
O escritor é um observador aguçado do mundo e da experiência humana. Seja em romances épicos ou contos curtos, eles nos transportam para outras realidades. São criadores de novos mundos, dão razão aos sentimentos e são guardiões da memória. Já o poeta traduz a vida com outro olhar. Ele transforma sua experiência pessoal em algo que ressoa universalmente.
Porém, não se nasce escritor. De alguma forma, é preciso incentivo. Em um mundo com cada vez mais telas e livros deixados de lado, compreende-se a necessidade de despertar cada vez mais cedo o interesse não só pela leitura, mas pela expressão do sentimento, da imaginação.
E, como que prevendo a consolidação deste novo mundo, longe das páginas com aquele aroma complexo que mistura baunilha com flores, o Rotary Clube Lajeado-Engenho abraçou o chamado para o incentivo à literatura ao criar o projeto Jovens Poetas, que celebra 30 anos em 2025.
Na noite desta quinta-feira, mais de 280 alunos de 40 educandários lajeadenses foram premiados com um livro – uma coletânea de esperança. São 326 páginas de poesias e desenhos que eles mesmo produziram.
Conforme a coordenadora desta edição, Nara Regina Scheibler, o Jovens Poetas é de grande valia para as escolas, pois estimula a leitura e a escrita.
Hoje adulta, a poetisa Solange Hochscheidt participou de duas edições do livro. Na primeira, teve três poesias publicadas, e na segunda, duas. “Foi uma fase bem importante da minha adolescência, onde pude expressar meus sentimentos através da escrita e poesia”, garante.
A poesia passou de geração. Seu filho, Fernando Queiroz, também participou do projeto, o que ela considera o mais gratificante dessa trajetória. Agora, Fernando pretende incentivar sua filha a participar.
O presidente do Rotary Clube Lajeado-Engenho, Gerson Gerhard, aponta que o projeto se consolida como um espaço de valorização da criatividade, da expressão e da sensibilidade dos estudantes das escolas do município de Lajeado. “Ao longo dessas três décadas, milhares de alunos deram voz aos seus sentimentos e ideias por meio da poesia e dos desenhos, sempre com o apoio essencial dos professores, que incentivaram e orientaram com dedicação cada etapa desse processo criativo”, conta.
Ele também reconhece o papel das famílias, que estimulam e encorajam os jovens a transformar emoções em palavras e imagens, fortalecendo, assim, o hábito da leitura e da escrita desde cedo.
Neste ano, o projeto alcançou um marco que Gerhard considera muito significativo: 100% das escolas do município participaram. “Este resultado reforça a importância da iniciativa em um momento tão delicado, em que as telas digitais predominam no cotidiano de crianças e de jovens, muitas vezes reduzindo o hábito da leitura e da escrita. Que esta edição inspire novas gerações a sonhar, criar e transformar o mundo através da poesia e da arte”, finaliza o presidente.
Por trás dos autores
Ao lado de pessoas como as do Rotary estão os professores, grandes incentivadores da propagação deste projeto depois de ser apresentado aos alunos. São eles que abrem o caminho para o conhecimento e possibilitam a construção de pontes entre o que foi aprendido e a imaginação para criar.
Muitas vezes, um professor é a primeira pessoa a ver e nutrir o potencial em um aluno que duvida de si mesmo. Eles ensinam os alunos a desempacotar um poema, a ver a beleza em uma metáfora e a entender a relevância de textos antigos no mundo moderno.
Por isso, além de premiar os alunos com um livro que eles mesmo ajudaram a produzir, todos os anos o Rotary também reconhece um educador essencial para a manutenção do projeto. Em 2025 foi a vez da professora Melânia Fritzen Sulzbach ser homenageada.
Recentemente aposentada após 34 anos de docência – dos quais 31 na Emef Dom Pedro I -, Melânia participou de todas as edições do Jovens Poetas. Professora de Português e Literatura Infantil, tendo atuado também como diretora e vice-diretora, ela transmite com naturalidade o olhar de quem sabe o poder da leitura e da escrita em transformar uma pessoa.

Homenageada Melânia Sulzbach / Crédito: Rogiel Sulzbach – Especial FP
Para ela, o Jovens Poetas favorece a leitura dos alunos, que leem poemas escritos por adolescentes, com linguagem acessível e temas do seu interesse. “Através da leitura destes poemas, eles tinham a inspiração para novas produções. Ao escreverem os poemas hoje publicados, eles contribuíram com a leitura, pois só existem leitores porque antes existiram escritores”, ressaltou ela.
“A Melânia sempre foi uma professora que acreditava e valorizava cada avanço que os alunos alcançavam. Buscava incentivá-los com leituras e textos, conforme a possibilidade de cada um deles. Era uma eterna sonhadora que via em cada um o seu melhor”, ressalta a diretora da Emef, Márcia Lenise Verruck Gauer.

