática, suspender execuções e organizar a negociação coletiva com credores, em um modelo semelhante ao utilizado por empresas em crise.

A iniciativa abriu precedente ao sustentar que cooperativas, apesar da natureza jurídica distinta, exercem função econômica comparável à empresarial. Embora o caminho consolidado tenha sido a liquidação extrajudicial, prevista na legislação cooperativista, o movimento evidenciou uma lacuna regulatória e ampliou a discussão sobre a necessidade de atualização do marco legal.

Na prática, tanto a Languiru quanto a Piá recorrem ao mesmo princípio de utilizar a liquidação com continuidade das operações como instrumento de reorganização financeira. O modelo permite negociar dívidas, manter atividades e preservar a base de associados, funcionando como uma alternativa à recuperação judicial.

Enquanto mudanças legislativas não avançam, experiências como as da Languiru e Piá tendem a se tornar referência, tanto na prática de mercado quanto no debate jurídico, sobre os caminhos possíveis para cooperativas em dificuldade. Em meio às frequentes crises enfrentadas pelo setor, as duas cooperativas mostram caminhos capazes de evitar prejuízos ainda maiores para o associativismo gaúcho.

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