O resgate do pertencimento por meio do esporte em Roca Sales

Partida do fim de semana decretou a retomada da prática do futebol na comunidade, extremamente atingida pelos deslizamentos de maio. O momento também foi especial pela primeira cobertura esportiva da história da localidade

635
Dentro de campo, os jogos ficaram empatados em 1 a 1 - Crédito: Thayza Eduarda de Lima / Especial FP

A tarde de domingo (23/2) não foi marcada apenas pelo futebol no interior de Roca Sales. Fora dos gramados, a emoção e os reencontros deram o tom da partida entre Amigos da Serrinha e Esperança, de Fazenda Lohmann, realizada na Serrinha, em Roca Sales.

O confronto, válido pelo 45º Campeonato Municipal de Roca Sales, teve um significado especial para os moradores, que ainda enfrentam as consequências da tragédia climática ocorrida no ano passado (2024).

Um dos membros da comunidade, ex-jogador da Serrinha e atuante nos bastidores do clube, Darlan Joriz, destaca a importância da retomada das partidas para a região, tanto para o clube quanto para os moradores. “Há dez anos, o campo não estava nas condições que está hoje. Depois de tudo o que aconteceu no ano passado, ninguém imaginava que o Amigos da Serrinha receberia uma partida como esta”, disse, emocionado.

A tragédia mencionada por Darlan ainda é uma lembrança dolorosa para os moradores da região, marcada por perdas significativas no município e no estado. “Perdemos amigos, famílias inteiras que jogavam com a gente e conviviam conosco. É sempre muito complicado, mas momentos como os de hoje nos fazem querer continuar”, afirma.

A mobilização da comunidade foi um dos pontos altos do domingo, com mais de 400 pessoas acompanhando as partidas dos Aspirantes e Titulares. Segundo Darlan, cerca de 15 a 20 famílias vivem na região e se uniram para manter o campo em condições adequadas para o campeonato.

“Mesmo trabalhando fora, a maioria ainda tira um tempo para organizar o campo, cortar a grama e garantir que tudo aconteça. Muita gente mora no centro da cidade e, mesmo assim, sobe até aqui para ajudar”, explica.

História e emoção nas arquibancadas

Entre os presentes, uma figura conhecida emocionou os torcedores da Serrinha: Irene Gedoz, de 85 anos. Com brilho nos olhos, ela acompanhava mais uma partida, como faz desde pequena, mas com ainda mais dedicação a partir de 2015. “Eu sempre acompanhava. Só parei um tempo por alguns problemas de saúde, mas agora estou aqui de novo, firme e forte”, comenta.

Para Irene, estar ali é muito mais do que apenas assistir a um jogo. “Os outros até perguntam por que eu venho, mas eu digo: eu quero ver meus netos, filhos, parentes, amigos e a Serrinha jogar”, disse. Joel e Jovani, meias da Serrinha, são netos de Irene e atuaram no fim de semana.

A paixão da família pelo futebol atravessa gerações. Irene lembrou da filha, Elenita Gedoz Eckhardt, uma das vítimas da tragédia que assolou o município e provocou desabamentos na região.

A família enfrentou momentos difíceis, perdendo Adir Eckhardt, Anderson Eckhardt, Letícia Garcia de Souza e Andrieli Amanda Eckhardt nos deslizamentos que atingiram a Serrinha.

Irene recorda que Elenita era uma das torcedoras mais animadas. “Ela gritava muito, fazia torcida, era uma festa”, relembrou. Hoje, seus netos seguem em campo, mantendo viva a tradição familiar.

Recentemente, Irene enfrentou graves problemas de saúde e precisou ficar internada por meses. “Estava com o pé na cova”, brinca. Mas a recuperação veio e, com ela, a vontade de voltar ao campo. “Eles me ajudaram, me tiraram dessa. Agora estou aqui de novo”, acrescenta.

Sua expectativa para a participação da Serrinha no campeonato é clara: “Tem que ganhar, temos que ser campeões!”, afirmou. Enquanto o jogo seguia, Irene aproveitava para matar a saudade da família e reforçava o quanto esses encontros são importantes. “É um jeito da gente sair de casa, ver os parentes, aproveitar o domingo e a vida”, comenta.

Cobertura histórica

A transmissão da Rádio Popular foi feita de forma inusitada: na carroceria de um caminhão, ao lado da equipe que vendia bebidas para os torcedores, em um estilo que remete às antigas transmissões. A cobertura também foi inédita na história do Amigos da Serrinha e da comunidade.

Darlan ressaltou a importância desse momento para a comunidade, tanto pela retomada dos jogos quanto pela transmissão. “Além de todos os outros fatores, ter a Rádio Popular aqui narrando nosso jogo é algo muito gratificante. Apesar das dificuldades, como falta de luz e de internet, conseguimos transmitir a partida. É especial”, completa.

Outro personagem presente foi “Nego”, também envolvido na organização da Copa. Ele agradeceu à Popular e destacou os esforços nos preparativos, mesmo diante de imprevistos.

“Manter uma comunidade não é fácil. Precisamos vender bebidas, cobrar ingressos, correr atrás de apoio, mas, no fim, tudo vale a pena. Fizemos de tudo para deixar tudo pronto e agora é focar no próximo jogo contra o XV de Novembro de Júlio de Castilhos”, afirma.

O domingo reforçou a força da comunidade em se reerguer e manter viva a paixão pelo futebol, independentemente dos desafios. Mais do que isso, representou a retomada do sentimento de pertencimento e alegria entre os moradores, que seguem reconstruindo suas vidas com esperança e união.

- publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Escreva seu comentário!
Digite seu nome aqui